segunda-feira, 26 de setembro de 2016

PARÁGRAFOS 78 A 82 DO LIVRO VALE DA AMOREIRA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Estas legítimas metáforas remetiam Tilly para os limites do transtorno afetivo bipolar definido por médicos da mente, pois após aquele dia malfadado ele passou por transformações abruptas, ora sentindo-se o iluminador, senão o próprio salvador do mundo, ora sentindo-se o único ser humano esquecido por deus na face da terra. Mas seria incorreto comparar sua vida com uma simples gangorra. Tilly era muito mais complexo. Ele era uma sutil matização desses comportamentos extremos, não apenas num sentido figurado, mas também num sentido mais concreto, como a combinação de cores diversas num todo, alegoricamente adequada para se analisar a sua multiplicidade de modos de reações desmedidas.
Amarelo era a cor favorita de Tilly, bem condizente com sua fama de amedrontar-se diante de inimigos e ameaças invisíveis, mas nunca estampada no seu sorriso mesmo quando usava a falsidade como último recurso para declinar um convite que suscitasse perigo. Tilly era da cor e da temperatura do sol, um astro comum na série principal das estrelas, nem excessivamente quente, nem excessivamente morno. Mas quando Tilly conseguia imobilizar sua inibição, nem sempre sem a ajuda de uma birita, ele se expandia como as enormes línguas de fogo das explosões solares, monopolizava conversas e defendia seus pontos de vistas com intensidade, ardor e agudeza. Suas acaloradas discussões eram cegantes e nocivas, vitimando sua própria razão e os interlocutores que se expunham por tempo demasiado aos seus raios ultra violentos. Sem as rédeas curtas de sua fobia social e de seu acanhamento, Tilly podia se transformar numa fera indomável, como a matiz áurea que rechaça todo tipo de atenuação e transborda da tela onde o pintor tenta enclausurá-la com outras nuanças.
Com a mesma inflexibilidade da cor da gema que substituiu os besouros bretões pelas borboletas tropicais, Tilly abandonou estas últimas bisonhamente emolduradas nas paredes de sua casa e passou a perseguir óvnis, estes objetos não identificados chamados discos voadores. A escolha dessa nova presa deveu muito ao livro de Eric Von Daniken, Eram Os Deuses Astronautas, que abriu novos horizontes perdidos para Tilly, e do segundo livro desse autor, As Provas De Daniken, para o primeiro sobre os misteriosos óvnis, A Verdade Sobre Os Discos Voadores, de Donald E. Keyhoe, foi um salto rápido e previsível no abismo. Em menos de dois anos, Tilly já era bem versado sobre o assunto e ainda teve um contato imediato do terceiro grau com o Dr. Allan Hynek, um astrônomo considerado a autoridade mais respeitada da época nos meios da mais nova pseudociência e que trabalhou quase duas décadas num projeto secreto da força aérea da terra dos libertos chamado livro azul que tinha por objetivo investigar se alguém ou alguma coisa estava invadindo o espaço aéreo daquele país. O encontro com o criador das primeiras categorizações ufológicas e que foi convidado por Steven Spielberg como consultor no seu filme ET, ocorreu no Legislado Baixo, e no terceiro e último dia das palestras deste renomado ufólogo, Tilly conseguiu abordá-lo nos bastidores para lhe pedir um autógrafo e não perdeu a oportunidade para fazer a clássica pergunta de quem deseja acreditar em algo, mas que precisa de um ser superior para sancionar sua nova crença:
Sim, eles existem, mas eu estaria mentindo se eu lhe dissesse de onde vêm, pois ninguém sabe nem mesmo o que eles são, respondeu o Dr. Hynek.

A resposta não contribuiu muito para as expectativas messiânicas de Tilly, mas não impediu os seus esforços jesuíticos de catequização tal qual a primitiva igreja cristã que prometeu aos seus fiéis que a sua geração testemunharia o retorno de Jesus, mas como ele não apareceu, tratou de preparar suas comunidades para uma segunda vinda do cristo num tempo a perder de vista e a recomendar prudência e vigilância porque ninguém mais sabia o dia e a hora do temido dia da volta do filho do deus terráqueo. Ainda que esse deus assim como os alienígenas permanecessem em seus altivos pedestais e fora do alcance dos olhos de Tilly, esses óvnis pareciam estar dando sinais de aproximação a várias pessoas em todo o mundo e o que causava fascínio em Tilly era o fato de ainda não se saber, oficialmente, o que eles eram e isso o impelia a fazer prosélitos pelo simples prazer de impressionar as pessoas e não necessariamente para suprimir suas próprias incertezas mediante a propagação de suas ideias. Tilly sempre foi movido por desafios e novidades e os óvnis eram um modismo que o fez se sentir tão próximo de deus como nunca estivera antes. Ele passou a nutrir sentimentos de grandiosidade, desejoso de ser uma pessoa diferenciada e privilegiada, detentora de uma revelação a ser dividida com poucos e pregava como um João Batista preparando o caminho dos seres cinzas e endireitando suas veredas para o encontro final. Para manter o astral elevado, Tilly vivia cantando a música Calling Occupants Of Interplanatery Craft, dos Carpenters, reconhecida pelos novos cultistas como o hino oficial do dia mundial do primeiro contato entre os símios do planeta terra que andam sobre duas patas e os ultra-emissários interplanetários. Mas Tilly não se contentava em confinar seu ímpeto precursor numa área tão distante e isolada como a ribeira do Jordão e ampliou suas audiências perigosa e pateticamente para todas as esferas sociais. No primeiro dia de seu novo emprego, ele ocupou os noventa minutos do horário do almoço fazendo uma síntese do fenômeno ufológico e deixou seus novos colegas indagando como ele teria conseguido passar no exame psicotécnico. No velório de sua avó ele conseguiu roubar a atenção de uma rodinha de contadores de piadas por quase duas horas.