domingo, 25 de setembro de 2016

SILVIA E AMANDA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Sílvia está recostada no sofá, Cabeça reclinada para trás, A escutar como quem presta ouvido às vozes que a convidam para jantar, Vozes longínquas às memórias que seus olhos cerrados estão a imaginar, Cercados de um lado pela vastidão do mar, No chão a macicez da areia para seus pés descalços, No alto o sol dourado cortado por algumas pipas coloridas que lhe enfeitam o olhar, Como seus sorrisos de todas as meninas que cirandam sem parar, E riem desde a manhã até o fim do dia que nunca veem chegar, Uma alegria com as companhias que parece se eternizar, Sílvia não pode mais escutar, Não pode mais despertar, E para onde foram todas aquelas crianças? O que fizeram de todas aquelas lembranças? Quem ficou com a menor parte de sua felicidade? E a maior parte de sua solidão? Amanda está deitada numa cama, Olhos abertos ao infinito, A se perder como quem os fecha às ausências que querem se acercar, Ausências desatinadas com os sentimentos que sua alma anestesiada está a preencher, Cercadas de um lado por lágrimas de sangue, No chão a terra dura para suas mãos calejarem, No alto o sol a pino rabiscado por alguns pingos de chuva que lhe refrescam o suor, Como suas obstinações de todas as mulheres que trabalham sem parar, E perduram antes de o dia começar até o fim da noite que nunca as veem descansar, Uma missão com os deveres que parece predestinar, Amanda não pode mais ficar, Não pode mais ajudar, E quem tomará conta de todas aquelas crianças? Quem trará mais bem-aventuranças? Quem herdou a maior parte de sua devoção? E nada do que sobrou de sua ambição?  


O TEMPO É A MEDIDA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98 Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche) 


Aconchego pensativo de chuva de verão e céu desvelado, Para uma ideia intuitiva, Uma senha para a alma, Um algorítimo de cubo mágico, Carrega um sonho inoculado, Aplica antídoto contra antibiose, Simbiose para quem tem nome de amor interino, Anseio de uma presença, De um romance, De fino acesso requestado, Por neurônios e circuitos integrados, A um só tempo criador dependente e criação configurada, Ambos, Por causa de um só saber ilimitado, Uma afeição ainda não compartilhada.

VOCÊ É O VENTO SOB MINHAS ASAS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

É ingratidão arrumar desculpas para não ser feliz, É insensatez não amar o que sou, Você criou-me com a melhor intenção de teus dons, Sempre me apoiou em tudo que fiz, certo ou errado, Afastou de mim quem fingiu que sempre me amou, Deu-me o privilégio de ouvir todos esses divinos sons, De ter os sonhos mais espetaculares, Enxergar com a aura o que os olhos jamais irão perscrutar, Usar o pouco de inteligência que tenho com muito esforço e dificuldade, Conhecer dentro de ti gente nova e novos lugares, Dar-me a ingenuidade de pensar que minha intuição jamais irá falhar, Fazer parte de uma fração da humanidade, Constatar que pessoas nunca vistas me consideram, Constatar que cidades nunca visitadas me esperam, Constatar que fatos ocorridos no passado nunca desaparecerão, Constatar que fatos previstos no futuro realmente acontecerão, É perda de tempo arrepender-me de todos erros cometidos, É injusto achar que fui marginalizado, Você sempre teve a modéstia de fazer-se parte de mim, Nunca me lembrou de todos meus votos não cumpridos, Sempre vibrou por mim enquanto eu sofria calado, Deu-me a oportunidade de ir um pouco além de meu conformado fim, De traduzir em vocábulos o meu estado de espírito, De voltar para o mesmo sonho na hora que eu quiser, Precisar de menos do que meia palavra para te entender, Tirar suas conclusões sem a necessidade de muito escrito, Saber que a sincronicidade de sua natureza me encontrará onde eu estiver, Fazer parte do elenco da peça da vida que ensinou-me a crer, Constatar que o homem inventou deus para justificar toda a sua iniquidade, Constatar que a mulher copiou as boas novas dos gregos e romanos para exercitar sua genialidade, Constatar que a bíblia sagrada é pura mitologia roubada das mais adiantadas e antigas civilizações, Constatar que o proselitismo religioso é só uma máscara para acobertar nossas imperfeições, É ignorância lamentar não poder ser  imortal, É infelicidade ter medo da morte, Sou apenas um acidente de sua criação, Você sempre iluminou-me como um sol, Salvou-me de minhas irresponsabilidades por meio do acaso e da sorte, Deu-me o direito de ser parte de sua evolução, De talvez poder ser reciclado como uma supernova, Ter alimento do princípio vital até onde puder, Atrofiar a fé cega em favor do intelecto, Ter determinação que resiste a qualquer prova, Ter corpo de homem com alma de mulher, Permitir que eu faça parte de seu grupo seleto, Constatar que certas músicas foram para mim tocadas antes de serem lançadas, Constatar que certas músicas procuraram por mim para poderem ser inventadas, Constatar que certas músicas me dão paz interior e boa vontade, Constatar que certas músicas estão acima da idolatria e me dão amor de verdade, Se continuo vivendo é porque você ainda não esgotou minha energia, Quando você desejar reintegrar-me ao seu esplendor de vez estarei preparado, Voltarei a ser a mesma partícula de poeira fria, Esperarei milhões de anos para ter uma nova chance de ser recriado, Você é o vento sob minhas asas, O deus que com cuidado sopra minha fragilidade, o deus de muitas moradas nestes incontáveis universos de muitas casas, e sei que concorrerei a uma delas mesmo quando estiver inconsciente de sua eternidade.

DIAS DE HORRORES: TODO MUNDO FERE, TODO MUNDO CHORA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


No retiro conformista, Os dias são longos de dissabores, De horrores, Então, Por que esta alegria, Se é improvável o poder deles esquece-los? Improvável, Incerto e inconstante, Mesmo que o dono de um corpo padeça de moléstia que oblitere a memória, Porque, crê-se, Um coração não sabe evitar numa reminiscência longínqua a saudade dorida de certas criaturinhas, Indecisas, Que não teve e as perdeu, Perdeu para um coração transformado em pedra, Entregue a uma humilhante execração pública, Por crime de traição e ingratidão, Sendo ele tão doente e infeliz, De sorte que é pesarosa sua ignorância da gravidade das acusações que pesam sobre ele e das consequências de seus atos impulsivos e inconscientes, É uma incoerência imperdoável guardar uma porção ínfima de admiração por um pobre-diabo como esse, Na base de cuja conduta se descobre uma falsidade radical, Mas o réu criminoso põe de lado as ofensas, por haver muitas outras de maior peso, E tenta trazer o acusante para si, No entanto, a superioridade intelectual e a agressividade prevalecem a medo, Assim como uma união fracassada incita uma luta solitária e distante por independência, Com um relutante pedido de pequena ajuda, E as partes antagônicas, sacudidas no espasmo de revoltas indignas, Reatam, Evocando tempos distanciados e submissos que deveriam revigorar o espírito, mas o ser dito mais frágil, passa ora por uma crise de autopiedade, sem lágrimas escorridas, sem ir até aos soluços, ora por um surto de autodeterminação, sem palavras temerosas, indo até às mais ingênuas mentiras, e mente, e o culpado, resignado com a impossibilidade de por fim à indiferença, perde mais vergonha, Ilude o autor apenas para satisfazer seus próprios interesses, despreza sua hereditariedade, fere, e chora, porque um cobertor oportuno salvou seu acusador do frio torturante da noite, salvou uma vida, chora de tristeza e alegria, porque no auge do excruciante mal da alma mais fez por todos do que na fase embrionária e ainda não manifesta.


OS MORTOS SABEM DANÇAR

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Escrevo, Mas escrever não é saber, Confesso, Mas não morro como padre que nada ouve no sacramento da penitência, Trato logo de casar e gerar filhos que coincidam o numinoso com a realidade, Assim as mesmas mentes, Oníricas e vigeis, Unem-se na imaginação e além dela, Vi o sentimento inquieto da mulher das cores, Magoado, Oculto, E aterrador, Então criei-lhe um novo mundo secreto, E este arrancou-lhe o coração que lhe apunhalara, E a levou até a baixa idade média, Onde um lusitano arcaico conta uma história que, Antes e durante, A desconhece, E vai descobrir o novo universo da homossexual feminina e colorida, E será o único a lê-la depois de pronta, Em troca, Sou lançado num conflito armado e desprevenido, Sou raso, No lugar de uma contraofensiva, Sou levado para cima de onde salto para não morrer, Para ouvir uma canção de ninar de bebê para soldado, Minha guerra é um grito com voz de criança, A ela sou uma lira que ao silêncio consagra, Que a Deus glorifico no céu, E Ele perece flagelado como seu filho na terra, Não tão cruel como o inferno astral sem costa marítima, Recorro à cartomante, E dela despeço-me pela mente, E do grande perigo de corpo ausente, De temor, Muitas vezes maior que o próprio risco, Bem diferente da velha combatente com arco de teixo, Que me recebe em sua mais recente vida, Esta existência que me produz e me deixa produzir, Eleva-me a um intrincado labirinto de animais falantes, Desce-me a um subterrâneo de simpáticos humanos idênticos, Viajando-me no tempo, Até a época medieval, Onde minha amada vira freira, E em nossas horas de tédio de memória, De saudade, Andamos, Um pelo outro, Solitários numa praia de dia nublado, Esperando nos rever como uma enfermeira e um combalido num campo de batalha, Como um pai e uma filha na primeira vez que chego a um noivado, E em troca, Sou avistado por quem cuida de enfermos e recém-nascidos, Morenas de roxo e branco, Me vejo diante de um técnico de futebol sem saída para o mar, Prometendo um novo rolo compressor, Encontro a homônima de minha caçula sentada no canto da segunda casa do arqueiro, E o presidente assassinado na base de lançamentos para o espaço sideral, Saio desta noite alta, Dessa noite morta, E vou dar numa região de coronelismo, De clientelismo, Que leva no nome o dia dos que conheceram a morte e viveram, Dos que dominaram a vida e morreram, Trabalho arduamente para mudar as divisas de minha mediocridade e avançá-la no passado, E lá, Aparentemente calmo e imperturbável, Minha cólera impotente é desafiada por uma enigmática trindade, O redentor na proa de um barco, Compenetrado, A rainha virgem deitada no fundo de um lago, Sorrindo de felicidade, O abominável homem das neves bradando do topo mais alto, Sou conduzido de volta à minha imortal milha quadrada, E um amigo esquecido convida-me a juntar-se à sua invenção, Outro, Ainda solteiro, Pede-me desculpas pela bagunça em sua casa, Saímos para tomar o chá das 5, Em noite ainda iluminada por lampião, Ele me canta canções inéditas antes do lançamento oficial, Resolvo entrar no espírito da trama, Meu pai finalmente me chama, Chego a um hospital num campo de Marte, Gero um campo de Vênus para a mãe de uma de minhas vítimas, Ela me pede ajuda, Então faço seu paciente japonês adiar seu suicídio por uma semana, São presentes dos mortos que não sei como pagar, Que, indesejado, Não sei como agradecer e com eles ficar, Nem numa berlinda, Nem num auditório, Saio deste sonho pela porta de uma igreja, Ladeira abaixo com cordão de isolamento desde o altar, Com loiras, Ruivas, Morenas, Uma velha e uma brotoeja, Em harmonia, Põem nos meus ouvidos todo o talento que a natureza não me concedeu, Um som celestial, Uma mágica no ar, Que confia-me a cidade que quer sair da escuridão, E ela me faz revelações abismais, E obrigo-me muito mais quando souber como escrever, O que se faz quando o sol está frio demais.

MILAGRE




Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


A vida é uma maravilha, A vida é um acidente, Porque a terra brilha, Acordo contente, Porque a terra dá voltas, E leva-me com ela, E leva escoltas, A lua que é sua vela, E seu rodopio de bailarina, Dançando a noite com o dia, Caminhando divina, Em torno de sua estrela guia, Na escuridão com Marte, E na claridade com Vênus, E meu sono me reparte, Com Fobos e Deimos, Só no nome o temor, Só na vida a morte, Até na morte o esplendor, Porque a vida é uma sorte, A vida é uma casualidade, Como todos os mundos, À merce da eventualidade, Meros ruídos de fundos, O universo é uma maravilha, O universo é um acidente, Pequena luz que brilha, Na imensidão negra e vivente, As galáxias atracam-se, Aniquilam incontáveis sistemas, Os restos ajuntam-se, Voltam a ser as mesmas, Com todo esse barulhão, Com todo esse caos, O sol é um borbotão, Circundado por naus, Saturno anelado, Urano gigante do gelo, Netuno azulado, Júpiter grandioso apelo, A vida é breve, O universo expande, Meu sono é leve, Outro universo esconde, Continuo a bordo, Sem deus, religião e padre, Cada vez que acordo, É um novo milagre.


MARY, MARY, MARY


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98
Se desejar, clique no link abaixo e leia o texto ao som de uma música apropriada para o mesmo

Onde você vai?
O que eu tenho que te atraí?
Ensina-me a beijar com a língua
Ensina-me a perder a virgindade
Divida esse porre comigo
Já não represento nenhum perigo
Para onde devo ir?
O que não fiz para você partir?
Ensina-me a fazer mais do que com a mão
Ensina-me a perder minha timidez
Divida sua prima comigo
Já não represento nenhum perigo
Onde podemos ir juntos?
Falaremos sobre quais assuntos?
Ensina-me a usar mais do que suas pernas
Ensina-me a perder o seu medo
Divida todo esse corpo comigo
Já não represento nenhum perigo
De onde você veio?
Por que você tem receio?
Ensina-me a ser menos romântico
Ensina-me a perder minha covardia
Divida toda sua experiência comigo
Já não represento nenhum perigo
Eu ainda não tinha terminado
Eu teria te amado
Eu teria te seguido
Porque nunca representei nenhum perigo
Se você tivesse me ensinado eu teria aprendido


EXISTIR



Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Saudoso e apressado amigo, Ávido para se encontrar com um deus em quem ele não acredita, Diz que fazer jornalismo é só juntar letrinhas, Ele se foi e me deixou morto abaixo dele, Como desagregador de opiniões, Uma desobra incompleta, Menos que esta letrinha em uma enciclopédia de infinitos tomos, Menos que uma gotícula de orvalho num aglomerado de universos que se afastam uns dos outros, Com espaço para mais uma letrinha escura no branco ao meu lado, Uma reluzente estrelinha neste espaço imensamente negro e silencioso, Totalmente turvo, Não fossem essas casas de luzes acesas dia e noite que nos intrigam, Como límpido seria o campo de neve, Não fossem estas minúsculas marcações como os passos das aves, Estou entre os rebentos de ondas de um mar enfurecido, Entre os segundos que separam o relâmpago do trovão, A fração de silêncio ao final da música, A era glacial antes da fusão, Viva junto de mim, Como um Deus que é meu amigo descrente, Sua ternura é minha bravura, Viva dentro de mim, Como um Demônio que é meu amigo ausente, Sua presença é minha única crença, Sua mão estendida minha insólita existência, Só outro semelhante gesto, Como o seu, Preenche meu vazio.

THE BEATLES:ONDE VOCÊ ESTAVA? ALCEU NATALI, BRASILEIRO, BIPOLAR, INSCRITO NA DÍVIDA ATIVA DA UNIÃO DOS CORRUPTOS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98

Meu pai não era apaixonado por música, mas gostava de tê-la em casa para alegrar o ambiente. Ele comprou uma vitrola estéreo e uma coleção de LPs de vários gêneros para agradar todos os gostos. Bolero, samba, tango, música italiana e natalina, valsa de Strauss, rumba, Ray Conniff, etc. Todos os domingos o almoço era abrilhantado por melodias, como num restaurante com música ao vivo. Sem ser influenciado por ninguém, e por motivos que desconheço, tomei gosto por músicas cantadas em inglês. Minha preferida era Oh Carol do Niel Sedaka, e ela fez-me apaixonar-me por uma mulher de 20 quando eu tinha apenas 12. Nos dias de semana, meu irmão mantinha a vitrola ligada na rádio FM o dia inteiro, procurando músicas mais modernas que as de meu pai. A vitrola ficava no meu quarto e, ao som da rádio eldorado, meus ídolos, Julinho, Servílio, Tupãzinho e Ademir Da Guia, treinavam no assoalho encerado, travestidos de tampas de relógios pintadas, e batiam uma bolinha como aquela usada no hóquei no gelo. Numa tarde chuvosa, uma canção interrompeu o treino. Isso nunca acontecera antes. Um coro dizia em inglês: Eu quero segurar sua mão. Esse apelo era repetido a cada hora. Nos dias que seguiram-se, era eu quem mantinha o rádio ligado o tempo todo, esperando por aquela música. Ela era diferente de tudo o que eu ouvira antes. Não parecia ser fora do comum, mas era mais que música. Logo aquele conjunto vocal passou a revezar Quero segurar sua mão com Ela te ama e a partir de então eu só tinha ouvidos para ele. A rotina da casa não mudou. Os almoços dominicais continuavam regados a músicas populares e universais. Meus ídolos continuavam os mesmos e sendo cada vez mais admirados. Mas os intérpretes daquele par de harmonias subjugaram meus heróis do esporte e mudaram minha vida para sempre. 


EM QUE ESTOU PENSANDO NESTE MOMENTO?


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Vejo uns olhos onde um raio anda iminente, Prestes a fulminar, Perdendo-me para sempre, Assim como meus já não tão verdes anos que em vão procuro reter, Vejo uns lábios onde um beijo anda impaciente, Prestes a morder, Prostrando-me ardente, Assim como minhas já não tão roxas chamas que em vão procuro reacender, Vejo umas faces onde um lado anda descontente, Prestes a chorar, Trazendo-me para o presente, Assim como meus já não tão paramentados encantos que em vão procuro esquecer, Ouço um pensamento perguntando-me precisamente o que é o amor, Senão apenas respirar para viver, Ouço um coração acelerando suas batidas com tremor, Senão apenas por desejar e não ter, Ouço uma voz abafada por intenso sofrimento interior, Senão apenas por se orgulhar e não ceder, Vejo uma mulher onde um olhar anda enigmático, Prestes a desafiar, Deixando-me estático, Assim como minhas já não tão fortes energias que em vão procuro recuperar, Vejo uma mulher onde um sorriso anda forçado, Prestes a se enclausurar, Deixando-me lamentado, Assim como minhas já não tão entusiasmadas paixões que em vão procuro renovar, Vejo uma mulher onde um espírito anda dividido, Prestes a sentenciar, Deixando-me sentido, Assim como minhas já não tão estáveis emoções que em vão procuro controlar, Vejo uma mulher com todos estes pensamentos, E só um eu lamento, Sua facilidade para rapidamente decidir entre viver e morrer, E o que você tem em mente agora é encontrar alguém que possa te entender, E é por isso que resolvi te responder.


QUERER ACREDITAR


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Frecheira que nada tem de cega, Que contra o céu se atreve, Sua mira não nega, Que deus você persegue, Mas preso está teu coração, E claro está em seus olhos escondida, A fé numa paixão, E queres ser também ser ferida, Ser tomada de roldão, Por este servidor, Este deus do amor, Que levanta seu corpo estirado da sesta, Embandeirado em arco, Desavincada sua testa, Arremessa-lhe de flecha e de jeito parco, Esta sua ansiosa querença, De mulher de muita luz, De muita crença, Que a escuridão seduz, Não a deixa ir para trás ou adiante, Com o passado detém seu presente, Mantém seu futuro cada vez mais distante, E sua esperança sempre recalcitrante, Mas seu sonho há de um dia coincidir com a realidade, E deixarás de contemplar só com saudade, Esta distância sofrida, Que te separa de gente querida, Gente que não mais te quer, Só porque você é mais mulher, Porque não tem medo de errar, De pecar, De se autoflagelar, De se arrepender, Jamais pedir perdão, Por tudo que ignoraram você fazer, Na sua involuntária solidão, Por toda materialidade que você provia, Porque só assim você servia, Só assim você podia existir, Como a tragédia grega que ainda existe como uma das grandes criações humanas, Como o seu ser que agora vive num circo itinerante, Levando vidas ciganas, Com um código ético desmoralizante, Dançando música à própria morte, Sujando suas mãos, Escrevendo e lendo sua própria sorte, Barganhando noites doentias por dias sãos, Sonhe menina, Sonhe sozinha, Você perdeu uma genitora, Mas ganhou um genitor, Perdeu um irmão, Mas economizou um amigo, Nunca teve um filho, Mas semeou em férteis terrenos, Sonhe menina, Sonhe sozinha, Você não é menor que a doutora, Que o professor, Não manda mais que um caudilho, Mais que seu inimigo, És devota de Amão, Que prefere o culto discreto dos lacedemônios a todos sacrifícios e oferendas dos helenos.   

COMPANHEIRO


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Gostaria de ser sua luz no final do túnel, Estar do outro lado do céu para te receber, Não tenho pressa,Te espero se você preferir vestir a mesma pele comigo, Não se desespere com tanta incerteza, Posso ser sua ponte sobre águas turbulentas, Seu chão firme sobre as nuvens, Não tenha medo de olhar para baixo, Estarei segurando-te em meus braços,Por quantas existências você quiser, Jamais hesitarei ou me deterei, Por você, tudo vale a pena, Cada lágrima derramada, cada dor lembrada, Só escrevo-lhe o que sobrou de mim, Tudo o que fui antes ficou preso naquele momento do qual não consigo sair, Quando todas as estrelas no céu estão apagadas, Lá te vejo brilhando, Por favor, traga-me o sol da manhã, Porque a noite não tem sido generosa, Leve-me para o seu lugar sagrado, Para que eu possa tirar de meus pensamentos, Seu martírio diante de minha impotência, Gostaria de ser seu bosque verdejante, Flutuando no firmamento e vendo-o passar, Procure descansar um pouco, Faço-lhe companhia até você despertar, Não desperdice nenhum de seus sonhos, Posso ser sua almofada para você recostar sua cabeça, Seu  sofá para você se espreguiçar, Não tenha medo de acordar no escuro, Estarei segurando uma vela para você me encontrar, Você não vai querer ver-me o tempo todo, Lamentando-me e com remorsos, Viver disso não vale a pena, Enquanto nossa próxima amizade não começa, Fique com a melhor lembrança que teve de mim, O tempo que perdemos ficou com Deus, E se alguns caminhos no céu também se perderem, Ele lá estará te guiando, Por favor, apareça nos meus sonhos com seu olhar meigo, Porque seu silêncio tem me torturado, Guarde um lugar para mim ao seu lado, Dá-me metade de seu sofrimento, Para preencher parte de meu coração que ficou vazia, Ajuda-me a estar preparado para o dia que eu precisar chorar por outro tanto quanto  chorei por você.

TENHO MILHÕES DE INIMIGOS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Preciso jogar uma bomba atômica na capital, Executar, Sumariamente, Todos que são contra a pena de morte, Capar o estuprador de crianças, E deixá-lo completamente banguela na cadeia, Preciso cortar as mãos do ladrão em praça pública, Minha desonestidade é difícil de ocultar, Todos meus credores sabem onde me encontrar, Quero fazer justiça com as próprias mãos, Ter o direito de matar para me proteger, Porque o ser humano vale menos que meu cão, E deveria somente comer as migalhas que ele deixa no chão, E lamber as pérolas pagãs que lhe são atiradas, Minha verdade é fácil de entender, Mas todos preferem se esconder, Quero soltar o diabo de garrafa, Para comemorar todas as imposturas em nome de Jesus, E tomar de vez o lugar deixado por deus, Ele pode conceder aos estabanados como eu, Mais tempo para rezar pela minha alma, Minhas mentiras sempre foram escancaradas, As inconsequências de meus atos apenas diagnosticadas, Fantasmas não aparecem em minha casa, Os mortos não me respondem, Preciso matar alguém na minha frente, Para ver se ele logo me ouve, Decepar sua cabeça, Para ver se ele olha em meus olhos por uns instantes, Minha maldade ainda conhece limite, Contanto que a sua não me irrite, Quero construir um crematório onde caibam todos os políticos, Providenciar cabrestos para todos os eleitores, Ensiná-los a trabalhar na roça, A puxar carroça, A estercar para fertilizar o solo, Minha família é adorável, Mas não tão familiar, Meus inimigos aprenderam meu nome sem precisar decorar, Os pretensos intelectuais são afrescalhados, E desconhecem seus complexos de inferioridade, Pensam que estão acima do bem e do mal, Dos vasos sanitários e das fossas sépticas, Pseudo celebridades que preferem o cheiro de suas fezes ao do povo, Minha autenticidade é a ojeriza dos politicamente corretos, E é por isso que eles deixam meus ouvidos quietos, Quero dizimar com armas químicas e biológicas todos os que dizem que este é o pais do futuro, Eles não têm noção de tempo e espaço, Não tomam semancol, Não usam desconfiômetro, Pregam o lema de cada um para si e deus para todos, E eu não posso desperdiçar meu ódio com esses hipócritas engodos, Achando que suas indiferenças me impedem de ser o que eles gostariam que eu não fosse, Todos cus-doces.

MARIA GASOLINA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Dirigindo sozinho, Regulando periquitas nas ruas, O preço aumenta em seus olhos, Você pega pesado, Leva para o banco de trás, Para agitar e por para quebrar, Não meu coração, Mas o de sua mãe, Não sou Maria chuteira, Sou movida à gasolina, Você quer mostrar  seu documento, Mas só quero me expor a olhos invejados na velocidade de seu carango, Na sua conversibilidade, A céu aberto, Onde você pode imaginar meu corpo, Enchida de vento, Com que meu voo exibido se levanta, Você quer mostrar sua manha, Mas se quiser parar, É dentro de um cinema, Para cabular a aula, E tocar só na minha pipoca, Ou dentro de um posto, Para repor suas energias, Porque meu combustível é inesgotável,  E querer me pegar à força, Nada tem a ver com a doçura que sou, A escamosa que escondo, Você não vai me ver petrificada, Escancarando sentimentos que me comprometem, Só vai conhecer meu lado maluquinho, No limite de meu assanhamento, E se você quiser me dar um amasso numa boa, E ir muito além de um beijo de língua, Estarei naqueles dias, E você nas minhas coxas, No máximo, Nas minhas nádegas de luto aliviado, Com calcinha ainda hasteada a meio pau, Tudo tem a ver com quem você é, Como você pode zelar pela minha defloração, Com o tamanho de seu documento, Seu carro, E sua combustão.

CHARME



Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Lá vem você de saia branca rodada
Passos acelerados e cadenciados
Olhos refletindo o sol no horizonte
Pestanas debruçando-se sobre a calçada
Deixando todos olhares extasiados
Voltando-se para onde seu sorriso aponte
Lábios descolando uma expressão espontânea
Uma mão na bainha contra o joelho
Outra no chapéu contra o lado que venta
Coteja flores com inveja momentânea
Maçãs do rosto com tom de vermelho
Cabelos esvoaçando em câmera lenta
Pescoço altivo envolto num lenço
Cabeça suavemente jogada para trás
Ombros balançando com os quadris
Respiração serena no ar denso
Mormaço que o frescor de seu hálito desfaz
Graça da ponta dos pés até a do nariz
Sobrancelhas e cílios decoram o que já é bonito
Exala fragrância na atmosfera ao passar
Deixa sua simpatia e suas curvas à mostra
Poses no andar que dominam o infinito
Faz uma rua inteira parar
É encantadora de frente e de costa