domingo, 18 de setembro de 2016

ELEFANTES NÃO ESQUECEM

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Mais de uma década e o telefone não toca, A culpa é do meu temperamento explosivo, Do tempo marcado por uma eternidade de segundos, Trancados do lado de fora de minha alegria de viver, Porque abandonei Deus, Faltei aos funerais, E às festas, Mesmo apaixonado por esta airada vida, Que não passa de um circo, Um dia sou a principal atração da noite, Noutro o faxineiro que limpa o picadeiro na primeira hora da madrugada, Cheio das volumosas necessidades deixadas pelos elefantes, E esses animais são os que mais me conhecem, Como todos itinerantes que encontrei, E frustei, Todos passageiros como nuvens, Eleitores de meu ostracismo em involuntária solidão, Na companhia de meu inseparável e salvador rock and roll, De quem não largo, Sem dinheiro para aposentadoria, Sem aquela gente que de mim dependia, Que de mim só herdou ojeriza, Porque minha felicidade sempre esteve com a validade vencida, Minha palavra nunca teve valor, A não ser monetário, Meu caráter perdeu-se na ignorância dos que só enxergam meu invólucro, Porque tentei fazer muitas coisas de uma vez, Nunca as terminei, E desaprendi umas poucas que sabia, Então vou no vai da valsa do macaco, Pulando de galho em galho, Trocando de esconderijo todas as noites, Feito equilibrista, Balançando na corda bamba de uma utopia sem princípio nem fim, Trocando a terra firme pelo palheiro da imensidão dos oceanos, Transformando-me numa agulha perdida para sempre, Na companhia de peixes, E a memória destes animais não dura mais que cinco segundos, E mesmo já tendo sido gato escaldado, Sem medo de água fria, Sou cismado, Temo que um inteligente golfinho me alcaguete no continente, Para tomar o lugar de um triste palhaço que perdeu a graça, E meu cheiro desperte os elefantes, E esses animais nunca esquecem, E avisam a todos que procuram gente para odiar, Que posso ser encontrado no mar, Por isso me apego às últimas águas que me protegem do mundo, Destruindo todas as pistas, Certo de que um dia ainda pego o jeito de me aguentar firme como um pária da sociedade, Conquanto, para todos os castos, Puros e virtuosos, eu siga sendo o fruto amargo da árvore da civilização malsã.