sábado, 29 de outubro de 2016

SOPRO DE VIDA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Somos Marte, Não conseguimos respirar, Quem imagina que se pegue de um homem de nosso vizinho, Onde absorve o oxigênio do ar livre e puro nos pulmões, Para tirar-lhe os jeans e a camiseta, Meter-lhe num traje e num capacete, E fazê-lo dançar e cantar músicas, Ele é terra, No alto de uma montanha congelada e rarefeita, Ou nas profundezas de mares silenciosos como ventres maternos, Sua vida respira não sei que elegância, Gravidade e sutileza, Não conseguimos beber nem comer, Ele imagina que se pegue de um de nós em nosso orbe sem mundo, Onde não ingerimos água pura e livre dos rios doces em nossas gargantas, Onde não introduzimos, Pela boca, Alimentos puros e livres da natureza e sua beleza, No estômago, Mastigando-os e engolindo-os, Para tirar-lhe a sede e a fome, E meter-lhe num corpo físico com alma, E fazê-lo viver humanamente possível, Ele não é Marte, Por baixo de um chão arenoso de zarcão, Ou no pico mais alto de todo sistema, Só o vento continua soprando não sabemos que fúria, Fatalidade e providência, Não somos terra, Não entendemos o sopro da vida, O que não criamos, O que sem saber destruímos, O que somos e esperamos.


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terça-feira, 25 de outubro de 2016

CÓSMICO


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Língua geral da nova terra, Teu som antecede teus passos, Teu silêncio, Suas vilas fechadas, De poucos fogos, Suas barbacãs desarmadas ao nível do mar, Qual sua sombra fugidia, Intricado que rompe a mata escura, Deixa suas portas abertas, Nos dá passagem para nossos mundos, Onde nos encontramos, Caminhando trôpegos, Como coelhos suspeitando do que de longe vem das grandes águas, Do que do fundo vem da imensidão das densas árvores, Quintal descomunal de nosso pequenino habitat, Teu semblante precede teu movimento, Sua voz, Suas aglomeradas vivendas, De muitas moradas, Suas fronteiras ilimitadas longe de meus olhos, Qual lua em dia de sol, Abençoada curvatura que contorna a escuridão absoluta, Falo-te com meu coração na mão, Levo comigo uma braçada de cosmos retardatários, Colhidos pelos nossos caminhos que trilho, Tomado de fé, Sombra e silhueta de meus pensamentos, Descem ao fundo de sua alma, Sinto seu amor universal não movido, De prêmio vil, Mais altivo, E quase eterno.


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sexta-feira, 21 de outubro de 2016

PARÁGRAFO 1 DO LIVRO VALE DA AMOREIRA


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Embora real para Onedin, para os leitores que conhecem, pelas suas sensações orgânicas, e ignoram, pelas suas percepções extrassensoriais ainda não desenvolvidas, tudo o que se passa no decurso do tempo entre seus nascimentos e suas mortes, esta história pertence ao gênero chamado ficção. Ela é um disco voador, um abominável homem das neves, um Abraão e um Moisés, um monstro do Lago Ness, um Jesus de Nazaré, um interno de manicômio que vê o pênis do sol balançar e provocar uma forte ventania e um externo que vê uma rainha inglesa deitada ao lado do seu ministro no fundo raso das margens do mar da Galileia lançar um doce sorriso até a superfície de suas águas tranquilas e cristalinas em plena Palestina do primeiro século da era comum. Ela parece ser o produto de mentes malignas e doentias, pois são esses os nomes que recebem aqueles que dão à providência conotações míticas emendadas com frases prolixas e sem nexo. Onedin não era santo, nem satânico, nem tão burro, e muito longe de ser brilhante, mas às vezes surpreendia com certos algoritmos rudimentares que continham uma lógica tão improvisada que beirava o lirismo, por isso, ele certamente ganharia a simpatia de Alberto Faria, pois ele era um latino que conservava a ficção poética do canto melodioso da cigarra, sem  acusá-lo de rouco e desagradável e conservava também o realismo fantástico da vida exuberante que existe dentro de um sonho, sem acusá-la de prosaica e ilusória. No entanto, quem não conheceu Tilly como Onedin conheceu dificilmente deixará de chamar esta história de esquisitice. Mais difícil do que acreditar nessa história foi contá-la. Para Tilly, teria sido uma agrura que acarretaria nas inevitáveis futilidades e inconveniências quando se tenta convencer ouvidos tupiniquins de que a música popular britânica é a melhor de todos os tempos. Para todos os mortais, é o tempo desperdiçado quando se tenta resgatar o verdadeiro espírito da época em que se viveu. É semelhante ao que Doris Lessing escreveu sobre a tentativa de se reproduzir o ambiente moral de uma era como sendo o mesmo que tentar reproduzir a qualidade de um sonho, pois nenhum tipo de comunicação é possível, a menos que outra pessoa tenha tido o mesmo sonho que você teve e disso você não poderá ter nenhuma prova ou garantia, mas somente confiança e fé. Ainda assim, Onedin estava convencido de que seu inseparável amigo Tilly não desaprovaria sua ousada tentativa de reproduzir aqui a qualidade da inusitada experiência que ele viveu e que Onedin pode constatar com assombro. Porém, muito mais difícil ainda foi fazê-la deixar o âmbito das ideias e entrar no das letras, especialmente para alguém como Onedin, um sexagenário que pouco leu e nada escreveu. Muitos times dos sonhos se tornaram realidade apenas no papel e deste jamais saíram muitos projetos faraônicos e outros tantos bem-intencionados e elaborados. Esta história, no entanto, nunca concebeu planos e esboços e nem conheceu a forma escrita. Ela deu vida a si mesma, alheia às disposições e convicções humanas e à vontade de deus. Ela inseminou-se, desenvolveu-se e pariu-se, sem auxílio de proveta, barriga de aluguel ou parteira. Ela se fez luz sem a pretensão de atingir a dimensão de universos, insciente da sua condição de uma das inumeráveis e pequenas cândidas manchas na imensidão das trevas e que só não são percebidas por quem dentro delas habita. Na verdade, foi Onedin quem se intrometeu em sua vida, tentando cercear sua liberdade primordial e confiná-la numa resma de papiro rabiscado. Mas se Onedin não a escrevesse talvez ele passasse o resto da vida em conflito por ter transformado uma promessa cumprida num segredo não compartilhado que implicasse numa responsabilidade cujo peso ele jamais pudesse suportar e se ele sucumbisse ele jamais se perdoaria na mesma medida em que os amantes do saber jamais perdoariam o mundo se este lhes tivesse negado a genialidade de um Platão por falta da personalidade extraordinária e inspiradora de um Sócrates.

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FREAKS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Um novo americanismo chamado HASHTAG me lembrou de uma crônica do Veríssimo no Estadão em 21/05/2015 sob o título TRANSBOARDING. Nela, Veríssimo disse: Triste o país que tem vergonha da própria língua. E acrescentou: Fico pensando num corretor de imóveis tendo que mostrar, para compradores em potencial, um apartamento no edifício Golden Tower, ou similar, em algum lugar do Brasil. Veríssimo discorre sobre várias palavras em inglês que ele não entende e pede explicações ao vendedor a todo momento. Palavras que deveriam simplesmente serem expressas em português. Apesar do sarcasmo de Veríssimo ser exageradamente parcimonioso, porque, acho, que ele precisa ser sempre politicamente correto para escrever para o Estadão, sua crônica me deu uma ótima ideia pra escrever um novo conto, chamado ENTRE O CÉU E A TERRA, que fará parte de meu livro que está sendo publicado em partes neste blogue. O português é minha língua nativa e jamais me envergonhei dela. Ao contrário, tenho orgulho de falar o idioma de Camões, em que pese o triste fato dele ser o porta-voz de um dos países mais esculachados do mundo, chamado Brasil. O francês é um povo que ainda orgulha-se de sua língua. Depois da segunda guerra mundial, a França entrou em decadência, em todos os sentidos, mas não dá o braço a torcer. A maioria dos franceses fala inglês, mas só responde em francês. Quando ele dá entrevistas sempre exige um tradutor. Ainda vai durar muito tempo a bronca que o francês têm dos americanos por eles terem salvos a França da humilhação imposta pelos nazistas e por evitar que o francês se visse obrigado a falar alemão. A França vive só de seu glorioso passado recente. Quem concede o título de Cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra, a mais importante condecoração concedida pela França, a um escritor como Paulo Coelho, e ainda lhe oferece a medalha de Oficial das Artes e das Letras (Officier des Arts et des Lettres) do ministro da Cultura, uma comenda que supera em status o título de Cavaleiro das Artes e das Letras, é uma país que já não pode ser levado a sério do ponto de vista cultural. Isso apenas reforça a vantagem do povo britânico, que não tem o nariz empinado como muita gente pensa, mas, ao contrário, goza de ambos, franceses e americanos, e até deles mesmos (assista aos filmes De Bico Calado, Porcos e Diamantes, Um Peixe chamado Wanda, Quatro Casamentos E Um Funeral, etc). Estive na Inglaterra inúmeras vezes e cheguei à conclusão de que os ingleses são muito superiores e modestos demais para tanto talento artístico. A Inglaterra jamais deu (e jamais dará) um prêmio a Paulo Coelho, porque lá a literatura é levada a sério. Lamentavelmente, nosso país só leva a sério tudo o que vai na contramão da cultura. Este desvio promíscuo e interesseiro é fomentado pelos nossos governantes (força de expressão minha), com apoio de nossa mídia que arroga para si o papel de último baluarte da justiça social e da crítica ferrenha aos desmandos de nossas governantes. Mas ela é tão é hipócrita e demagoga como qualquer político, e desonesta, como a Rede Globo. Ela está sempre do lado do governo por interesses mesquinhos e para poder levar vantagens sobre tudo e todos, sobre o pobre povo brasileiro, roubado pelo governo todos os dias, ganhando pouco, só o suficiente para a subsistência, sem dinheiro para cultura, para comprar um livro, sem tempo para ler, e, portanto mal falando nossa língua brasileira. Eu poderia dizer que o povo brasileiro é burro, mas seria um tremendo erro e uma tremenda injustiça de minha parte, mesmo considerando-se o fato de que tivemos um burro de raça pura com pedigree na presidência por 8 anos. Somente um burro elege outro para governá-lo. Na verdade, o brasileiro é ingênuo e muito passivo, e é levado, sem perceber, para o mundo da breguice. Mas o brasileiro não está só. Na verdade, 95% da população deste planeta é brega, do tipo Maria Vai Com As Outras, até mesmo na Inglaterra, o país mais civilizado do mundo, há gente brega. A mídia brasileira visa, em primeiro lugar, as classes mais ricas e difunde a ideia de que tudo que há de melhor e sofisticado tem nome em inglês.  Ela empurra esta ideia para as classes pobres que pensam que é chique usar expressões e produtos em inglês. Há alguns anos atrás, uma virtual do facebook enviou-me uma mensagem particular com o número de seu celular, acrescentado que eu poderia enviar-lhe um WHATSAPP quando quisesse. Perguntei-lhe: O que é WHATSAPP? Ela morreu de rir de mim. Ocorre que, embora eu tenha um celular, não vivo pendurado nele, não dependo dele, quase não uso, e até esqueço que tenho um. WHATSAPP é mais um aplicativo americano para comunicações via internet. (rede internacional). É uma multiplataforma de mensagens instantâneas e chamadas de voz para smartphones (telefones inteligentes). Além de mensagens de texto, os usuários podem enviar imagens, vídeos e documentos em PDF (um formato de arquivo portátil), além de fazer ligações grátis por meio de uma conexão com a internet. O que a maioria das pessoas não sabe é que WHATSAPP é apenas um trocadilho com a expressão inglesa WHAT´S UP? que significa, E AÍ? ou QUAL É ? ou O QUE ESTÁ ROLANDO?, etc. O brasileiro poderia, simplesmente, traduzir a expressão para o português e usar um termo coloquial e maneiro como QUALÉ? Que tal dizer: EI, AMIGO, ME MANDA UM QUALÉ. Porém, o brasileiro acha que QUALÉ é brega. Ele se sente mais importante dizendo: ME ENVIA UM WHATSAPP! Ele acha que QUALÉ é brega, mas ele não percebe que o brega é ele. Como dizia Platão: Um louco não sabe que é louco porque ele nunca conheceu a sanidade. Em nossas escolas, não se pode mais mais falar em assédio moral. Onde minha filha de 13 anos estuda, não se pode reclamar de ameaças, provocações, e intimidações por parte de outros alunos. Os professores e coordenadores agora só te entendem se você disser: Minha filha está sofrendo bullying. E a mídia, principalmente a televisiva global, dá a maior força à substituição do português assédio moral pelo inglês bullying. Lembro-me há muitos anos atrás que alguém queria substituir o nome Sao Paulo Fashion Week por Semana da Moda de São Paulo. Imediatamente, uma famosa top model brasileira, retrucou: Se trocarem o nome não participo mais deste desfile. Para aquela celebridade as palavras Semana da Moda eram bregas demais. Acredito que as fezes dela já não são mais marrom. Devem ter as cores das bandeiras americanas e britânicas: azul, vermelha e branca. Raras vezes vou ao Shopping Center Norte (Centro de Compras do Norte). Quando vou e desfilo pelos exuberantes corredores, fico impressionado ao ver nas luxuosas vitrines frases do tipo 50% OFF, que em inglês significa 50% DE DESCONTO. Mais estarrecido ainda fico com frases do tipo ON SALE, que em inglês significa EM LIQUIDAÇÃO. O consumidor não entende o que estas palavras em inglês significam. Só entendem que os preços baixaram, porque ao lado destas mensagens em língua estrangeira o preço anterior (superfaturado) tem um enorme risco em vermelho, e abaixo dele aparece o novo preço 50% mais baixo (mas ainda caro demais). Até mesmo nosso respeitável Dicionário Aurélio adotou essa idiotice. Acabou de introduzir oficialmente na língua portuguesa o verbo TUITAR, Eis o significado de tuitar no Aurélio: Postar no Twitter comentários, informações, fotos, etc. Como todos sabem, twitter é mais uma rede social e um servidor da internet que permite aos usuários enviar e receber atualizações pessoais, por meio do website (sítio de rede) do serviço, por SMS e por softwares (programas) específicos de gerenciamento. SMS é uma abreviação do inglês Short Message Service (Serviço de Mensagens Curtas) que poderia ser chamado SMC em português. Twitter em inglês significa PIADOR, do verbo PIAR. Os pássaros PIAM, portanto são PIADORES, mas para os intelectuais brasileiros é muito feio e brega usar o termo PIAR para esta rede social da internet. Para o Senhor Aurélio, TUITAR é muito mais elegante, mais sofisticado, mais inteligível do que o nosso PIAR. A idiotice mais recente é a nova mania americana (imediatamente adotada pelos babacas brasileiros) de marcar qualquer assunto, por mais idiota que seja, com o símbolo do jogo da velha: #. E aqui no Brasil todos têm que pronunciar exatamente como os americanos pronunciam, ou seja HASHTAG. Os americanos sempre usaram o símbolo # como abreviação da palavra número. Exemplo: # 20 (número vinte). De repente, os americanos decidiram que qualquer assunto, por mais trivial e vulgar que seja, deve ser identificado com uma palavra chave. Por isso inventaram em 2014 uma nova palavra, HASHTAG que significa exatamente isso: PALAVRA-CHAVE DE UM ASSUNTO, OU TEMA, OU TEXTO. Pode ser qualquer assunto. Exemplos: # Reality Show do Ronaldinho Gaúcho, #Levir Culpi não comemora gol impedido, #As curvas de Giovanna Ewbank em vestido transparente, #Joana é página virada na vida de Gabriel. E os brasileiros não podem chamar o símbolo # pelo nome oficial em português: Cerquilha ou o popular jogo da velha. Ele é obrigado, principalmente na televisão, a dizer HASHTAG e pronunciar a palavra em inglês direitinho, senão pode ser demitido. Bestialidade é o que não falta neste país, e só perde para a corrupção institucional. Os mais bestas são aqueles que se julgam acima de média, mais esclarecidos, que falam idiomas, e que não têm o que fazer. Alguns, por motivos exclusivamente comerciais, trouxeram para o Brasil uma tradição americana chamada HALLOWEEN (Dia das Bruxas) que nada tem a ver com nosso folclore e nossas tradições. Tentaram transformar o Dia das Bruxas no Dia do Saci Pererê, mas não pegou, porque qualquer bestialidade que venha dos EUA é sempre a melhor do mundo. Não duvido que não vai demorar muito para que estes mesmos bestas instituam no Brasil o Dia de Ação de Graças (THANKSGIVING DAY) uma tradição exclusivamente americana. Há outros bestas que acham que o Brasil já é uma potência olímpica no esporte e que nosso país tem talentos demais para poucas modalidades esportivas. Para não desperdiçar o potencial de tantos atletas, eles resolveram trazer para nosso país o basebol e o futebol americano. Talvez eles não saibam que toda pessoa que adora esportes, mas não tem talento nenhum para qualquer tipo de modalidade, acaba jogando basebol e futebol americano. Eu sempre digo isso aos americanos quando vou aos EUA, e eles ficam putos da vida comigo e, corretamente, dizem que sou subdesenvolvido. Eu lembro a eles que os EUA têm a melhor tecnologia do mundo, mas péssimas ideias artísticas, Basta assistir a todos os filmes que eles produzem todos os anos, especialmente aqueles que ganham o OSCAR, um espetáculo criado por bestas para bestas. Por falar em esporte, o boxe, que pode matar, causar o Mal de Parkinson e deixa outras sequelas irreversíveis, sempre foi chamado de NOBRE ESPORTE. Agora, a Globo, por puro interesse financeiro, trouxe ao Brasil um esporte ainda mais nobre, o UFC, que está muito próximo da carnificina das lutas entre gladiadores no antigo império romano. E por falar em Globo, fugindo um pouco dos esportes, outra nobreza é o famoso BIG BROTHER BRASIL (o Grande Irmão Brasil) que, como já escrevi em outro texto, não passa de uma versão erótica das banalidades globais em horário nobre, uma escola preparatória para jovens mulheres que pretendem ganhar a vida pousando nuas. Acredito que o melhor nome para este programa, mantendo o inglês que é imprescindível, seria BIG GLOBAL SHIT (a Grande Bosta Global). E que novidades o Sr. Aurélio está preparando para os bestas quadradas (freaks)? Verbos como réchitegar (com pronúncia nordestina), feissibucar, uótsapar, gugolar, blogar, instagramar, iutubar, linquedlinar...? Meu corretor ortográfico vive me alertando: Não é e-mail. É correio eletrônico. Não é blog. É blogue. Mas sempre que usei a palavra blogue alguns leitores me perguntaram: O que você quer dizer com blogue? Alguma raça de cachorro como o buldogue?


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terça-feira, 18 de outubro de 2016

GENTE FELIZ


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

O céu é um copo vazio de chuva, Sorvida pelo solo fértil como diamantes de primeira água, Suado de gotículas dos orvalhos da graça de Deus, Oferendas ao sol que limpa o tempo, Azula o firmamento de uma ponta do arco-íris  à outra, Salto de paraquedas, Ele não abre, Em queda livre, Sinto a liberdade do pássaro de espírito apátrida, Do eterno sonho que sonhava minha alma ansiosa e extasiada, Fazendo deste mergulho no vácuo o momento mais alegre, Que sempre me fora adiado, Qual vida passageira que vive só uma vida, Qual brancas nuvens baixas e transitórias, Tênues e imóveis, Matando-me como uma bola no peito aberto, Aos últimos raios filtrando-se entre as frouxas luzes do crepúsculo vespertino, Às estrelas que estão para nascer, A mais um belo dia que me conduz ao altar do mundo e me faz acreditar, Me faz sorrir aos amigos o encantamento de que estou possuído, Contaminado de gente feliz.




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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

MINDY


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche);

Sempre vivi na ilusão de que jamais viria ao conhecimento de uma insegurança, Uma fraqueza que tão desgraçada me fez a vida inteira, Enquanto você era moderada por natureza, Eu radicalizava em tudo, Até no amor, Enquanto eu crescia adulto fraco na incerteza, Você já era resoluta demais para uma criança, De tanta beleza, De tanto vigor, Mesmo que você não saiba que seguimos existindo em tempos separados, À distância, Namoro seus lindos olhos azuis, Seus cílios e supercílios maquiados de rímel negro, Não desvio minha atenção para seu corpo, Convirjo-a em seu rosto  graciosamente severo, Este conjunto de traços que criou-se em torno da meiguice, Resistindo à minha rendição, Por jamais poder ser apenas mais um dos homens na sua história, Resistindo até ao esgotamento completo, Reconheço seu talento e meu arrependimento, E sem você saber, Vejo-te todos os dias, Na hora que eu quiser, E só com isso me contento, Você atrasada na hora de nascer, Eu precoce na hora de me perder.     

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quarta-feira, 12 de outubro de 2016

PARÁGRAFOS 2 A 5 DO LIVRO VALE DA AMOREIRA


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.  LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)



Sem realmente saber como e por onde começar, Onedin deteve-se por algum tempo no fato desse caso insólito ter tido como ponto de partida Tilly correndo de alguém, algo que se repetiu de forma notável em ao longa de sua vida. Todavia, continuava atormentando-o a preocupação em trazer essa quimera o mais próximo possível daquilo que se considera efetivamente existir, missão que sempre temeu ser tão inconsequente e irracional quanto trazer o reino dos céus à terra santa nos tempos das cruzadas. Consultou o dicionário em busca de outras definições para uma palavra conveniente que lhe veio à mente para explicar este imbróglio, e foi numa frase de João Gaspar Simões contida no dicionário que encontrou o fio da meada deste livro. Se o daimon de Tilly ouvisse esta última palavra, ele imediatamente advertiria Onedin de que esse calhamaço de escritos não passaria de uma surrada colcha de retalhos roubados do melhor de todos os pais dos burros de sua língua. Mas é certo também que Onedin fingiria não ter ouvido o acautelamento e começaria a divagar.
Por que alguém escreve coisas para enganar os outros? Como se descobre que alguém escreve coisas feitas para enganar, mas que não enganam ninguém? Como a incoerência, o sonambulismo, o onirismo, o ilogismo e a eventualidade levam a tal descoberta?
Enquanto meditava sobre estas questões, Onedin decidiu recapitular as mais marcantes circunstancias separadas pela relatividade do tempo em que Tilly precisou sair correndo, e optou por substituir os verdadeiros nomes dos personagens e dos lugares desta história fora do comum para evitar constrangimentos.
A impressionante e derradeira conversa com Tilly impregnou-se na memória de Onedin de forma indelével e trazia-lhe recorrentes lembranças da última vez que Tilly correu tanto, numa situação semelhante à penúltima, e ambas caracterizadas por palavras opostas àquelas que João Gaspar Simões empregou para falar da poesia de Eugênio de Andrade: uma coerente com o conteúdo básico do conhecimento absoluto, e outra com ocorrências simultâneas sem relação causal, mas com o mesmo significado; ambas muito mais que sonâmbulas, verdadeiras projeções astrais; oníricas, mas impessoais; tão lógicas quanto o conceito de desordem no universo e tão constantes como a insensata busca do homem por um significado para a vida. E ao contrário da maneira de conceber e realizar atribuída pelo crítico ao poeta, as verdades que nesta penúltima se comprimiam intensamente como num ovo cósmico eclodiram quando Onedin pretendia dizer coisas feitas para não enganar, mas que acabam fazendo com que todos se sintam enganados. No entanto, estarão irremediavelmente enganados para sempre aqueles que nunca se empenharem em compreender a querença desta explosão:
Quero luz!, gritava Tilly com medo do escuro.

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sábado, 8 de outubro de 2016

UM DIA SEREMOS ENCONTRADOS





Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche);

Mulher, Não posso aceitar a irrogação de pecha de sandeiro, Sim, Concordo, Sandeiro é um neologismo pra lá de mixe, Pior que sandejeiro, Mas não pense que vou baixar meu fogo, Quer você queira me ver como um indivíduo de difícil convívio, Ou um gênio complicado, Um gênio tal qual luz que de tão forte fascina e ofusca sua carência e sua dependência de minha atenção, Conforme-se, Mulher, O mundo verga os joelhos, Ansioso, Suplica à terra e ao céu, Para que tudo que é dito e escrito tenha pé e cabeça, Para que tudo faça sentido, Mas eu cuido apenas dizer-lhe o amor que me tortura, O amor que a exalta e a pede, A chama e a implora, Então, Minha querida, Deixa de ser o bom senso que me puxa as orelhas, Que se irrita, Como se eu fosse um cheiro amoniacal, Acre e forte, Dentro de suas narinas, Que estrago suas noites, Enquanto você boceja sobre os poucos in-fólios que dou-me ao trabalho de te ler para que percebas quantas lágrimas de tristeza estanco nos recônditos de minha solidão, E ainda assim, Você quer me impor dois castigos, Ajoelhar no milho por duas horas, Seu preferido, Dói no joelho, Mas cura a dor da alma, E revela minha unicidade, Que você acha que não reconheço, E não valorizo, E de onde você tirou a ideia que tento comprar a amizade de meus filhos com bens materiais? Nenhum de meus sacrifícios conta? Ego autem in innocentia mea ingressus sum: redime me, et miserere mei, Ah, Agora você me lembra que o que me disse no inicio de nossa conversa foi sendeiro, Sendeiro? Você quer dizer que sou um sujeito desprezível por meu servilismo? Você não estaria referindo-se às dimensões extensas dos muitos universos para os quais você não atina? Ah, Sim, Você atina para alguma coisa, Para sua nora nissei que se preocupa com os japoneses que estão muito silenciosos, Comendo pelas beiradas, E que nunca esquecerão o que os americanos fizeram com Hiroshima e Nagasaki, Mas, Perdão, Sua nora ainda não percebeu que calados são os chineses, Que nunca esquecerão o que os japoneses fizeram com eles na segunda guerra mundial, Pode apostar em qualquer casa de Londres, Eles tomarão toda a Ásia de roldão, E em um século mais, O resto do planeta, Alienação não lhe trará alívio, E fora da caridade sempre há salvação, Mas você se vitima, Diz que abriu mão do carro que tinha simplesmente porque dirigir é algo que não condiz com seu modo de ser, E se desloca horas madrugada adentro só para falar comigo, Para me dizer que deseja ser freira fora do convento, Para me dizer que se entristece quando desce de um avião, Que quer viver no ar, Então vá voar nos barrancos das nuvens e flori-los com requinte excessivo de um hábito preto sempre na moda, Quem sabe você esquece que nossos corpos não são emprestados? Que nascemos e morremos uma única vez? Mas você insiste em se lamentar, Deve haver algo mais, Não podemos estar simplesmente largados aqui à nossa própria sorte, E o pior é que estamos, Não só neste universo, Porque eles são incontáveis, Os teus só de dimensões paralelas que viajam na maionese, Os meus guiados pela lógica, Pela razão, Desprovidos da mistificação do significado da vida, E então, Agora vai me dizer qual é o segundo castigo? Eu não gosto de água, Mas te levo de barco em alto mar, Invoco uns amiguinhos que só eu conheço, Você se atira na água, Junto a eles, Tubarões, Nada até a praia na companhia deles, Morrendo de medo, E quando você pisa em terra firme, Você descobre quem realmente é, Duvido que algum dia saberei quem realmente sou, Mas concordo com você: Deve haver algo mais, E não seremos nós que descobriremos, Um dia seremos encontrados.

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sábado, 1 de outubro de 2016

PRIVILÉGIO

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Ainda que eu tivesse toda a riqueza do mundo, e não soubesse que você existisse, não entenderia de onde viria tanto desprazer por uma fortuna conjurando em minha perdição meus erros e uma paixão que poderia ser ardente, ainda que eu ouvisse as vozes dos anjos, e não tivesse ouvidos para você, eles jamais se prestariam a cupidos servidores, não se atreveriam contra o céu, e não beijariam a mão à deusa dos amores, ainda que eu fosse um semideus maior que Bach, e não tivesse o privilégio de gostar mais de você, minha vida teria menos sentido ainda e o universo choraria mais bilhões de vezes com nossa cansativa busca de seus inexoráveis mistérios, quando eu era menino, e você ainda não era, minha alma, sem-ventura, pouco aceitava, já ansiava mais que silêncio e prece, já desejava fugir-me para encontrar alguém que te criasse, logo que acabei com as coisas de menino, e você veio à luz, cheguei à meia idade com um resto de irresponsabilidade menina, um perdedor em quem ninguém apostaria, não invejo os que esqueceram a cor das primeiras calças que vestiram, não atino com as de ontem que ainda hoje enfio, sem meu amor por você aqui já não mais estaria.

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VOCÊ É LINDA DEMAIS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche) 


Minha vida é nova e ordinária. Meu coração é robusto e impuro desde a primeira comunhão. Meu destino é incerto e meu anjo da guarda anda inseguro com minha volubilidade. Ele evita palavras contundentes como rebeldia. Meu tempo estende-se por décadas. O de meu avô terminou, mas este velório parece infindável. Estive junto ao caixão, varei a noite improvisada em beira de cama e espalhado pelo chão. Levantei mal dormido e aquebrantado, desesperado por não ver nenhum sinal desse funeral chegar ao fim. Ruminei palavras vergonhosas e deixei escapá-las algumas vezes aos ouvidos de outros temperamentos jovens. Não ouvi admoestação, nem ecos de minha maldade. Há gente demais dentro da casa e fora dela. É difícil conter os bocejos e a irritação. O sol que se aproxima do meio-dia oferece-se para aliviar a monotonia das longas horas à meia-luz das velas, mas exaspera o desconforto com a delonga do ritual. Mas, afinal, que horas será esta porcaria de enterro! Não paro de esfregar os olhos sonolentos. Vejo aumentar o número de pessoas do lado de fora, encaminhando-se para os seus carros. Finalmente, fecharam o esquife de meu avô. Meu pai está no comando de tudo, como sempre. Sem ele não há enterro nem morte. Que desgosto ele teria se pudesse ler meus pensamentos! Não tem olhos marejados, nem peito apertado, porque sua vida é dura, mas linda. Sofreu calado nas mãos de meu avô desde os doze anos, subindo e descendo escadas de altos prédios em construção, carregando pesadas latas d’água e de cimento sobre os ombros que renderam-lhe um reumatismo de seis meses de cama com apenas vinte e um anos. Sem ajuda de ninguém, sem os estudos que lhe foram negados, ele conquistou sua independência financeira cedo e muitos precisaram dele. Mais do que todos, meu avô, que depois da meia-idade, depois de ter perdido tudo que ganhou com amantes e jogatinas, caiu derrotado e enfermo e foi abandonado por todos. Menos pelo meu pai que o acolheu e passou a cuidar dele como um filho incapacitado. Sobre meu avô ouvia-se apenas uma frase de meu pai: ‘Devo minha  profissão a ele’. A existência difícil que teve foi celebrada com generosidade. No cemitério todos querem estar junto à cova. Ninguém arreda o pé até o sepulto ser completamente cimentado. Meu tio desgarra-se da aglomeração e caminha solitário e lentamente pelas ruas delgadas, mãos cruzadas para trás, perscrutando os dois lados, sem ignorar nenhum bem-amado. Eu o sigo à distância até chegar à próxima quadra e ali me detenho. Lá está ela, cândida adolescente a caminho da puberdade, imersa, de corpo e alma, nos cuidados do túmulo. Nada desvia sua atenção. Nenhuma palavra vozeirada nas proximidades, nenhum vulto na sua visão periférica abstraída, nenhum transeunte caminhando a passos apressados e pesados pela sua alameda estreita, nenhum pássaro curioso pousado sobre a cruz sinalizando o mirante da sepultura. Gestos delicados deitam, gentilmente, flores na cobertura e aos pés da tumba. Ela agacha-se e levanta-se e cada movimento seu dita o ritmo de paz e quietude que flui no cemitério. Se há fantasmas em volta, hoje eles estão espantados. Uma última vistoria em torno da campa alinha seu rosto com o meu por fração de segundos. Cabelos negros, lisos e armados, realçam a alvura da face de feições harmônicas, que começa com uma testa graciosamente convexa, chega às sobrancelhas volumosas e bem aparadas, encimando olhos verdes, esmeraldas que reluzem solitárias no meio de um amontoado acinzentado. Abaixo deles, o pequeno nariz arrebitado, rodeado por maçãs levemente protuberantes que se curvam até o queixo esculpido à mão. Acima dele os lábios, moderadamente carnudos, estão fechados, sugerindo respeito, mas descontraídos, por trás dos quais parece haver a ligeira contração dos músculos faciais de Monalisa, como se houvesse um anjo com um sorriso sobreposto sobre seu semblante sem torná-lo facilmente perceptível. Ela prepara-se para partir. Meu tio passa por mim e alerta-me que todos estão indo embora. No carro a caminho de casa, a moça continua na minha retina. Não espero vê-la novamente e nem desejo. Ainda não consegui ir além da admiração e da paixão platônica. Mas quero preservar aquele precioso fragmento de segundo para sempre. Resolvi que ela dará origem ao meu décimo álbum, cuja faixa título falará da garota mais linda do mundo que eu vi num cemitério. O álbum está quase completo. Só falta a música principal que não consigo escrever e nunca escreverei, porque aquele breve momento foi concebido só para os olhos. Foi feito para ser visto e esquecido no reino dos mortos, como são esquecidas a maioria das pessoas comuns que sustentam o mundo, como meu avô, que dentro de poucas gerações será mais um dos muitos seres passageiros e esquecíveis e cuja existência na terra passou completamente despercebida, um nome que nunca existiu para a posteridade. Aquela moça seguiu propiciando muitos instantes semelhantes, em circunstâncias diversas e, se quem os presenciou não experimentou igual êxtase, é porque, de fato, a beleza está somente nos olhos de quem a vê. Meus olhos a viram e morrerão com ela. Foi um instante de felicidade da qual a vida é feita e que não pôde ser ofuscado pela morte, nem de meu avô, nem de meu pai. Platão disse que sofrimento e felicidade andam sempre juntos. O  prazer nada mais é do que a supressão da dor. A visão daquela moça no cemitério  concedeu-me alívio para um pesar imaturo e desrespeitoso. Ensinou Lennon que a  vida é momentânea, sem tempo para fofocar e brigar, e não é nada mais do que um instante de prazer, e a morte nada mais do que o desfecho deste momento. Ensinou Sêneca que quem sente medo na hora da morte não foi feliz. A vida é linda demais para preocuparmo-nos com seu fim. E aquela moça era linda demais para eu imaginá-la só para mim.

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AO REDOR

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Encontrei um sanhaço morto em meu quintal, Azul acinzentado, Num dia ensolarado, Asas enfeitadas, Endurecidas, Recolhidas junto ao corpo, Era adulto, Não tinha sinais de violência, Deve ter morrido por envenenamento ou doença, Porquanto ninguém vê pássaro morrer de velhice, Velei-o por um tempo, Como uma mãe vela pelo filho que dorme, Dei-lhe um funeral digno, Coloquei flores à sua volta sobre a terra, E como um saltimbanco, O sol apontou todos seus raios para minha guirlanda, Silenciou todo espaço, E brilhou toda fauna na vizinhança, Entrei, Liguei a TV, Outra tragédia é anunciada, Gente morrida, Desaparecida, Coisas perdidas, E muitas lágrimas de sangue que já não cabem nos olhos, E só irão chocalhar nos pescoços de sobreviventes como as contas escuras das lágrimas de santas marias por não terem a quem recorrer, É calamidade, De grandes proporções, Dela falarão por vários dias, Até ser esquecida, Quando a terra estiver do outro lado do sol, E eu estiver do lado de cá para não me lembrar do que aconteceu por lá, A grama crescerá sobre a última morada de meu passarinho, E o cobrirá de eterno carinho, A terra voltará para onde estou, E não poderei evitar que ela me faça recordar o que daquela desgraça sobrou, Escassas vidas sem interesses reais, Alheias a tudo quanto se passa ao redor, Sem as doces cantigas dos namorados da beira dos rios, Ainda por muito tempo a tristeza andará penando em suas águas turvas, Cada vez que a lua completa uma volta em torno das noites, Tenho meus longes de que, Mais hoje, Mais amanhã, Terei meus dias pela proa com os que vieram ao mundo para nos alegrar e os que vieram só para nos enlutar.

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O ANO DO MACACO (segundo conto da TERRA DOS LOTÓFAGOS)

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM (a trilha sonora do filme Império do Sol). Sem música, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Estávamos na selva há quase dois meses, desde o começo de Dezembro, molhados das torrentes que não distinguiam o dia da noite, das águas encorpadas de barro dos rios que empastavam a roupa no corpo, o cabelo sob o capacete, cheirando a mofo. Estávamos esgotados, infectados e até mesmo imunizados por todos insetos da região que deviam nos identificar pelo tipo sanguíneo. Dormíamos poucas horas a cada dois, três dias. Eu ficava sempre olhando para o céu nublado esperando ver queima de fogos celebrando a passagem do ano. Quem sabe um de nossos espanadores passasse pela área cegando a escuridão com mil e quinhentas labaredas por minuto. Ou então umas de nossas mortes sussurrantes com suas enormes línguas de fogos em forma de leque que viajavam longe e deixavam rastros resplandecentes até desparecerem como estrelas cadentes, depois de, literalmente, dizimarem todas as formas de vida num raio de um km. Já devíamos estar no final de Janeiro e não vi nenhuma comemoração, nem do ano novo solar, nem do novo ano lunar. As nuvens que desaguavam estacionavam nas alturas e esperavam ver um espetáculo de artifícios pirotécnicos. Eu tinha cocaína e papelotes de maconha suficientes para mais umas duas semanas. Deviam faltar poucos quilômetros para chegarmos ao principal posto de comando. A mata fechada começava a se abrir, as árvores mais grossas espaçavam-se e bem lá no fundo do horizonte já se podia ver pequenos clarões de civilização pulsando por entre a vegetação. De repente, sofremos mais um daqueles ataques súbitos. Atiramo-nos ao chão e fizemos dos arbustos rasteiros trincheiras improvisadas. Não tínhamos nenhuma ideia de onde partiu o bombardeio. Estranho foi que este não era como as costumeiras investidas de nossos adversários e mais parecia uma  das nossas, como fogo amigo. Mas a prova de que não era foi a forma como fomos facilmente identificados naquele negrume e alvejados com precisão, com a certeza de que não estávamos sendo confundidos com os nossos inimigos. À noite, costumávamos varrer o perímetro com holofotes infravermelhos que nos permitiam identificar a localização exata dos nossos adversários sem que eles soubessem que haviam sido descobertos. Em seguida, os holofotes eram revertidos à luz visível, deixando nossas presas sob a mira implacável de nossos morteiros. Agora, estávamos na posição inversa. Eu via até mesmo holofotes sendo usados para rebater luz nas nuvens para melhorar a visão de patrulhas em terra e pelotões próximos utilizando telescópios. Eu me via cercado de claridades por todos os lados e as bombas que caiam sobre nossas cabeças sem parar transformavam aquele sedimento úmido, infestado, abafado e caliginoso no verdadeiro inferno do qual falavam-me quando era criança. O meu companheiro do lado esquerdo disse-me:
Temos que fazer alguma coisa rapidamente senão vamos morrer. Eu sei como sair daqui. Siga-me.
Ele falou-me com voz de superior, mas bem amistosa. Eu tremia de medo e agarrei-me ao uniforme daquele que parecia ser de patente mais alta e deixei-me ser arrastado por ele. Talvez só ele percebeu que todos estavam mortos e que sobraram só nós dois. Borrei as calças de pavor e não largava de meu companheiro. Rastejamos por quilômetros, noite adentro, feito répteis ainda não adaptados ao chão da floresta, nos esfolando, com bocas abertas e esbaforidas, engolindo mato e insetos e eu socando cocaína nas narinas. Os insetos também estavam mais preocupados em bater em retirada do que em fazer a habitual refeição noturna. O estouro dos foguetes impulsionava-os à nossa frente. Num dado momento, meu companheiro ergueu-se com serenidade. Ainda deitado, olhei para trás e percebi que não havia mais bolas de fogo no céu. Só ouvia a cantoria dos costumeiros noctâmbulos e famintos parasitas, agitados com o atraso do jantar. Começamos a caminhar. Notei que a selva havia ficado para trás. Abrira-se à nossa frente uma enorme clareira, mas não era um vilarejo. Era uma imensa área desolada, com apenas um sinistro edifício bombardeado e abandonado. Meu companheiro fez sinal para que eu esperasse e, com cautela, olhando para os lados, aproximou-se furtivamente do prédio e, à sua entrada, deu sinal para que eu viesse e despareceu ao subir as escadas. Apertei os passos com as pernas bambas para alcançá-lo. Quando cheguei no topo do primeiro andar, surgiram dois cachorros dobermann atrás de mim, galgando dois degraus de cada vez, prontos para atacar-me. Eram bem mais velozes do que eu e iam devorar-me. Gritei. E o meu companheiro falou lá de cima
Feche a porta atrás de você.
E de fato havia portas de metal que separavam os andares. As duas feras, bravas, raspavam a porta, ensandecidas, com unhas ruidosas, como se soubessem que podiam abrir um buraco através dela. Continuei a subir. Percebi que as escadas eram feitas de metal sólido, com várias perfurações circulares que permitem enxergar através delas, como aquelas escadas e andaimes dentro de fábricas. Enquanto passava de um degrau para outro, sentia firmeza e segurança. Cheguei ao último andar. Um enorme salão vazio, sujo, com vários objetos quebrados e espalhados pelo chão. E lá estava meu companheiro, sentado no que sobrou do batente da janela, uma perna para fora, outra sobre o beiral e dobrada, servindo de apoio para seu cotovelo que levava a mão à cabeça de olhar perdido, estático, contemplando a paisagem. Assim que esbocei dirigir-lhe a palavra, ele saltou, assustado, levou o indicador aos lábios a pedir-me silêncio, e apontou a metralhadora para a porta que dava acesso à escada. Ouvi passos acelerados e destemidos de quem sabe onde quer chegar. Bem à nossa frente despontou um jovem soldado, com menos de 20 anos, louro, uniforme intacto e limpo. Sorridente, mas respeitoso, ele bateu continência e disse:
Recruta apresentando-se ao comandante para ser levado ao front.
Descansar, recruta. Por que você quer ir ao front?
Senhor, meu avô morreu na primeira guerra mundial, meu pai na segunda e, seguindo a tradição da família, eu devo lutar até a morte nesta.
Está bem, amanhã cedo te levarei ao front. Descansar!
Obrigado, senhor!
Como se estivessem seguindo o script de um filme, cada um, naturalmente, procurou um canto para se recostar. Mantive-me de pé, aproximei-me do companheiro que passei a chamar de comandante, pois era clara sua ascendência sobre nós, mas ele antecipou-se às minhas perguntas.
Soldado, estamos cansados e precisamos dormir. Amanhã temos uma longa jornada. Temos que levantar cedo para levar este herói ao front e depois voltaremos a este edifício e, então, vou mostrar-lhe algo que você nunca viu. Boa noite.
Eu deveria estar morto porque é impossível sobreviver a uma investida tão implacável como a desta noite. É impossível acreditar em tudo que ocorreu desde a ofensiva de nosso inimigo até chegarmos neste prédio. Se estou morto então sou um daqueles espíritos que, segundo os adeptos da vida após a morte, permanece no local de desencarne e segue vivendo normalmente. Será este também o caso daquele jovem herói e deste estranho comandante que continuam existindo sem saber que já morreram? Depois de tantos acontecimentos utópicos que vivenciamos não há nada mais quimérico do que este comandante planejar um retorno a este edifício para me mostrar algo que nunca vi antes. Pior do que morrer sem saber é sentir o gosto amargo de uma impensável derrota. Quando me alistei voluntariamente para esta guerra estava preparado para tudo, logicamente para uma vitória inapelável em primeiro lugar, mas não para morrer. Vim aqui para lutar pela liberdade dos povos, para evitar que um efeito dominó alastrasse o mal por toda uma região e a subjugasse. Meus governantes me passaram a certeza de que esta é uma guerra já vencida e que precisamos só de um pouco de tempo e paciência para voltarmos para casa com mais louros de nossos sucessivos triunfos. Foi a plena consciência de nossa esmagadora superioridade no mundo, comprovada pelos nossos êxitos em conflitos mundiais e regionais recentes, que levou a maioria de jovens como eu a se apresentar para servir minha nação por livre e espontânea vontade. Apesar de nossa supremacia, teremos baixas. Numa guerra sempre há baixas dos dois lados. As nossas serão mínimas. De acordo com meus superiores, bem menos de meio por cento retornará em caixões e no máximo dez por cento sofrerá ferimentos, graves e leves. Menos de meio por cento é um número desprezível, mas sempre rezei para não fazer parte dele. Seria o mesmo que ter a sorte de ganhar sozinho na loteria. Não desejo nem este azar nem esta sorte na vida. Estes dez por cento de inválidos me dão calafrios. É um percentual considerável. Uma em cada dez pessoas é canhota, e eu conheço muitos canhotos. De acordo com alguns pseudo cientistas, é de uma em dez as chances de eu estar sonhando neste momento. E se estes fanáticos por fantasias científicas estiverem certos? Posso estar inconsciente após ter sido gravemente ferido e tendo pesadelos. Se não estou morto e nem sonhando, então tudo isso se deve aos alucinógenos que tomo em grandes quantidades todos os dias. E hoje abusei na quantidade de tanto medo de morrer. Eles são imprescindíveis. No início me revoltei com a necessidade de ter que usá-los, mas hoje não mais suportaria estar aqui sem eles. Apesar de nossa determinação e valentia, os soldados, recrutas e veteranos, receberam um arsenal de drogas para poder enfrentar o inimigo. Como pode uma superpotência como a nossa ter que tomar drogas para ter coragem de enfrentar nossos inimigos? Eles são pequenos e frágeis, ratos de esgotos que fazem tocas nas florestas tropicais e nos surpreendem com frequentes emboscadas. Eles são covardes. Não têm coragem de lutar em campo aberto como nós. Poderíamos dar uma solução final a este paizinho, sair daqui e jogar bombas atômicas sobre eles, como já fizemos com outra nação. Fui para um dos cantos e me recostei. Não esperava dormir nesta noite. Minha adrenalina estava muita alta e meu coração batia forte. Estava extremamente aturdido e não atinava direito para o que estava acontecendo. Voltar para cá para ver algo que nuca vi? Depois de tudo pelo que passei, de tudo que vi, agora espero ver apenas o paraíso. A noite ainda não tinha terminado para mim. Na verdade, não tinha certeza se minha vida ainda não tinha terminado também. Pela primeira vez estive frente a frente com a morte e, em virtude da sucessão de eventos misteriosos que me acompanharam até aqui, não sei se morri e estou em alguma outra dimensão, mas ainda preso à guerra, ou se escapei e estou delirando com o trauma de ter chegado tão próximo do fim, se estou sonhando ou se estou endoidecendo com uma overdose. Sentei-me num canto como fizeram os outros dois e eles já pareciam ter entrado em sono profundo em poucos minutos. O comandante tinha um sono sereno, mas um rosto sofrido e judiado, rosto de muitas guerras, longe de casa. De onde será que ele veio? Não conseguia dormir e continuei refletindo sobre tudo que aconteceu. Participei de muitas batalhas, sempre em posição de vantagem em relação ao inimigo, embora algumas vezes estivesse perto de ser atingido. Mas desta vez, nesta noite, fui surpreendido e completamente dominado pelo inimigo, à mercê dele, esperando morrer a qualquer instante. Meu pelotão todo foi impiedosamente dizimado neste ataque surpresa, exceto eu e este estranho soldado que fala e age como um oficial e que jamais tinha visto em toda minha companhia que se dividiu em três grupos rumo a diferentes posições estratégicas na mata. O horror da guerra esteve sempre presente em minha mente a cada segundo de nossas incursões pela selva, mesmo nas raras e poucas horas de sono, sempre atormentado por pesadelos fragmentados e assustadores. Quando a gente se vê em meio a um inferno como eu me vi nesta noite, cercado de explosões ensurdecedoras e intermitentes, você não espera outra coisa senão a morte. Não há tempo para rezar e você se despede rapidamente da família que nunca mais verá e se encolhe torcendo para que a morte seja bem rápida, com balas ou uma granada na cabeça. Os segundos que antecedem a morte parecem uma eternidade queimando numa fogueira medieval. Não há tempo e nem esperança por um milagre. Nem mesmo o desespero incontrolável traz à mente qualquer ideia de um possível milagre. Mas este portento surgiu na figura deste sinistro soldado que sabia como me tirar daquele martírio. Em meio ao pânico, você se agarra à menor possibilidade de sobreviver. E eu agarrei-me àquele desconhecido soldado. Mas como ele conhecia o caminho pela mata fechada, ainda mais se rastejando na escuridão? Como ele sabia como chegar a este prédio assombroso numa clareira tão distante e que lhe parecia tão familiar? E aqueles dois cães que me ameaçaram à entrada e, aparentemente, não importunaram o comandante? O que fazem dois dobermanns guardando um edifício abandonado? E este jovem recruta que surge misteriosamente do nada e sabe onde e a quem se apresentar para ser levado ao front? Nesta guerra não há front. Ela está em toda parte. Na selva, nos vilarejos e nas áreas urbanas. E o que dizer da estranha tranquilidade deste recinto e destes dois companheiros, especialmente do comandante, que não é, de fato, comandante do meu pelotão? Acabei vencido pelo cansaço e dormi com a última frase do comandante em minha mente: voltaremos a este edifício e, então, vou mostrar-lhe algo que você nunca viu. O sol ainda não tinha nascido quando fui acordado com uma chacoalhada do comandante.
Levante-se, soldado, temos que partir agora.
Duvido que eu tenha dormido mais do que duas horas. No entanto, levantei com uma disposição de quem dormiu as 20 horas de um leão. O jovem herói esbanjava saúde e determinação e um enorme sorriso no rosto. Incontinenti, descemos as escadas até o térreo. Os dobermanns já não estavam lá. O comandante tomou um caminho deslumbrante. Uma larga trilha aberta no meio da mata e por onde se podia caminhar sem ser incomodado por ninguém e ainda poder admirar a linda flora que adornava os dois lados da rota pavimentada com terra macia. O comandante certamente lia pensamentos ,pois eu mal esbocei lhe falar e ele antecipou-se.
Soldado, deixe para conversar outra hora. A prioridade agora é levar este herói ao front. Temos algumas horas de uma árdua e longa caminhada.
Seguimos andando a passos acelerados como numa maratona. Eu devia estar cansado, mas estava em ótima forma e suportava muito bem o ritmo. E, estranhamente, não sentia falta das drogas nas quais estava viciado. Nenhum de nós tinha um relógio. Mas tive a nítida impressão de termos percorrido vários quilômetros, em, pelo menos umas duas horas. Logo avistei à nossa frente um lugar muito incomum. Não era uma pequena cidade, nem um povoado, nem um pequeno vilarejo. Parecia-se muito com aquele cenário de uma passagem da mitologia cristã onde uma multidão se aglomerava em torno do rio Jordão para ser batizada por João. Só que ali não havia um rio, nem homens. Só mulheres e crianças. O que causava esquisitice era um longo corredor com grades, dos lados e no teto, muito parecido com aqueles longos corredores em forma de jaulas de prisões, especialmente reservados às pessoas condenadas a pena capital para tomar um banho de sol no pátio, isoladas dos presos comuns para que elas não fossem tocadas. Começamos a atravessar este corredor. Dos dois lados muitas mulheres com crianças no colo vociferavam contra nós, aos gritos. Não era preciso entender o que elas diziam na língua estranha a mim. O ódio contra nós estava estampado em seus olhos. Ao final do corredor, paramos. O comandante disse ao jovem herói que ele estava entregue e lhe desejou boa sorte. O jovem loiro bateu continência todo feliz, nos deu as costas e se pôs a marchar para além daquele lugar onde havia somente mato, mais nada. Eu e o comandante voltamos pelo mesmo corredor, ouvimos os mesmos gritos de lamento e ira, e voltamos pelo mesmo caminho que nos trouxe até aqui. Sabendo que teríamos mais de duas horas de andança, eu não iria esperar chegar até aquele velho edifico sinistro para cobrar explicações do comandante.
Comandante, o que significa tudo isso?
Significa que esta guerra já está perdida e devemos nos retirar.
Perdida? Impossível! Estamos esmagando nossos inimigos Eles fogem de nós como ratos pelos esgotos. A nossa superioridade é flagrante. Eles só sabem nos tocaiar e sair correndo para dentro de suas tocas. Eles não aguentam nossos armamentos. Logo eles se renderão. Como pode o senhor dizer que perdemos esta guerra?
Soldado, torno a lhe dizer que esta guerra está perdida.
Então me explique como eles estão sucumbindo todos os dias aos nossos pesados armamentos, impondo-lhes grandes baixas?
Soldado, sobre este paizinho já foram despejadas oito milhões de toneladas de bombas. 4 vezes mais do que as despejadas na guerra mundial de décadas atrás. 80% caíram em zonas rurais, matando apenas civis, principalmente mulheres e crianças. Apenas 20% atingiram alvos militares. Estas bombas abriram cerca de dez milhões de crateras no solo deste paizinho. Além das bombas, foram lançadas 400 mil toneladas de agentes químicos sobre vilarejos, indiscriminadamente. Mais um vez matado mais civis dos que solados. Além disso, foram lançados 80 milhões de litros de agentes químicos para devastar a natureza deste paizinho e que vai causar muitas deficiências de nascença nas futuras gerações. Estão sendo deixadas sob o solo deste paizinho quase quatro milhões de minas e cerca de 300 mil bombas que não explodiram, e juntas, estas minas e bombas irão matar cidadãos deste paizinho todos os dias, durante muitas décadas. Foram mortos cerca de 1 milhão de solados inimigos, mas o número de civis mortos, principalmente mulheres e crianças, é 5 vezes maior, 5 milhões de inocentes. Então, soldado, contra quem estamos lutando e quem estamos vencendo nesta guerra?
Comandante, como você sabe numa guerra baixas de civis é sempre inevitável e esta desproporção de baixas entre civis e militares deve-se a fato destes covardes esconderem-se entre civis para nos surpreender com emboscadas. Se quiséssemos, poderíamos simplesmente jogar uma bomba atômica sobre eles e isto não faria diferença nenhuma sobre o número de mortos civis e militares, bastando o fato de que teríamos posto um fim aos homens do mal.
Soldado, você é adepto do genocídio?
Genocídio? Do que você está falando comandante?
Não preciso explicar. Você sabe do que estou falando.
Espere um pouco, comandante. Aquelas duas bombas atômicas que lançamos no passado teve o objetivo de abreviar uma guerra sangrenta e poupar as vidas de milhares de nossos soldados. E surtiu efeito porque o inimigo logo se rendeu.
Soldado, você acha que aquelas duas cidades foram escolhidas aleatoriamente?
Elas foram escolhidas porque eram fontes de produção de armamentos de nossos inimigos e com as bombas nós cortamos o fornecimento de armas que os abasteciam e, no final das contas, elas serviram de avisos a eles sobre o que poderíamos fazer com o resto do país. Por isso a rendição veio em poucos dias.
Soldado, mais de 60 cidades daquele pais foram bombardeadas com armas convencionais e apenas duas foram deixadas intactas. Você sabe porquê?
Porque eram justamente estas duas cidades que produziam armas e para destruí-las por completo era preciso lançar bombas atômicas sobre elas.
Soldado, elas foram deixadas intactas apenas para medir o poder de destruição de seres humanos e suas habitações por uma bomba atômica. Se estas duas cidades tivessem sido bombardeadas por armas convencionais como as outras 60 não seria possível diferenciar que estrago era causado por armas convencionais e armas nucleares. Todos os civis que morreram nestas duas cidades, principalmente mulheres e crianças, deram aos idealizadores deste holocausto a resposta que eles procuravam.
No momento que ia refutar o comandante, ele me interrompeu e me pediu silêncio. Estávamos nos aproximando do edifico. Foi muito interessante o fato de termos uma breve conversa e não sentir o tempo passar tão rápido. Estranhamente, ele procedeu como na noite anterior. Pediu para eu esperar e foi sozinho até o edifício. Chegando lá ele fez um sinal para que eu viesse e, sem seguida, subiu as escadas. Quando cheguei à porta do edifício não vi os dois dobermanns. Subi tranquilamente e ao chegar ao salão no último andar, o comandante estava sentado naquela mesma janela e na mesma posição da noite passada. Quando aproximei-me dele ele fez algo inesperado e incrível. Saltou da janela para cometer suicídio. Mas ele não caiu. Flutuava no ar e ainda me convidou para saltar. Loucura total. Neste momento, pensei comigo: quer saber de uma coisa, devo estar morto mesmo e se eu saltar não tenho mais nada a perder. Então saltei, e flutuei. O comandante começou a voar e pediu-me para acompanhá-lo. Voávamos sem nenhuma resistência do ar. Uma suave brisa nos envolvia e nos acariciava da cabeça aos pés, como se estivéssemos dentro de uma bolha tão aconchegante como estar debaixo de lençóis acolhedores na noite acordada e calada. Não ouvia-se qualquer barulho. Nem de vento, nem de animais noturnos, nem de vida. Ouvia-se o som do silêncio absoluto sob a luz de um firmamento mais branco que negro e de uma lua maior que a cheia que nos guiavam através de um imenso tapete verde-escuro de vegetação abundante, salpicada por luzes tênues, amareladas, parecendo velas com chamas dançantes e bruxuleantes.
Comandante, estou surpreso. Não vejo nenhum sinal de guerra!
Você não surpreende-se por estar voando, mas admira-se por não ver uma guerra onde deveria haver uma.
O comandante imprimiu um pouco mais de velocidade ao voo e começou a assobiar uma melodia desconhecida. O som de seu sibilo chegava-me aos ouvidos em forma de palavras:
Nossos ascendentes são capazes de entoar hinos que sensibilizam os corações dos anjos. Eles cantam em seus lares e em terras estrangeiras, mas não permitem que seus habitantes os ouçam. Nós temos a vida que pedimos a Deus, mas sacrificamos parte dela para defender os nossos valores e os impomos a gente que os estranham. Dividimos nossa felicidade somente entre nossos pares, mas, mesmo entre nós, os mais fracos ficam com a menor parte dela. Nós oramos a Deus para que nos ajude a derrotar nossos adversários e a estes Deus reza para que não esmoreçam. Nós temos Deus de nosso lado e nossos inimigos do lado do mal. Eles não conseguem encontrar a paz entre seus iguais e nós queremos subtrair-lhes até suas últimas lágrimas de dor. Nesta luta desigual, Deus sente-se o maior de todos os perdedores. Só são capazes de perceber isso aqueles que nada Lhe pediram e estes são os verdadeiros vencedores.
De repente, o comandante começou a descer. E eu o segui sem vacilar. Fizemos um voo rasante e pairamos alguns metros acima de uma daquelas luzes cor de ouro velho. Ali havia uma choupana, abrigo de uma família, que reunia-se ao ar livre. Pai, mãe e filha, sentados, de mãos dadas, formando um círculo em torno daquela luminosidade áurea e quase divina. A mesma sublime mudez que acompanhou nosso voo também permeava aquele ambiente afetuoso, e eu esperava ouvi-los falar, ou, sussurrar, ou ouvir seus corações baterem. No entanto, embora muda, vida palpitante espalhava-se por toda parte e o que se ouvia era a harmonia e a paz que emanavam dos pensamentos daquelas criaturas de olhos puxados refletindo o brilho dos astros, tão naturalmente quanto nosso ato de respirar, a todo instante, a atmosfera que nos circunda, sem dar-nos conta.
Meu companheiro arremeteu e eu acelerei para acompanhá-lo.
Temos que voltar. Vou levá-lo para casa.
Minha casa. Por quê?
Meu companheiro sinalizou que deveríamos nos manter calados porque tínhamos uma longa viagem pela frente. Depois de um tempo imponderável, avistei uma enorme cidade, iluminada, que parecia-me familiar Meu companheiro puxou-me pelo braço e aterrissamos no meio dos prédios.
Você conhece este lugar?
Claro! Este é o marco zero de minha cidade!
Você sabe como voltar para casa daqui?
Claro. Logo ali tem um ponto de uma linha de ônibus que vai direto para meu bairro.
Meu companheiro disse adeus e preparou-se para alçar voo. 

Mas, o que significa toda esta experiência que tivemos? Qual é a lógica de tudo isso? Quem é você?
Significados, identidades e coerências não têm importância, mas a experiência sim. Você a teve e é só isso o que tem valor.
Ele começou a afastar-se de mim e, lentamente, vi minha mão apartar-se da dele. Enquanto ela ainda pendurava-se em um de seus dedos e conformado com o fato de que ele jamais iria desvendar-me o mistério destas duas noites, resignado, despedi-me me dele.
Sabe, comandante, eu não estou preocupado se estou vivo ou morto. Sinto, no meu íntimo, que continuarei dormindo, sonhando e acordando todos os dias. Só tenho medo de uma coisa: de um dia acordar no meio de um inferno como o da noite passada e não ter ao meu lado alguém como você para me proteger.
Pela primeira vez o comandante falou-me olhando nos meus olhos.
Aconchegue-se em meus braços, soldadinho, como um passarinho em seu ninho quentinho. Feche estes olhos maravilhados, solte de meu dedo esta mãozinha e repouse esta cabecinha cansada. Esta noite você vai dormir em paz. Nenhum mal perturbará seu sono. Não se assuste com os sons que você ouvir. Alguns são apenas folhas de árvores levadas pela brisa de encontro à porta de sua casa. Outros, os murmúrios do mar, são apenas ondas solitárias lavando a praia. Você continuará sonhando como um rio eterno em direção à imensidão dos oceanos. Seu rosto resplandece sob o olhar do seu anjo que o assiste do alto. Seu amor manifesta-se em mim, desperta a esperança e faz jorrar alegria. Seu anjo desce e nos envolve com sua paz celestial.. Agora, soldadinho, é você quem me levará até o lugar do qual Eu gritei para ele esperar e ele se deteve a um metro do chão. Mais uma vez, ele antecipou-se às minhas perguntas.

Você não precisa de respostas para todas estas perguntas. Tudo o que você precisava ver e saber eu te mostrei esta noite.
É só isso que você tem a me dizer?
Sim. Não se preocupe. Você nunca mais me verá. Não sou seu anjo da guarda e nem aquele coelho enforcado na maçaneta da sua porta que lhe causava terror noturno na infância.

Você não pode, ao menos, dizer seu nome?
Nomes não são importantes.

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EPÍLOGO



Estou no ônibus a caminho de casa, A saudade é imensa, O medo também, Não sei se a Célia ainda me espera, Ou se me esqueceu para sempre e já está com outro, Se eu tiver a sorte de ainda encontrá-la, Será impossível fazê-la acreditar no que me aconteceu, Estou voltando como queria, Vivo, Sem mutilações, Mas não da maneira que esperava, Tudo é real, Mas não deveria ser, Deve passar da meia-noite, As ruas são as mesmas de sempre, O caminho é conhecido, Tudo é familiar, As poucas pessoas que viajam são verdadeiras, Uma delas tem um pequeno rádio junto ao ouvido e conversa com ele, Esta estranheza me fez lembrar quando entrei no ônibus, Na hora de pagar me dei conta que não tinha dinheiro e nem documento, Só meu uniforme, Quando tentei me explicar com o cobrador, Ele acenou com a cabeça pedindo-me para passar, Mas insisti em me justificar, E ele apenas respondeu que soldado que luta pela pátria não paga, Então perguntei-lhe como ele sabia que eu voltava de uma guerra, Ele limitou-se a dizer que eu sou um homem de sorte, Um espírito de muita luz, Retruquei dizendo que isso não era uma resposta à minha pergunta e que, Além do mais, Não lutei pelo meu país, Mas por um pais estrangeiro, E isto está errado, O cobrador respondeu que errado é matar civis, Mulheres e crianças, Mas eu matei soldados, Ele sorriu e acrescentou que o mundo está se matando todos os dias, Falei-lhe sobre minha preocupação, De minha mulher não saber onde estive, De achar que eu a abandonei, Porque já se passaram  muitos anos, O cobrador acrescentou que o que fiz não é abandono, Mas uma transcendência, Transcendência? O que ele quer dizer com isso? Perguntei-lhe se eu estava sonhando, Ele estendeu-me a mão e eu a apertei, Senti-a, Em seguida ele tirou sua carteira do bolso, E me mostrou uma foto de sua mulher e filhos, Eles estão dormindo agora, E minha esposa me aguarda sob lençóis quentes, E a sua também, Como você pode ter tanta certeza disso? Você não me conhece, Nem minha esposa, Não é preciso conhecer, Você não conhece a pessoa que te trouxe de volta, Mas acreditou nela, E confiou seu retorno a ela, Mas ela é tão estranha como você é para mim, É estranho este ônibus estar te levando para casa? Não! Qual é seu nome? Nomes não são importantes, Mas todo mundo fala seu nome quando se apresenta, O meu é Alceu, E o seu? Homônimo, Você também se chama Alceu? É coincidência demais! Meu nome não é muito comum, Não! Saiba que laço quer dizer laçada, E lasso quer dizer cansado, Entendi, E como se escreve seu nome? Como você quiser, Deus, Por exemplo, Mas Deus não é homônimo de Alceu! Deus é homônimo do homem, Você está me dizendo que é Deus? Não, Não estou, Então por que você disse que seu nome é Deus? Eu não disse que meu nome é Deus, Então por que mencionou Deus como exemplo? Porque o homem inventou Deus, Todos nós somos deuses, Se eu sou Deus e Alceu, Um soldado, Você é Deus e quem mais? Eu sou Deus e o cobrador deste ônibus, Acho que agora você está brincando comigo, Não quer dizer seu nome por quê? Quando você chegar em casa e contar à sua esposa tudo que lhe aconteceu você acha que ela vai pensar que você está brincando? Como posso saber? Nem sei se vou encontrá-la? Quer saber quando algo é brincadeira e quando não é? Sim, Como você chegou na cidade? Voando! Você está brincando comigo? Não, Não estou, Juro por Deus que cheguei voando! É por isso que acho que estou sonhando, A gente só voa em sonhos! Se você acha que está sonhando, Então continue sonhando, Sonhar é bom! Mas enquanto estive na guerra tudo era real, Quase morri durante um ataque surpresa do inimigo, Um soldado sinistro, Aparentemente de patente superior, Me salvou, E a partir daí tudo ficou esquisito, Ele me disse que havíamos perdido a guerra e que iria me trazer para casa, E o problema é que ele me trouxe de volta voando, Fora isso, Tudo parecia real, Lá no campo de batalha e agora aqui na minha cidade, Mas não deveria, O que é mais importante para você? Saber meu nome ou descobrir se você está sonhando ou não? É claro que preciso saber se continuo sonhando, Então prove esta barra de chocolate, Ela é real, E saborosa, Não? Sim, Você tem razão, Se você quiser mais uma prova, Te levo para minha casa, Acordo toda a minha família, E depois podemos ir à sua casa para apresentar minha família à sua mulher e marcamos um dia para jantarmos juntos, Meu turno acaba em uma hora, Quer ir? Não, Obrigado, Preciso ir direto para minha casa, Se eu encontrar minha mulher e tudo mais no devido lugar, Então acreditarei que não estou mais sonhando, Olha, Este é meu ponto, E minha casa fica a duas quadras daqui, Vou descer agora, Foi bom conversar com você, Mas não pense que me engano facilmente, Você não é um simples cobrador e não está aqui por acaso, Tenho outras prioridades agora, Mas um dia vou descobrir quem você é, Conheço esta linha de ônibus e sei onde fica a garagem de onde saem todos os veículos, Ele sorriu e acrescentou que todos nós estamos aqui por acaso, Me chamou de soldadinho, Como aquele desconhecido comandante que me tirou daquele inferno pelos ares, E desejou-me boa sorte, E à minha mulher também, Cheguei em casa, Graças a Deus tudo é real! É minha casa mesmo! Não estou sonhando! Mas a porta não está trancada, Isto não é normal, Minha mulher jamais deixaria a porta destrancada numa cidade tão perigosa como esta, Entrei, Subi até o quarto, Meu coração disparou, Lá estava ela dormindo serenamente, Deitei-me ao lado dela,  Cobri-me com o lençol, E chamei-a silenciosamente, Querida! Aí que susto! Meu Deus, Ainda bem que você me acordou, Você me tirou de um pesadelo horrível que parecia uma eternidade! Eu estava emocionado, Quase chorando, Tudo estava normal, Nada havia mudado, Que pesadelo, Querida? Meu amor, Você não vai acreditar, Sonhei que você decidiu entrar numa guerra, Não pelo nosso país, Mas por um país estrangeiro contra outro estrangeiro, Não entendi porque você fez isso, Você disse que voltaria logo e disse adeus, Mas passaram-se anos, Não tinha nenhuma notícia sua, Você não me escrevia, E nem sabia em que guerra você estava, Procurei amigos e perguntei-lhes se eles sabiam onde poderia estar ocorrendo uma guerra, E eles me disseram que havia um guerra em outro continente bem longe do nosso, E que já durava muitos anos, Me deram os nomes dos países envolvidos, Fui na embaixada dos dois, Dei seu nome a eles, Mas nenhum deles tinha qualquer registro seu como soldado servindo seus países, E acharam estranho eu procurar por você junto a eles já que você não é da mesma nacionalidade, A partir daí todos nossos amigos e parentes se mobilizaram para saber de seu paradeiro, E eu orava a Deus todas as noites, Por que ele fez isso? O que aconteceu com ele? Por favor, Meu Deus, Traga meu marido de volta para casa! Neste momento, Surgiu um homem alto e forte, De olhos penetrantes, Não se preocupe senhora, Seu marido está são e salvo, Eu o tirei da guerra, Trouxe-o para cá, E coloquei-o num ônibus, Ele está a caminho de casa, Logo ele estará aqui, Quem é o senhor, Deus? Sou a transcendência, Transcendência? O que o senhor quer dizer com isso? Sou um dos atributos do homem, Que lhe ressaltam a superioridade em relação a todas as criaturas irracionais do planeta, Mas só Deus tem esses atributos! Todos nós somos deuses, senhora, Me desculpe, Mas o senhor está blasfemando, A senhora pediu ajuda a Deus e ela já está a caminho, Agora preciso ir, Seu marido logo chegará e vai te tirar deste pesadelo, Ele é um espírito de muita luz, Um soldadinho de muita sorte, Qual é seu nome, senhor? Nomes não são importantes, senhora! Então, Meu amor, Neste exato momento você me chamou e me acordou, Não é incrível? Eu estava sem palavras, E sabia que iria passar o resto de minha vida refletindo sobre tudo o que me aconteceu e porquê, Estava um pouco aliviado também, Porque tudo continuava normal e eu não iria precisar explicar tudo à minha esposa, Mas de repente ela exclamou, Meu amor, Por que você tirou o pijama e vestiu este uniforme de soldado? 



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