sábado, 24 de setembro de 2016

MUNDOS PEQUENOS, GRANDES HISTÓRIAS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98

Se uma civilização a milhões de anos-luz da nossa galáxia tentar localizar o nosso planeta ela estará se envolvendo numa empreitada inglória e desanimadora. Será como tentar achar uma agulha num palheiro, ou, pior que isto, achar um único e específico grão de areia nos mares da terra. O universo é grande, mas poucas pessoas fazem ideia do quão grande ele é. O universo observável tem mais estrelas do que grãos de areia em todas nossas águas doces e salgadas e em nossos desertos. A casa do homo sapiens, por mais insignificante que seja comparada à imensidão do cosmos, tem história, muita história. E para nós, terráqueos, a única história que existe é a nossa, pois, até este exato momento, não temos nenhum conhecimento sobre vida inteligente como a nossa fora do nosso pequeno mundo. No entanto, aqui neste terceiro globo a partir do sol, para se ter uma grande história não é preciso ser grande, nem é preciso ir tão longe no espaço e tão distante no tempo. Basta olhar ao redor de nossas vivências e lembrar das pessoas que conhecemos em carne e osso. Olhando para um passado recente, há apenas cinquenta anos atrás, eu encontro, num espaço menor que cem metros, contidos na metade superior da Rua Corneteiro Jesus e sua confluência com a Rua Marechal Fontoura no bairro da Água Fria, onde passei parte de minha infância, toda minha adolescência e juventude, matéria-prima suficiente para escrever uma verdadeira enciclopédia. Cem metros são bem menos que um mundo em miniatura, mas nestes orbes minúsculos existem tesouros que ficarão enterrados para sempre se não nos importarmos com a vida de seus habitantes aparentemente simples, mas tão complexas e tão ricas em experiências quanto às de um Júlio César ou de um Alexandre, o Grande. Não podemos deixar que as existências destes seres humanos preciosos passem completamente despercebidas, como nomes que nunca existiram para a posteridade, como criaturas sem sentido, como a terra antes do surgimento da capacidade reflexiva do homem, e que não fazia sentido para os seres irracionais que a habitavam, e nem para este universo de tamanho incalculável que nos abriga como uma das inúmeras e pequenas incrustações numa partícula de areia dos oceanos. Naquela pequena área de dez mil centímetros, onde eu vivi durante 16 anos, havia tudo o que uma grande cidade precisa para ter seu nome inserido nos anais da história. Folclore, esportes, festas, tragédias, lendas, escândalos, bares, artistas e imigrantes que deixaram suas pátrias, fugindo das atrocidades das guerras e da pobreza absoluta, e escolheram este cantinho da Zona Norte de São Paulo, que passou a ser a terra prometida para muitos peregrinos extenuados. Pensem no sublime sacrifício de Dona Rosa e no livro que poderia ser escrito sobre sua vida. Nascida e criada na Hungria, ela tinha 18 anos quando a segunda guerra mundial eclodiu e seu namorado veio se despedir dela porque ele havia sido convocado para servir no front da Rússia. Ele morreu em batalha, mas sua descendência foi salva no ventre da jovem Dona Rosa, agora uma mãe solteira que foi acolhida pela irmã para poder criar seu filho. A guerra terminou, mas as privações, as agruras e as aflições não. Sua irmã adoeceu e, no seu leito de morte, ela fez Dona Rosa prometer que ela se casaria com seu marido e o ajudaria a criar seus quatro filhos. Dona Rosa cumpriu sua promessa, uniu-se em matrimônio com seu cunhado sem amá-lo e, em seguida, deixou a Europa para formar uma grande família numa insignificante Rua da Água Fria. E nesta rua ela criou seu primeiro filho órfão de pai, seus quatro sobrinhos e os quatros filhos brasileiros que teve com o marido de sua irmã. Pensem na incrível reviravolta na vida de Dona Encarnação e na bela história que poderia ser contada sobre ela. Sua mãe levava uma vida paupérrima na Espanha. Tinha que lavar roupa para os outros e servir de ama-seca para as madames da aristocracia. Um de seus patrões a engravidou e a patroa, revoltada, exigiu a expulsão imediata da prostituta. O patrão concordou, mas impôs que a menina que nasceu daquele descuido extraconjugal com uma vassala fosse criada na sua casa, como sua filha legítima, pois era seu sangue. Dona Encarnação tinha uma vida de princesa. Frequentou as melhores escolas da Espanha. Vestia roupas finas. Tinha aulas particulares de música e balé e desfrutava de todas as mordomias e regalias que só os milionários sabem descrever. No entanto, sua realeza terminaria aos 16 anos quando seu pai adoeceu e faleceu e seus meios-irmãos cuidaram para que um advogado tirasse seu nome do testamento. A filha bastarda foi jogada na rua e passou a conviver com a miséria de sua mãe e seus outros meios-irmãos. Dois anos depois, com apenas 18 anos, uma mão na frente e outra atrás, mas com muita bravura, Dona Encarnação embarcou num navio rumo ao Brasil e, durante a viagem de mais de um mês, conheceu o José, sem lenço e sem documento como ela, e com ele se casou, se estabeleceu no interior de São Paulo e, juntamente com outros imigrantes, ajudou a construir a cidade de São José do Rio Pardo, onde Euclides da Cunha morou e escreveu o livro Os Sertões. Doze anos depois, José e Encarnação resolveram se arriscar na cidade grande e fixaram residência na mesma Rua Corneteiro Jesus, da Água Fria, onde Dona Rosa morava e, assim como a Dona Rosa educou seus nove filhos e lhes deu um futuro no Brasil, Dona Encarnação também deu aos seus nove filhos brasileiros uma vida repleta de felicidade e uma prosperidade que não poderiam ter no velho continente. Pensem nestas pessoas e no que Olavo Bilac escreveu: Há numa vida humana cem mil vidas, Cabem num coração cem mil pecados. Pensem que há numa vida humana um sem-número de palavras para descrevê-la, e cabem numa pequena via pública povoada por tais vidas humanas um universo de histórias fascinantes para se contar.

USUFRUTUÁRIOS PROVERBIAIS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Sou amigo de verdade quando estou em dificuldade, E nela, Meu suicídio seria seu alívio, Tenho um amigo de mentira que não me elogia na intimidade e me critica na coletividade, E nela, Minha morte não lhe trará nenhuma sorte, Ele sabe com quem ando e me diz que sabe o que tramo, Ele pensa, Mas minha crença não será cabeça para sua sentença, Então rezo, Ao padre, médico e advogado, Falo meia verdade, De minha confissão, Minha depressão, Minha porta de prisão, Só fofocas cheias de mordacidade, Continuo rezando, Mas de hora em hora, Deus piora, E durmo sem fome porque sou daqueles que ainda chora, Deus não me dará cem anos de perdão, Meus assaltos só vitimam honestos incautos, Sou ladrão da planície, Roubo e sou roubado pelo planalto, Por isso nunca receberei deles qualquer indulto, Sou apenas um verme cuja mera existência lhes é um insulto, Sou um usufrutuário de bens alheios, Canalha me foi dado como alcunha, Mas ninguém conhece meus anseios, No jogo da corrupção, Não passo de um gandula, Criminosos assaltam minha casa, Mas minha câmera não os filma, A dor desta mulher morta dura até à porta, E para ela sou o que menos importa, Mas ainda assim ela promete logo me pegar, Porque a mentira tem perna curta, Mas minha verdade é longa e ninguém a furta, Deus retruca e diz que a ocasião me fez ladrão, E emenda: Remenda teu pano, Durará mais um ano, Remenda outra vez, Durará mais um mês, Torna a remendar, Para então se acabar, E, Em respeito a ele, Recito os dez mandamentos: Um é masturbação de um caçador de marajá sem alvará, Dois uma estaca e um patíbulo preparando uma cama para prostíbulo, Três sexo a três, Em cima, Em Baixo, No meio, Ao gosto do freguês, Quatro troca de casais com manutenção dos desajustes fiscais, Cinco Deus que tudo vê e se diverte, E não se mete, Seis suingue dinamarquês entre o supremo, O congresso e de quem for a vez, Sete são os anões que estrupam a verde e amarela todos os dias sem limparem as ejaculações, Oito são as vaginas onde o crime organizado e do colarinho branco molham o biscoito, Nove a última gota d'água servil prestes a transbordar o copo da desobediência civil, Dez orgia dionísica promovida pelo sumo governante e transformando um pais num inferno de Dante.

BEATRIX


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98
Se desejar, clique no link abaixo e leia o texto ao som de uma música apropriada para o mesmo


Quero entrar em seu coração
Facilite minha entrada
Quero deixar você machucada
Quero deixar seu choro contido de comoção
Ajude-me a enfiar minha espada
Para mim não vai doer nada
Olhe nos meus olhos sem compaixão
Olhe nos meus olhos com satisfação
Quero infligir-lhe terror
Quero que você nunca saiba o que é amor
Na minha ausência sinta desesperação
Na minha presença sinta veneração


Leve meu coração para sacrifício
Pago-lhe tudo com esse suplício
Barganhe-o por um afeto que nunca tive
Estanque seu batimento e o martirize


Quero invadir sua consciência
Facilite minha invasão
Quero levar você à depressão
Quero deixar seu pensamento pleno de demência
Ajude-me a aplicar minha injeção
Para mim não vai causar lesão
Olhe nos meus olhos sem complacência
Olhe nos meus olhos com intransigência
Quero infligir-lhe tédio
Quero que você acredite que não há remédio
Na minha falta sinta impotência
Na minha presença sinta onipotência


Leve minha mente para sacrifício
Pago-lhe tudo com esse suplício
Barganhe-a com a minha dependência
Roube minha identidade e minha inocência


Quero corromper seu espírito
Facilite minha corrupção
Quero negocia-la com um cafetão
Quero transformar seu corpo num eterno detrito
Ajude-me a incorporar meu obsessor
A mim não vai causar nenhuma dor
Olhe nos meus olhos sem conflito
Olhe nos meus olhos com delito
Quero instigar-lhe o suicídio
Quero que você nunca conheça o elísio
Na minha falta você é um aflito
Na minha presença você é um rito


Leve meu espírito para sacrifício
Pago-lhe tudo com esse suplício
Barganhe-o com outra alma penada
Desgrace-a com carma quando ela estiver encarnada


CENTELHA DE AMOR


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. 

Minha sensualidade é dissimulada, Espreguiçada, Minha seriedade é abrupta e esbatida, Suavizada, Minha devassidão é pontuada e cadenciada, Charmosa, Meu medo é trêmulo e estrambótico, Excêntrico, Minha volúpia é solta e desenvolta, Inquieta, Minha empolgação é ansiosa e contida, Reprimida, Minha sexualidade é enfeitiçada e prestidigitadora, Satânica, Meus pressentimentos são recalcitrantes e insistentes, Alarmantes, Meus perigos são perceptíveis e escancarados, Ameaçadores, Minhas advertências me oprimem, Berram dentro de mim, Clamo por afeição, Minha sensualidade urge e geme, Clamo por devoção, Meu Deus, Minha Nossa Senhora, Meu Jesus Cristo, Meu Santo Protetor, Meu Anjo Da Guarda, Meu Deus Sol, Minha Isis Ressuscitadora, Meu Horus Redentor, Minha Irmã Hator, Meu Daimon Interior, Dai-me uma centelha de amor, Fazei do amor pura religião, Dai-me uma centelha de amor, Abri-me a porta da libertação, Rezai por mim com fervor, Livrai-me dessa opressão, Dai-me uma centelha de amor, Fazei do amor pura obstinação, Dai-me uma centelha de amor, Acendei-me uma luz na escuridão, Afugentai de mim este temor, Conscientizai minha repressão, Dai-me uma centelha de amor, Fazei do amor uma só nação, Dai-me uma centelha de amor, Cortai as amarras do meu coração, Curai esta minha dor, Santificai minha regeneração, Dai-me uma centelha de amor, Fazei do amor pura benção, Dai-me uma centelha de amor, Fechai-me a porta da ilusão, Mostrai-me o disco voador, Benzei minha abdução, Dai-me uma centelha de amor, Fazei do amor pura revelação, Dai-me uma centelha de amor. 

DIVISOR DE ÁGUAS


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Nossas vidas já fizeram parte da mesma natureza, Como as águas dos rios que correm juntas e não se distinguem, E seguem seus cursos, Intrépidas, Até desembocarem no oceano, Cada uma a seu tempo, Desde o tempo de nascer da mesma fonte no alto das montanhas, Descer ao campo, Ouvir seus rumores, O fresco ramalhar das árvores, o rouco perene das corredeiras que nos rolam pesadamente por entre os penhascos escuros, Até nos despejarmos em queda livre, Como num salto para a morte, E lá embaixo nos reencontramos espalhados, Acalmamos a correnteza, Ganhamos longos atalhos, De lances de beleza, Adentramos outro prado florido, E, Distraídos, Nos desviamos por afluentes que vieram ao nosso encontro, Nos devolvem aos nossos leitos, E de longe ouvimos praias de tempestades que nos fecharão, Ouvimos a maré alta invadir nosso estuário, Salgando nossa doçura e nossa paixão, E no refluxo, Nos dividindo, Levando-nos a chegar separados no mar, E no encontro com esta imensidão, Sem dizer águas vão, Enterramos uma afiada faca de indiferença em todas as lembranças do que fomos e ainda somos, Nos fazemos de vela para o esquecimento, Acreditando que um milagre será como nossas águas num balaio.

SOU MÚSICA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98
Clique no link abaixo e leia o texto ao som de uma música apropriada para o mesmo

Sou o dom das musas, Levo a todos seus sentidos minha matéria-prima em agradável combinação para seus ouvidos, No curso de minha propagação pelo espaço os sons vibrarão com sua efervescência, Tiro sua alma para cair nos braços da linguagem mais eloquente, E no curso de sua eternidade pelo universo as esferas lhe acompanharão na minha cadência, Sou seu antidepressivo, Tiro-lhe da fossa e lhe devolvo a vida que levava antes, Sou sua heroína, Elevo seu astral até onde Lúcia flutua com seus diamantes, Te acompanho desde criança, Agora você faz sexo com a dança, E eu te marco com sua melhor lembrança, Sem mim a vida seria um erro, Sem você um mundo irracional, Quando te julgam insana os que te veem dançando é porque não me ouvem, Quando você me canta com alegria e por amor está sempre acima do bem e do mal, Sou sua exorcista, Liberto seus demônios interiores, Sou sua extroversão, Liberto seus recalques e seus temores, Sou a soltura de sua franga, Mesmo que você seja heterossexual, Por alguns minutos faço você esquecer seu gênero, Como os incontáveis que me tornam universal, Sou sua manifestação corporal, Seu relaxamento mental, Sua descarga emocional, Sua integração social, Seu êxtase total, Sou o alimento de seu espírito, Todas as embriaguezes, Assim as mundas como as imundas conduzem ao nirvana, Todos seus rótulos em esprit de corps, Sou a mais divina expressão da arte humana. 

30 ANOS DEPOIS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

A estação me recebe como as andaluzas em flor, Do outro lado da avenida, As ruas estão desertas, A noite caída tarde ainda em baixas e boas horas, Ao longo de uma aleia de buxos aparada e de cheirosos canteiros de alfazema, Lá adiante, a lividez do luar ilumina vagamente tudo à volta e meu passo até uma alemoa que, Gentilmente, Mostra-me uma alameda  de casas simétricas, Feita milharal, Levando-me ao casarão plantado numa das duas estreitas vias transversais, Separadas pelo elegante jardim quadrilátero, Centralizado e cercado de grades. A pensão me recebe como em meu lar, Minha casa, Meus amores, Minha flores dos trópicos, Cá nesta terra fria e acolhedora, Como a cama aconchegante, O sorriso aberto e familiar do café da manhã tão rico e caseiro, Os primeiros raios de sol iluminam esta parte da superfície terrestre sob sombra, O dia cresce, A chuva se prepara para derramar, Ela vai cair e apodrecer, Como frutos maduros no chão chovidos de mangueiras, Deitará de novo, Antes da meia-luz crepuscular, E vai embora de vez nas horas entre o lobo e o cão, Os caminhos que me levam aos destinos de meus sonhos são marcados por cores profusas, As mesmas que adornam as roupas femininas, E seus cabelos, Sou recebido com simpatia por jardins exuberantes, Bancas de frutas recém colhidas, Por um universo de sons e letras incomparáveis, Tudo aqui é majestoso e respeitoso, E parece ser obra direta de um ser onipotente, O terrorismo ainda demora para chegar, Os anos dourados não retornarão, Mas estar aqui é não sentir saudade de casa, Não querer voltar.

THE BEATLES: ONDE VOCÊ ESTAVA? HAROLD CONRAD, AMERICANO, DE PROMOTOR DE LUTA DE BOX A ESCRITOR

Edição de texto de autoria de Alceu Natali, baseado em depoimento de Harold Conrad à revista Rolling Stone. Direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Eu estava em Miami para cobrir a luta entre o campeão mundial de peso pesado, Sonny Liston, e o jovem desafiante, Cassius Clay. Nos jornais do mundo inteiro não se falava em outra coisa. Aliás, na América falava-se noutra coisa sim. Um fenômeno chamado Beatles que acabara de chegar na cidade. Logo tive uma ideia: colocar juntos Cassius e os quatro cabeludos. Afinal, eles tinham quase a mesma idade. Já até imaginava o sucesso que fariam os cartazes e capas de revistas. Procurei o empresário dos Britânicos, Brian Epstein, para pedir-lhe uma autorização e ele disse, meio lisérgico, não, por questões de segurança. Eu já tinha tudo planejado na cabeça e não iria desistir. Eu, Sonny e sua esposa fomos convidados para ver a apresentação dos Beatles no programa do Ed Sullivan. Sonny iria fazer uma rápida aparição apenas para receber os aplausos de praxe. Logo depois dos primeiros números do programa, entraram os Beatles. Quando eles terminaram de cantar a primeira música, Sonny cutucou-me e disse: Fizeram todo esse fuzuê por causa destes vagabundos? Meu cachorro toca bateria melhor do aquele narigudo! Ao final do espetáculo, Sonny e sua mulher foram embora, mas eu fui até os bastidores, procurei Ed e pedi a ele para apresentar-me aos Beatles. Consegui! Perguntei a eles se não queriam assistir ao treino do Cassius Clay e eles concordaram imediatamente. Eu contei-lhes sobre a recusa de Brian e John disse: Não se preocupe, nós damos um jeito nele. No treinamento propriamente não aconteceu nada de excepcional a não ser aquela foto que entrou para a história. Foi tudo engendrado e coreografado por Cassius. Ele pediu aos Beatles para deitarem-se no ringue, como se tivessem sido nocauteados, e Cassius ficou bailando e sapateando em volta deles,  vangloriando-se. Num dado momento, Cassius olhou para eles e disse: Meu, vocês devem estar levando uma boa grana. Vocês não são tão idiotas como parecem. E John respondeu na lata: Nós não somos, mas você é! Sonny foi nocauteado no primeiro minuto do primeiro assalto. Cassius Clay tornou-se o muçulmano Muhammad Ali e o maior campeão dos pesos pesados de todos os tempos. E os Beatles, bem, eles estavam só começando, mas já eram Hors Concours.


COM QUAL ROSTO VOCÊ VAI SAIR ESTA NOITE?


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Uma pessoa que eu conheci há muito tempo atrás disse-me: Quando você empresta dinheiro a um amigo, você perde ambos: o dinheiro e o amigo. Esta afirmação incisiva pôs-me a pensar o que, realmente, é um amigo, e até mesmo a duvidar se existe tal coisa chamada amigo. Quando eu era jovem, eu achava que amigos existiam de verdade. Eu sempre pensava que um verdadeiro amigo é, entre outras coisas, aquele que aceita ser seu fiador quando você precisa fazer um empréstimo ou alugar um imóvel. Minha esposa discorda, veementemente, de mim. Ela é da opinião de que questões financeiras são muito pessoais e só podem ser tratadas em família. Ela lembrou-me daquela pessoa da frase contundente: Se você quer perder um amigo, basta você pedir dinheiro emprestado a ele ou pedir para ele ser o seu fiador. Se um amigo não pode emprestar dinheiro ou ser fiador de alguma coisa, então, pergunto-me: para que serve um amigo? Confesso que não sei. E como não sei, tendo a não acreditar mais na existência de amigos. Sinceramente, eu gostaria muito que minha paráfrase daquele provérbio das bruxas fosse verdade: Eu não acredito em amigos, mas que eles existem, existem'. Eu jamais vi uma bruxa. Também nunca vi duende, fantasma, disco voador ou saci-pererê e, só agora, na velhice, começo a me dar conta de que eu nunca vi um amigo. Por outro lado, eu tive o privilégio de ouvir, de certos pretensos amigos, desculpas esfarrapadas, do arco da velha, que rivalizam-se com as mirabolantes máximas que encerram algumas parábolas do cristianismo e com os discursos do Lula. Um dia, eu precisei de um fiador. Antes mesmo de conhecer minha esposa e suas opiniões, eu procurei a família, e me dei mal. Maior que a decepção de ouvir um não é a humilhação de ouvir frases das mais grotescas, que fazem você sentir-se um palhaço no meio de um picadeiro. Um desses membros de minha família, bem de vida, com muitos imóveis próprios na cidade e fora dela, lamentou-se, amargamente, por não poder ser meu fiador porque nenhum de seus bens estava em seu nome. Só faltou ele chorar por ter perdido uma grande oportunidade de ajudar-me. Mas eu fui ingênuo demais. Na verdade, ele não era da minha família. Ele era apenas um parente. Eu cometi um erro e dei um grande susto no meu desprevenido parente. Logicamente, ele tinha medo que eu não pagasse o aluguel e sobrasse para ele. Fui cândido demais ao pensar que um simples parente fosse confiar em mim. Quando recebi aquele não, coloquei-me no lugar dele: Pô, esse sujeito é cara de pau mesmo. Porque ele não vai pedir ajuda para alguém da 'família' dele? O problema é que ninguém mais na 'família' dele confia nele e ele está apelando para qualquer um e deve achar que sou um otário. Ele só lembrou de mim agora, na hora do aperto. Mas eu, se estivesse no lugar dele, não sentir-me-ia apenas um otário, mas teria um pouco de vergonha também. A justificativa que ele me deu para não ser meu fiador levou-me a pensar: Eis aí um verdadeiro altruísta! Dono de tantos bens! E ao invés de querer todos eles para si e declará-los no IR, reparte-os entre os parentes. Meu daimon sussurra-me no ouvido: Acorda! Em que país você pensa que vive? Ele está certo. Eu preciso ser menos inocente. Afinal, será que existem otários no Brasil que declaram todos seus bens no imposto de renda? O pior é que existem e eu sou um deles, talvez o único anão adormecido neste gigante vivaldino. Um outro parente meu foi um grande advogado. Aposentou-se como procurador de um importante órgão do governo federal. Ele disse-me que não poderia ser meu fiador porque andava com uns probleminhas com seu imposto de renda. Esta desculpa foi pior do que uma parábola de evangelho, já utópica em si, e ainda adulterada pela igreja tardia, tão engraçada como o famoso nunca antes na história deste país' do sapo barbudo. O que ele disse-me é o mesmo que ouvir o papa dizer-lhe: Meu filho, eu não posso abençoá-lo porque ando tendo uns probleminhas com Deus. Eu sei que gozar da reputação do papa é coisa batida e não tem mais graça. Nos dias de hoje, o único que não deve ter nenhum problema com Deus é o demônio. Apelei para gente de fora, fora da família, e escolhi um daqueles que sempre considerou-me seu melhor amigo: Falei com meu sócio e ele achou que seria um problema para nós, pois muitos que são grandes amigos nossos pediram-nos a mesma coisa e nós declinamos. Portanto, se abrirmos uma exceção para você, teríamos que abrir uma exceção para todos. Eu senti-me aliviado ao saber que eu não era o único melhor amigo a receber um não daquele grande amigo meu. Eu raramente vejo este meu amigo e jamais sou visitado por ele, por mais que eu o convide. E ele também nunca convida-me. E o mesmo se passa com todos aqueles que disseram serem meus amigos. Então, deduzo, que eu sou um problema, ou o inimigo a ser evitado. Hoje, tenho com todos aqueles que outrora pensei serem meus amigos uma amizade platônica, ou, para usar um termo mais contemporâneo, telepática. Não nos vemos, não mantemos contato por telefone e nem por correio eletrônico. E as forças mentais deles andam bem atrofiadas. Aí vem minha esposa de novo: Eu não te disse que para perder um amigo... Mas, neste caso, ela não tinha tanta razão. Na verdade, aquele sujeito que tem um sócio nunca foi meu amigo, nem passou perto disso que eu ainda não sei o que é. A gente demora para descobrir, mas descobre. Pense nisso: um dia liguei para aquele meu parente advogado, para dizer-lhe que eu havia casado de novo e mudado de cidade. Ele respondeu-me: Não posso falar com você agora porque há algumas pessoas aqui na minha casa fazendo uns consertos. Te ligo outra hora. Ele não tinha meu novo telefone e não sei se ele procurou saber quem o tinha. Talvez ele tivesse identificador de chamada e gravado o meu número. Ninguém sabe. Ele deve ter feito uma reza brava para que eu nunca mais ligasse para ele e Deus o ouviu. Abaixo do amigo vem o conhecido. Ele é um grande amigo de um amigo ou de um parente seu. Você deve lembrar-se daquele chavão: Se você é amigo de fulano de tal então você é meu amigo também. Isso é mais perigoso do que aquele ditado: mulher de amigo meu, para mim é homem. Certa vez, precisei dos serviços de um conhecido. O serviço era demorado e caríssimo. Por isso, pedi para pagar em prestações mensais, de acordo com minhas limitações financeiras. Mas, de repente, minha vida deu uma guinada de 360 graus. Divorciei-me, casei-me de novo e mudei-me de cidade por uns tempos, e não é que, no frenesi daquela repentina mudança, acabei esquecendo-me de pagar o saldo devedor pelos serviços prestados por aquele conhecido! Não deu outra, a mulher dele ligou para minha casa e desceu o nível para valer. Deixou os escrúpulos de lado, se é que um dia ela os teve, e mandou ver: Porra, você deu a maior mancada comigo. Este mês deixei de pagar a mensalidade da faculdade de um de meus filhos por sua causa. No dia seguinte, consegui um empréstimo num banco e enviei o pagamento. Era mais seguro pagar juros exorbitantes a um banco do que ter uma conhecida tão ameaçadora como aquela! Ela estava apenas obedecendo ordens do marido que decidiu por um fim à vida hollywoodiana que, segundo ele mesmo disse, a família dele estava levando. Tenho certeza que ela jamais soube que os serviços, a preços bem salgados, prestados pelo seu marido com garantia de um ano não duraram nem seis meses. Há tempos atrás, fui a uma grande festa, grande mesmo. Da minha família. Sem que eu soubesse, meu nome foi colocado no convite como um dos anfitriões, mas lá fui tratado abaixo de um garçom que sempre passa desapercebido. Quem se lembra da cara de um garçom depois de uma festa? Ninguém! A menos que ele tenha escorregado, levado um tombão no meio do salão, caído de bunda e com a cara enterrada no bolo! Eu não dei um vexame destes, mas também não dei motivos para ser odiado por tanta gente ao mesmo tempo! E lá estava aquele conhecido que pôs um basta ao estilo de vida cinematográfico de sua família. Quando ele me viu, sorriu descontraído, mas não conseguiu esconder seu desconforto. Eu era uma pessoa que não deveria estar lá, daí a surpresa, mas eu estava sereno, com meus pensamentos bem longe daquele lugar. Este conhecido faz parte daquela religião que diz fazer o bem sem olhar a quem. Sua esposa, aquela que ficou incumbida pelo juiz de paz da festa, seu marido, de dar o esculacho em mim, fingiu que não me viu. Aliás, nesta festa, havia vários desses conhecidos que um dia foram a festas na minha casa, sentaram-se à minha mesa, comeram e beberam comigo, deram tapinhas nas minhas costas. Mas nesta festa eles não enxergavam-me. Eu devia estar sob o efeito da invisibilidade. Mesmo assim, minha aura constrangia-os. E por quê? Talvez por eu ser um criminoso. Quem divorcia-se torna-se um criminoso. A confraria dos amigos, parentes e conhecidos dá valor aos heróis, aqueles que, estoicamente, mantém um matrimônio falido sob uma bela fachada de felicidade que costuma arrancar elogios dos mais antigos em público, mas sangue e lágrimas entre quatro paredes. O mundo está dividido entre heróis e vilões. Não existe um meio-termo. Este divisor da sociedade onde eu vivo é tão pragmático quanto aquele jargão americano: Ou você é um vencedor, ou você é um perdedor. Eu faço parte da turma dos vilões e dos fracassados. No final das contas, eu senti muita pena de um humilde e nobre casal que permitiu que eu sentasse à sua mesa, a única que sobrou para mim naquela grande festa. Todos conheciam o casal, mas ninguém veio cumprimentá-lo por causa da minha repugnante presença. Mas eu não disse que eu estava invisível? Estava, sim, mas acontece que esses meus amigos e conhecidos são pessoas especiais, afortunadas, vitoriosas, brilhantes e, ainda por cima, têm o dom de enxergar a aura dos outros. Eles sentiram repulsa ao ver a minha alma aquebrantada. Eis ali um espírito nefasto e obsessor, pensou alto um deles. Mas por que estou cá a falaire desta festa, oras pois, uma vez que o tema aqui é sobre Amigos? Voltemos, então, ao assunto. Você deve estar se perguntando: Afinal, o que esse negócio de ser fiador de alguém tem a ver com amizade? Nada! Quer uma prova? Há 40 anos atrás, eu conheci uma alemã que deixou seu país para trabalhar numa empresa em Santa Catarina. Eu trabalhava na filial de São Paulo dessa empresa e minha relação com esta alemã não passou de um simples cumprimento quando eu fui apresentado a ela por ocasião de meu treinamento de um mês em Blumenau. Um ano depois, esta alemã apareceu em São Paulo e procurou-me: Arrumei um emprego noutra empresa aqui em São Paulo. Estou alugando um apartamento, mas eles querem um fiador que tenha renda e propriedade. Não tenho ninguém. Você pode ajudar-me? Eu não tive dúvidas. Endossei um contrato de aluguel de três anos e dei como garantia minha casa. Depois dos três anos de contrato, nunca mais vi esta alemã. E vocês perguntam: Mas por que vocês não se tornaram amigos? Porque o meu papel de fiador não era pretexto para iniciar isso que vocês chamam de amizade. E vocês tornam a me perguntar: E por que você se arriscou tanto com uma estrangeira que você mal conhecia e tinha visto uma única vez? Porque ela estava só. Eu, ao contrário dela, sempre estive rodeado por um montão de parentes, amigos e conhecidos, todos visíveis aos meus olhos, mas refratários aos meus sentimentos. Estas pessoas que adoram rótulos religiosos do tipo não deixo minha mão esquerda saber o que a direita faz estão em toda parte, exceto onde a caridade se faz necessária. Elas são como uma das divagações do narrador de um livro que estou escrevendo: oportunistas que aparecem melhor no dia de servir caldo e água benta, no dia de dar bênçãos com mãos levianas. Eu gosto muito de lembrar-me daquela alemã fria, divorciada, mas não criminosa como em nossa sociedade, e vencedora, que aventurou-se no Brasil, com minhas palavras preferidas de Bob Dylan: on her own, with no direction home, like a complete unknown, like a rolling stone. Eu gosto de lembrar de meu pai, Armando, que eu pouco conheci e que teve que submeter-se a uma cirurgia para extrair um tumor cancerígeno. Seu médico disse-me que ele não duraria um ano. Ele fez quimioterapia durante mais de seis meses até que surgiu a metástase no pulmão. Eu o visitava diariamente, de segunda a segunda. Ele não desconfiava que sua morte era iminente. Ao contrário, ele desconfiava que talvez eu estivesse querendo pedir-lhe dinheiro emprestado de tanto que eu o visitava. No seu último dia em casa, quando ele teve uma crise aguda e fatal, seu médico pediu-me para que eu o internasse, imediatamente, num hospital, onde ele permaneceu com vida numa UTI somente duas semanas. Eu ajudei a levantá-lo do sofá com muita dificuldade e disse-lhe: Vamos lá, faça uma forcinha. Eu só vou levá-lo a um hospital para medicá-lo e acabar com esse mal estar. Ele mal conseguia falar de tanta dor. Mesmo assim, fez um esforço enorme para dizer-me: Se você estiver precisando de dinheiro, não se acanhe, eu não te empresto, mas te dou. Ele fez aquilo que todos não são capazes de fazer: ir de encontro ao necessitado antes que ele tenha que se humilhar e pedir, ainda que ali, naquele momento, ele, condenado pelo câncer, fosse o único necessitado. Ele foi aquilo que todos se orgulham de dizer que são, mas nunca foram. Eu continuo não sabendo o que são amigos e para que eles servem. E como não sei, continuo não acreditando neles. Se eles, realmente, existem, eles devem ser bruxas, ou tão são chamados de Armando. E eu conheci somente um Armando em toda minha vida. Este Armando que morreu ofereceu-me sua amizade a vida inteira, mas eu percebi isso tarde demais. E na hora de sua morte, ele teve mais dignidade do que todos os que conheci e que ainda estão vivos. Outro que morreu e que foi um deus para os espíritas chamava-se Chico Xavier. Para mim ele foi apenas um criptomaníaco e bem abaixo de meu pai que ofereceu-me dinheiro às vésperas de sua partida para a qual ele não atinava. Logicamente, o Chico não foi um crápula como eu e a maioria de nossos líderes religiosos. Eu o cito aqui apenas porque gosto muito de uma frase dele que diz respeito à minha marginalidade: Criminoso é cada um de nós que foi descoberto. O narrador do meu livro, por sua vez, parafraseia o Chico assim: Criminosos somos todos nós ainda não descobertos. Eu continuo não sabendo o que são os amigos, mas, com o tempo, descobri tudo o que eles não são. Talvez, amigo seja este tipo de pessoa que está morrendo e, mesmo assim, esquece de si e oferece ajuda sem que lhe peçam. Talvez, amigo seja Deus. Eu sou ateu de carteirinha, mas tenho a convicção de que, se Deus existe, então ele deve ser aquilo que vocês chamam de meu melhor amigo. Esta convicção advém de certos acontecimentos estranhos na minha vida. Sempre que estou combalido, nocauteado e jogado na lona, sou salvo pelo gongo. No entanto, o gongo é silencioso, invisível e anônimo. Isso deve ser obra de algo maior que um amigo. Eu agradeço, não sei a quem, mas agradeço. Mas não abro mão de minhas convicções. Nasci e vou morrer com elas. Se Deus existe e é este gongo tão silencioso, ele deve adaptar-se às minhas necessidades e não eu às dele. Se ele for, realmente, um amigo, ele não vai acabar com minha sorte só por causa de minha irreverência. Amigo que é amigo não abandona. Não é isso que vocês todos dizem? E o capeta do meu lado não perde a oportunidade para tirar um sarro:
É isso mesmo. Afinal, amigos são para estas coisas.
Eu pergunto:
É mesmo? Que tipo de coisas?
Ele responde: 
Estas coisas que falam por si mesmas!
E eu finalizo:
Se você veio aporrinhar-me com sofismas vá procurar outro.
Mas o tinhoso quer ficar com a última palavra:
Que estresse é esse, cara? Só estou tentando ser seu amigo!
No final das contas minha esposa sempre esteve certa porque Deus realmente escreve certo por linhas tortas. Ela estava certa porque um cunhado meu que era a última pessoa na face da terra de quem eu esperava alguma coisa, disse-me há muito tempo atrás:
Eu não quero ser seu fiador. Quero ajudar-te com dinheiro.
Constrangido, eu repliquei:
Só se for emprestado até quando eu puder devolve-lo.
Bravo, ele contestou-me:
Emprestado não. Dado! Na minha família não existe o verbo emprestar. Existe o verbo ajudar alguém por uma boa causa.
O equivalente em inglês para o nosso  Deus escreve certo por linhas tortas é Deus obra por meios misteriosos. E este meu cunhado é bem misterioso. Eu o vejo a cada 3 anos e olhe lá. Ele não é Deus, nem um Armando, mas está muito acima de todos aqueles que um dia me chamaram de amigoE para encerrar e deixar o coisa à toa mais pê da vida comigo, aqui vão mais dois petardos: 1) um japonês que conheci há muito tempo atrás, com quem nunca tive amizade, e que não vejo já faz vinte anos, todos os meses tira fundos de seu próprio bolso e os antecipa para mim para financiar meu trabalho e minha vida, e ele nunca tem pressa em receber o capital de volta: 2) um americano com quem não tenho nenhuma amizade, nem intimidade, e só vejo uma vez por ano, é responsável por todos os contratos de trabalho que consigo nos EUA todos os meses.


WHAT DO I SEE WHEN I TURN OUT THE LIGHT? I CAN´T TELL YOU BUT I KNOW IT´S MINE! I WISH THE TWO OF YOU, OMASA-SAN AND MR. MACKENZIE,  ANOTHER UNDOUBTING THOMAS YEAR! AND I´LL TRY NOT TO SING OUT OF KEY AND TUNE!

ALÉM DO AMOR


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98
Clique no link abaixo do texto e leia-o ao som de uma música especialmente escolhida para ele

Pouco terei perdido, E pouco perderei, Deste mundo passado onde nasci, Deste mundo futuro de renovações que vivi e morrerei, E dele sinto menos falta agora, Sem precisar saber porquê, Sem pensar o que ele pode me fazer, Mesmo que ele me desabrace, Mesmo que ele me provoque com a brevidade da vida, E a pátria de meus desejos, Porque este corpo material não compreende e não consegue ousar minhas sensações e emoções, E delas só atina a deduzir ilações racionais, Porque elas são como canções transcendentais, Que a alma extasiam, E do corpo mental arrebatando-a, À vastidão do universo a sobem, E a sublima, Às mais puras e inimagináveis regiões de supremos prazeres que nem o amor alcança, Que nem o dom do sexto sentido, Percebe que as estrelas mais cintilantes, As árvores mais santas, Os jasmins mais azuis, As lilases mais perfumadas, E os lírios mais exuberantes, Florescem bem na frente das estreitas janelas dos olhos, Cujas vidraças embaçadas de postigo mal deixam coar o dia, Pode chamar de sonhos, Devaneios, Fora da realidade, Mas neles quero eternamente bem perto ficar, Neles me perder, Neles dormir como criança, Até descobrir onde eles terminam, E onde eu começo, E sem eles, O que seria de você, Que conhece meu amor carnal, Passional, Incondicional, Por inteiro, E passageiro, Mas não sabe o que mais cativa meu espírito, Um privilégio de Deus?


PARÁGRAFOS 83 A 85 DO LIVRO VALE DA AMOREIRA


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Com o passar dos anos e com os óvnis cada vez mais mostrando indícios de que eles não eram projeções das mentes humanas, mas, ao contrário, os humanos eram as projeções deles, o interesse de Tilly pelos extraterrestres passou para um segundo plano, diminui, esmaeceu, descorou aos poucos, assim como o amarelo que segue sua tendência natural ao claro e guarda uma afinidade intensa e física com o branco, como bem observou o artista e teórico abstrato Wassily Zandansky. A volatilidade de Tilly o levava a migrar para qualquer tom, sem baldeações e sem gradações, com a mesma disposição que ele tinha para sair de um estado de profunda melancolia para outro de puro êxtase. Sua inclinação à alvura, em particular, era ambivalente, como o positivo do retrato de sua alma, mas negativamente carregada de todas as misérias humanas resgatadas de volta a uma caixa de Pandora, e recomposta de todas as cores do espectro devolvidas à sua fonte original através do mesmo prisma que as separaram, transformando-o na cor que não representa apenas a ausência de cores ou a soma de todas elas, mas também uma contraposição ao nada que é gelado, escuro e assustadora e desproporcionalmente maior do que o insignificante todo para o homem, essas pedrinhas luminosas e solitárias que salpicam o breu sem-fim. Tilly se desviava para o branco não porque ele fosse puro, pois nem mesmo seus terapeutas tinham acesso ao seu lado sombrio, e nem porque fosse um pacifista por convicção, mas por conveniência, pois sua apologia a não-violência era apenas um simulacro para camuflar sua paura, daí o fato de sua face parecer estar invariavelmente pálida de sobressaltos.
Ao sabor das monções e em atrito com infortúnios, Tilly empreendia odisseias como um Ulisses retirante, instigado a sair em buscar de aventuras, como se o destino não permitisse que sua vida tivesse interstícios ou sofresse solução de continuidade, sempre lhe aflorando uma nova veneta logo que uma velha começasse a minguar. Por onde andava Tilly ainda carregava consigo seu acervo de relatos sobre visitantes de outros cantos do universo e quando a ocasião se oferecia, por estar na entressafra e por falta do que falar, ele entortava novos incautos com as mesmas histórias, agora não mais com o mesmo entusiasmo amarelo e contagiante, mas apenas com uma centelha esbranquiçada e nada interessante. Um desses novos imprudentes não se empolgou nem um pouco com suas fábulas, mas se apaixonou por ele e logo se tornou seu novo cristo, mais tarde apelidado por Tilly de Mensageiro da Decepção, um nome inspirado no título de um livro do ufólogo Jacques Vallee.
Como acontece com todos os filhos do homem, Tilly passou por várias fases na vida, cada uma delas de duração variável e marcada por uma profusão de opiniões, interesses, vícios e credos que são despudoradamente jogados na privada de tempos em tempos deixando menos vergonha do que fedor. Mas Tilly sempre precisou de um eixo em torno do qual suas manias efêmeras e cíclicas pudessem orbitar elipticamente como um asteroide que não se importa quão longe ele possa às vezes estar de sua estrela mãe contanto que ela permaneça sempre lá, no mesmo lugar, sempre lançando luz sobre sua trajetória e mantendo sua cauda alinhadamente para trás tal qual os longos cabelos da moça acariciados pela brisa do mar. Este centro gravitacional era um ponto de referencia, um alguém que estivesse à sua altura em termos relativos, e abaixo dele e de deus em termos absolutos. Um tipo de guru não charlatão que desse mais do que validez às suas opiniões e ainda se prostrasse aos seus pés como uma divindade submissa. Não um líder que escolhesse sua meta e o conduzisse até ela, non ducor, duco, ou um conselheiro que sugerisse mudanças nos seus planos, ou um guia ou um orientador que lhe mostrasse o caminho, mas apenas uma diva que tivesse pelo menos algo em comum com ele, que tivesse um conhecimento geral aparentemente parco e que o motivasse a supera-lo, deixando-o ser o centro de suas atenções, ouvindo-o, admirando-o e engrandecendo-o e, ainda que pudesse ser autônoma para arrebanhar seus próprios admiradores, deveria se resignar com o papel de figurante para que Tilly se sobressaísse como o ator principal. Tal potestade podia ser filha de homem nascido de mulher, mas de natureza glamorosa, como a Miranda Priestly da moda cuja opinião é a única que importa, e deveria se apequenar sob a sombra de Tilly e ser pega para seu cristo particular, como o Personal Jesus do Depeche Mode. Tilly tinha ciúmes desmesurados dessas divindades e se melindrava a ponto de mandar tomar banho até mesmo seus familiares se estes lhe furtassem seu tempo com elas ou desviassem suas atenções para outras pessoas. Se suas deidades morressem, morreriam também todas suas motivações correspondentes ao período que atravessava e com elas Tilly podia se afogar como um salva-vidas despreparado que é levado para o fundo da água pelos braços fortes de um desesperado. Tilly tinha dificuldades crônicas para se livrar da dependência destas divindades, como um viciado inveterado que só consegue deixar as drogas com ajuda médica e ao custo de muito sofrimento. Só mesmo o tempo, o remédio que não faz mais efeito e a visão de uma nova imagem primitiva permitia que uma deia dessas fosse milagrosamente largada no esquecimento, num ostracismo involuntário. Na infância e na adolescência Tilly teve um cristo chamado Joe Citadino que nunca entendeu a indiferença e o desprezo de Tilly por conta do seu total desconhecimento das sequelas deixadas pelo abalo emocional e incurável que ele sofreu na juventude e que dividiu sua vida em duas: antes e depois do colapso.

EXCEPTIS EXCIPIENDIS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Continuo iludindo-me com você, Na plena luz que o amigo dos heróis lança, E os túmulos apinhados o recebem de boa sombra, Seu silêncio intermitente, É qualquer coisa a um só tempo, Suave e dorido, A espalhar sobre meu coração devastado, Uma sensação cemiterial de paz e nostalgia, Enquanto aguardo meus mortos chegarem, Mas quem logo aparece é a amiga das heroínas, Prateando a noite caída do céu, Desfeita em pirilampos erradios fugindo do clarão do luar e do frescor dos bosques, E do seu seio ela me dá mais saudades, As minhas murchas, Antes para festejos, Antes belas, Dão lugar a frequentes melancolias, Mais que tudo, Num ser ingênuo do campo, Que se vê obrigado a deixar suas montanhas para viver em terra estrangeira, Ainda de longe sua voz parece ecoar, Clamando com se fosse mais que uma filha, E você não ouve de meus pensamentos, Palavras arrependidas que poderiam me salvar, E agora o tempo me passa, Entre bebidas e drogas, Trocando ácidos comentários sobre mulheres mal-amadas, Felizes, E abandonadas, Entre trovas de se jogar fora, Como sermões que o padre prepara para a missa, E que ninguém na igreja vai ouvir, Entre listas de presentes que já foram dados, Em tempos ultrapassados por horas de horror e tédio da memória, Que não vai valer-se de exceções, E vai morrer excomungado. 

CONFLITO

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98

A noite é fria e longa, Um inverno infinito e nebuloso, Também sou filha do céu, Fui formada por um sorriso Seu, E nunca brinquei com as asas dos anjos, Arcanjos, Serafins e querubins, Nunca de Ti e dele descuidei, E se Você julga que, Por um único instante, De Ti não lembrei, Que nenhuma lágrima caia sobre o sepulcro em que eu jazer, Sempre fui devota de tudo que para Ti é sagrado, Como Você é servido, Mas sumiu-me na vida meu filho, Desamparando esta mãe, Viúva de alegrias, Órfã de orgulho, Solteira de esperança, E hoje, Aqui fora, Com a lua negra, Lamurio-me com os raros amigos que ainda se dignam a acercar-se, Os demônios, As musas, As ninfas, As harpias, As parcas, E busco, Em pensamento, O santuário da deusa dos mortos, E estas palavras Suas sussurradas de última hora não irão me deter, Não vou entrar no meu quarto, Sentar-me em minha cama, Pôr-me a ponderar que plantei um árvore num quintal, Que coloquei um filho no mundo, E que meus descendentes escreverão em suas conversas o que foi minha existência quando eu deixar de ser mãe nesta terra, Já não sou genitora, Não terei pósteros, Já me encontro no saguão da diva do submundo, Gelado, Forrado de espelhos que refletem minha alma, Congelam minhas lágrimas e meus temores, Suas insistentes abonações não me levarão a desistir, Não vou recostar minha cabeça no travesseiro, Nem ver pela janela aberta as estrelas mergulhando na escuridão, Não vou orar de olhos descerrados, E não espero que minhas reflexões pareçam pétalas flutuando no ar da aurora, Estão minha mente e meu coração voltados para rosto da diva dos que perderam o revestimento do espírito, Ela tem garras, Não sei se perfuram ou abraçam, Adentro seu hall de olhos escuros, E espero descerrá-los diante de um jardim de consolo, Não sei porque Você me pergunta se encontrei paz no meu coração e descanso para minha alma, Me encontro dentro do sacrário da divindade, Muito aquém de Suas lembranças, Vejo caírem em sono profundo, As almas ainda não nascidas, Seus contínuos murmúrios são tardios, Nunca me vi surpreendida com a neve que cobre todo o chão, Como os sinos que ecoam pela atmosfera, Como se fosse o primeiro inverno, Louvada seja você, Deusa dos mortos, Minha sombra anda ao seu lado, Sinto sua generosidade, E entendo a vida, Alguém em que sempre acreditei, O Deus da vida, persevera em me perguntar se já encontrei paz no meu coração e descanso para minha alma, Deusa oculta, Fale a Ele sobre seu poder, Sele meu destino, Atenue meu sofrimento, Ampare meu filho perdido, Porquanto Ele continua a dizer-me que o sol ergue-se todos os dias, Sobre as águas turbulentas do mar e sobre as areias escaldantes do deserto, Diga a Ele que aqui, Em seu templo, O dia também é frio, Nebuloso, Mas vejo tudo claro, Mesmo sob este perpétuo nevoeiro, E Ele agora fala pelo meu filho, Alega que já encontrou paz no seu coração e descanso para sua alma, Pede-me para dormir e esperar, Esperar a primavera e o outono se revezarem, Esperar o dia e a noite se completarem, Diz que Deus escreveu um lindo livro para todos os homens, Plantou um formoso jardim na terra, E sacrificou seu único filho para que hoje pudéssemos ter paz em nossos corações e descanso para nossas almas, E para que, Quando estivessem separados aqui, Pudéssemos nos reencontrar acolá, Minha deusa, Em quem devo acreditar? O único filho Dele nunca retornou, Você pode fazer o meu voltar? Ou devo morrer também para saber em que acreditar?