domingo, 25 de setembro de 2016

OS MORTOS SABEM DANÇAR

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Escrevo, Mas escrever não é saber, Confesso, Mas não morro como padre que nada ouve no sacramento da penitência, Trato logo de casar e gerar filhos que coincidam o numinoso com a realidade, Assim as mesmas mentes, Oníricas e vigeis, Unem-se na imaginação e além dela, Vi o sentimento inquieto da mulher das cores, Magoado, Oculto, E aterrador, Então criei-lhe um novo mundo secreto, E este arrancou-lhe o coração que lhe apunhalara, E a levou até a baixa idade média, Onde um lusitano arcaico conta uma história que, Antes e durante, A desconhece, E vai descobrir o novo universo da homossexual feminina e colorida, E será o único a lê-la depois de pronta, Em troca, Sou lançado num conflito armado e desprevenido, Sou raso, No lugar de uma contraofensiva, Sou levado para cima de onde salto para não morrer, Para ouvir uma canção de ninar de bebê para soldado, Minha guerra é um grito com voz de criança, A ela sou uma lira que ao silêncio consagra, Que a Deus glorifico no céu, E Ele perece flagelado como seu filho na terra, Não tão cruel como o inferno astral sem costa marítima, Recorro à cartomante, E dela despeço-me pela mente, E do grande perigo de corpo ausente, De temor, Muitas vezes maior que o próprio risco, Bem diferente da velha combatente com arco de teixo, Que me recebe em sua mais recente vida, Esta existência que me produz e me deixa produzir, Eleva-me a um intrincado labirinto de animais falantes, Desce-me a um subterrâneo de simpáticos humanos idênticos, Viajando-me no tempo, Até a época medieval, Onde minha amada vira freira, E em nossas horas de tédio de memória, De saudade, Andamos, Um pelo outro, Solitários numa praia de dia nublado, Esperando nos rever como uma enfermeira e um combalido num campo de batalha, Como um pai e uma filha na primeira vez que chego a um noivado, E em troca, Sou avistado por quem cuida de enfermos e recém-nascidos, Morenas de roxo e branco, Me vejo diante de um técnico de futebol sem saída para o mar, Prometendo um novo rolo compressor, Encontro a homônima de minha caçula sentada no canto da segunda casa do arqueiro, E o presidente assassinado na base de lançamentos para o espaço sideral, Saio desta noite alta, Dessa noite morta, E vou dar numa região de coronelismo, De clientelismo, Que leva no nome o dia dos que conheceram a morte e viveram, Dos que dominaram a vida e morreram, Trabalho arduamente para mudar as divisas de minha mediocridade e avançá-la no passado, E lá, Aparentemente calmo e imperturbável, Minha cólera impotente é desafiada por uma enigmática trindade, O redentor na proa de um barco, Compenetrado, A rainha virgem deitada no fundo de um lago, Sorrindo de felicidade, O abominável homem das neves bradando do topo mais alto, Sou conduzido de volta à minha imortal milha quadrada, E um amigo esquecido convida-me a juntar-se à sua invenção, Outro, Ainda solteiro, Pede-me desculpas pela bagunça em sua casa, Saímos para tomar o chá das 5, Em noite ainda iluminada por lampião, Ele me canta canções inéditas antes do lançamento oficial, Resolvo entrar no espírito da trama, Meu pai finalmente me chama, Chego a um hospital num campo de Marte, Gero um campo de Vênus para a mãe de uma de minhas vítimas, Ela me pede ajuda, Então faço seu paciente japonês adiar seu suicídio por uma semana, São presentes dos mortos que não sei como pagar, Que, indesejado, Não sei como agradecer e com eles ficar, Nem numa berlinda, Nem num auditório, Saio deste sonho pela porta de uma igreja, Ladeira abaixo com cordão de isolamento desde o altar, Com loiras, Ruivas, Morenas, Uma velha e uma brotoeja, Em harmonia, Põem nos meus ouvidos todo o talento que a natureza não me concedeu, Um som celestial, Uma mágica no ar, Que confia-me a cidade que quer sair da escuridão, E ela me faz revelações abismais, E obrigo-me muito mais quando souber como escrever, O que se faz quando o sol está frio demais.