segunda-feira, 26 de setembro de 2016

ANJO

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. Clique no link abaixo e leia o texto ao som de uma música apropriada para o mesmo

Quando seu coração pede para que eu entre, O tempo esvanece, Um novo universo floresce,  É o seu aconchego o que mais se sente, Quando estou dentro de você, A noite dos tempos se desprende, A luz de todas estações se acende, São suas cores primaveris o que mais se vê, Quando seu ser me oferece o ensejo, Meu mundo se abriga em sua alma, Meu espírito encontra paz e se acalma, São seus desígnios que realizam meu desejo, Quando viajo pelo seu corpo, Cruzo mares que se perdem no horizonte, Fico à deriva nas águas que jorram de sua fonte, É sua calmaria que impede-me de regressar ao meu porto, Quando sua substância se une à minha com fervor, O tempo pára à espera de um desenlace, O cosmos vibra e dá um passe, E o seu anjo interior produz amor.


POR QUEM LÁGRIMAS SÃO DERRAMADAS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche);

Nasci com um tipo de depressão incurável e que já roubou mais de três quartos de minha vida. Embora fosse introvertido, inseguro e medroso, tive uma infância feliz. Isso se deveu, em parte, aos tempos em que vivi, os mágicos anos 60 que nunca mais voltarão a este planeta. O responsável pela outra parte foi meu pai. Homem honesto e generoso, batalhador, que vivia só pela família. Seu pai só lhe permitiu cursar o primário e o fez pegar pesado no batente na construção civil com apenas 12 anos. Ele aprendeu a ser construtor com meu avô italiano. Com 21 anos de idade ele construiu sua própria casa nos fins de semana, e acordava às 5 horas da manhã de segunda a sexta para chegar ao trabalho às 8 da manhã e voltar para casa só depois das 8 da noite. Não éramos um família rica, nem pobre. Apenas gente da baixa classe média morando num pobre bairro da periferia de São Paulo. Meu pai não deixava faltar nada a mim e aos meus irmãos. Quando sobrava alguma coisa, tinha bicicletas, trenzinhos elétricos, bolas de futebol e toda sorte de brinquedos para todos. Meu pai não era de falar muito. Simplesmente agia. Não pedia favor a ninguém. Sempre se antecipava às necessidades de qualquer parente. Construiu casas para todos, sem nada cobrar. Não tinha nem 35 anos quando comprou um apartamento na Baixada Santista. Nos 60 a Praia Grande era um verdadeiro paraíso e lá passávamos as férias de verão nos meses de Janeiro e Fevereiro todos os anos. Certo dia, chegou em casa meu primo mais velho que morava no interior. Ele queria conhecer o mar. Meu pai prontamente se dispôs a levá-lo e juntou-se a eles um de meus tios. Eles passaram três dias na praia. Eu chorei três noites seguidas de tanta saudade de meu pai. Isso era inexplicável porque raramente eu ficava ao lado dele. Naquela época, os meninos passavam o dia inteiro brincando na rua. Voltavam para casa ao escurecer e só sobrava tempo para tomar banho, jantar, assistir um pouco de televisão e ir cedo para a cama. Meu pai trabalhava 16 horas por dia e eu só o via à noite, perto da hora de se deitar. Aquele choro de saudade ainda hoje parece a ressonância de uma cantiga tão pesarosa que, embalando minha infância, me segue por toda a vida. Nem mesmo quando meu pai faleceu em 1997 tive um choro tão triste como aquele quando eu era uma criança de 10 anos. Igual pranto assim plangente ocorreu-me somente uma segunda vez. Eu já era casado e tinha três pequenas filhas. Me orgulhava muito de ter meninas tão bonitas. Meu amor por elas era o mesmo que o meu pai tinha por mim. Foi uma pena que minha família me marcou com a fama de ser um pai indiferente e ausente. Nunca culpei ninguém por isso, porque ninguém jamais soube que não era eu quem estava no comando o tempo todo. Eu assumia o controle e gozava de raros momentos de felicidade quando minha depressão se cansava e dava uma trégua temporária, como alguém que tira férias do trabalho e fica um mês fora. Minhas filhas dormiam num quarto não muito grande, nem muito pequeno, mas muito confortável. Elas dormiam num beliche e numa cama. Depois de alguns anos os móveis de madeira começaram a se deteriorar e precisavam ser trocados. Minha ex esposa decidiu comprar móveis mais modernos e duradouros, com armações de metais. Nós doamos os móveis de madeira a uma instituição de caridade. Mas tivemos que esperar quase um mês para a loja nos entregar as novas camas. Enquanto isso, minhas filhas dormiam nos colchões estendidos no chão. Eu sofria demais com isso. Me achava um pai desnaturado por deixar as minhas meninas dormindo junto ao assoalho. Eu deveria ser o único a padecer com isso, porque minhas filhas até se divertiam com essa novidade. No dia que chagaram as camas novas, tranquei-me no banheiro e chorei muito, de alívio e alegria. O mesmo choro sentido de saudade de meu pai quando eu era criança. Embora eu não tenha tido a capacidade de ser para minhas filhas tão prestativo quanto meu pai foi para mim, creio que herdei dele um pouco de seu sentimentalismo. Nunca mais chorei desse jeito tão amargurado, mas meu pai foi acometido por estas lágrimas incompreensíveis duas vezes, uma vez por mim e outra pela família. Quando fui à China pela primeira vez eu já tinha mais de 40 anos. Mesmo assim, meu pai derramou muitas lágrimas ao se despedir de mim. Era um tudo-nada de um pai que ama de verdade, aflito apenas por ver um filho viajar para tão longe. Encontrei os mesmos olhos lacrimejados quando voltei ao Brasil depois de um mês. E a última vez que eu o vi foi na UTI de um hospital de onde ele não sairia com vida. Ele já não podia falar porque tinha sido submetido a uma traqueostomia. Ele me abraçou e chorou. Ele não tinha medo de morrer. Ele só queria que eu o levasse para casa, porque a família precisava dele. E não pude fazer por ele a única coisa que ele me pediu em toda sua vida. Hoje choro à toa, por qualquer motivo banal. Talvez minha depressão que envelhece comigo esteja perdendo força e deixou se contagiar pelo meu sentimentalismo.


MUNDO ILUMINADO

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Quando a saudade embravece, Ecoa sempre como a mesma cantiga antiga, Embala meu sofrimento, Me segue por toda a vida, Até a última lua de uma velha noite, Esta lua que prateia os caminhos de minhas dores, Prende-me a esta loucura que me apanha, Como amor à primeira vista, Um sentimento que me visita e me larga do outro lado de sua afeição, Ilumina meu mundo do lado de cá, Me faz cair de cabeça numa paixão, Quando esta lembrança nostálgica se enfurece, Esfuzia relâmpagos que fosforeiam a caligem de minha solidão, Retumba com o estrondo de um trovão que apavora meu coração, Cerra minha visão com brumas e chuvas de cordas que ainda amarram minhas emoções, Até minha imaginação de vê-lo deitado ao meu lado, Tentando tirar-me deste mundo iluminado, E levar-me para o outro lado, Onde não reino, Onde me coloco no mesmo nível dos seus olhos que observam uma pintura em exposição, Onde você se arrisca, Onde nossos mundos se chocarão.

ENQUANTO ISSO LÁ NA TERRA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Alguém no pronto atendimento morre por falta de socorro, Imagens de Marte chegam às telas dos cientistas no centro espacial, Um anjo anda manquitolando e voa de asa quebrada, Alguém carrega uma cruz pesada até o alto de um morro, Um homem no vácuo olha o silêncio da terra branca e azul celestial, O espírito de uma pessoa passa por mim e mantém a voz calada, Hoje um menor de idade nunca mais voltará para seu lar, Um eclipse lunar unirá muita gente em dois quadrantes, Alguém derramará lágrimas sob o olhar de seu guia protetor, A flor encontrará espaço no meio do asfalto para brotar, A água do rio tocada com as mãos não será a mesma de antes, O leão acordará depois de vinte horas de sono reparador, Uma prece atendida trará mais sofrimento do que uma não ouvida, Deus entrará com pedido de transferência para outro planeta, Um menino andando de quatro espera o cavalo estercar para ter comida, Uma nova guerra se inicia para terminar a próxima a ser sugerida, Diamantes enfeitam dedos de madames com sangue violeta, A separação dos continentes ajuda a manter a discriminação protegida, Discos voadores cruzam os céus à deriva no tempo e espaço, Eleonora colhe do chão da igreja os grãos de arroz que saudaram recém-casados, Fantasmas de cemitério têm medo de entrar dentro de uma favela, O olhar sem rumo de uma criança de rua penetra como uma lâmina de aço, O solo recebe tanta água quanto cadáveres assassinados, Alguma menina venderá o corpo e dormirá como uma Cinderela, Um homem pobre e condenado é salvo por uma cirurgia espiritual, Cães e gatos repousam sossegados sobre confortáveis almofadas, O mundo se comove com a perda irreparável de uma celebridade mística, Uma bomba atômica é detonada sobre uma cidade para testar seu poder mortal, Gente andará de joelhos até sangrar por graças alcançadas, O extermínio em massa de seres humanos vira mera estatística, A passagem do ano novo é celebrada com fogos de artifício, Pássaros mortos de velhice não serão vistos pelo homem, Os dez mandamentos serão aumentados para mil, Nascer, viver e morrer exigem muito mais que sacrifício, Os alimentos são abundantes mas poucos comem, O que tem pouco a dar e muito a pedir torna-se vil, Alguém abandonado num asilo está prestes a ir para o céu, Naves não tripuladas deixam o sistema solar por controle remoto, O demônio compra almas com prazeres extravagantes, Crianças num orfanato aguardam o ano todo pela chegada de papai Noel, A felicidade de uma família na noite de natal fica registrada numa foto, Cada fração do globo acolhe seus iguais apenas como temporários imigrantes, Amanhã alguém perderá seu teto por falta de trabalho e dinheiro, Uma explosão solar afetará todos os meios de comunicações, O sinistro recuo do mar anuncia uma iminente calamidade, Alguém precisa de cesta básica e enfrenta uma fila o dia inteiro, Astrofísicos já se preocupam com a vida fora da terra para as futuras gerações, João-de-barro é monógamo e morre logo após sua cara-metade, O colibri e a abelha repartem o mel que colhem da flor, A corrida armamentista é prioridade de toda nação, A paz interior é encontrada nas aguardentes e nos entorpecentes, Os hospitais e hotéis para animais são repletos de ternura e amor, Alguém morre a cada três segundos por falta de nutrição, O que se gasta numa guerra é demasiado para ajudar pessoas carentes, Alguém numa UTI de primeiro mundo terá seu sofrimento rapidamente aliviado, Encontraram água numa lua de Saturno e o entusiasmo aumenta, Um anjo caído volta a se levantar e pede para tirar féria, Jesus arrependeu-se de ter sofrido, morto e ressuscitado, A dor alheia passa pelos nossos olhos em câmara lenta, Dois terços de água, um de terra, um terço na opulência, dois na miséria.


PUIRT A BEUL



Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

A lua piscou para mim e até me jogou um beijo, E ainda gritou lá de cima pode chamar-me de queijo, Eu nunca a vi assim tão extrovertida e sorridente, Tão cheia de si mesma tentando ver-me contente, Fez graça com a mão sobre a testa protegendo-se da luminosidade, Perscrutando para cima e para os lados por algo de intensidade, Apontou para uma direção de onde vinha algo de imediato, E passou um bando de meteoros como foguetes de apito gaiato, Apontou para outra direção mostrando algo de aproximação imediata, E brilhou no ar outra turma de meteoros como uma chuva de prata, Cruzou os braços e olhou-me com ar de interrogação, Abriu-os novamente a desafiar-me onde estava meu coração, Será que você não vê?, Tudo isso é para você! Deixa de lado a inteligibilidade, Derreta-se em vocalidade, Você é poesia vocal, Você é música bucal, A palavra é oca, A melodia está na boca, E isto o sol vai perder, Porque será antes do amanhecer, Suas palavras Joyceanas foram ouvidas e estou anunciando, É nesta noite que a mágica no ar de sua vida está chegando.


ENCONTRO DE AMOR DEPOIS DA ANAFILAXIA


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)




Impessoais, Imortais, Depois da anafilaxia, Sem tudo que é pouco, Onde nada é impossível, Totalidades de extrassensorialidades, Lacunosidades de mortes, Inexistências de intempéries, Depois dos contra-tempos, Depois das vidas, Nenhuma água turbulenta, Nenhuma luz cegante, Poucas plebes, Vigílias leves, Realidades obscuras, Levitações, Evoluções, Voos em todas as direções, Vigílias pesadas, Adejos cadentes, Quedas livres até os limiares, Ainda vivem, Quer queiram, Quer não Queiram, Voejos pairados, Tem voos planados, Fins das diretrizes, Sem corpos, Tem nirvanas, Desaglomeração de gentes, Amores amando, Vacuidades de vivalmas, Depois da anafilaxia, Ilimitam os conscientes, Tem pousos, Maciezas, Projeções astrais incessantes, Nem entes, Nem pressas, Psiques clarividentes, Sem entidades oníricas, Sem entidades vígeis, Sem noites, Nem dias, Os todos primorosos, Só com flores e suas perfumarias, Depois da anafilaxia, Serenidades nos apocalipses, Onde nada é impossível, Tem anima, Animus,  Voos flutuantes, Caras metades se inteirando, Com Macha, Sem Nemain, Sapiências, Relativismos relativizando, Anti-matérias, Universos se expandindo, Sem heróis, Com Infinitos, Velocidades acima da luz, Universos se chocando, Almas gêmeas se encontrando, Tem ideias ampliadas, Onde o conhecimento é absoluto, Livres para amar, Amar, Tem indubitabilidades, Interligações, A mulher, O homem, Sem nada que seja pouco, Massa negra esticando, Encontro de amor depois da anafilaxia, Onde o espírito dispensa todo tipo de profilaxia, Sem Evas, Sem Deuses, Sem Adãos, Sem Dionísios, Sem frutos proibidos, Nem infernos, Nem paraísos,  Encontro de amor depois da anafilaxia, Onde o espírito dispensa todo tipo de profilaxia, Impessoais, Imortais, Depois da anafilaxia, Sem tudo que é pouco, Onde nada é impossível,  Tem indubitabilidades, Interligações, A mulher, O homem, Espaços sem horizontes, Massa negra que tudo vai levando, Impessoais, Imortais, Posteridades, Anafilaxias, Tudo-nadas, Tudo-tudos, Possibilidades, Totalidades, Extrassensorialidades, Mortes em vidas, Calmarias, Contra-tempos, Vidas em mortes, Águas bentas em estrelas refrescantes, Plebes nas realezas, Encontro de amor depois da anafilaxia, Onde o espírito dispensa todo tipo de profilaxia;


TRANSEUNTE CONVERTIDA EM HUMANA

 Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Quem é você que surge do nada, Me pede em casamento sem me conhecer, Numa noite de gatos pardos e mal iluminada, Mas linda de morrer, Pisca para mim em todas as cores como luzes natalinas, Tem pressa para fazer amor, Dança para mim melhor que todas bailarinas, Vai logo me propondo filhos sem o menor pudor, Quem é você que chega sem cantos, Ainda assim soa como sotaque estrangeiro, Escolhe-me no meio de tantos, Mais bonitos e com muito dinheiro, Encontra-me no recôndito de minha solidão, Advinha que moro de aluguel e estou solteiro, E enxerga-me no breu da escuridão, Quem é você que parece falar por telepatia, Antecipa meu pensamento, Contagia-me com inexplicável alegria, Me pára no tempo, Faz-me sentir algo nunca antes sentido, Diz saber cozinhar, lavar e passar, E que me divorciei com o coração partido, Quem é você com esta sustentável leveza, Este olhar apaixonado e desvairado, Reluzindo um fulgor compacto de estrela que contraria as leis da natureza, Alivia-me o peso da gravidade, Fala-me coisas estranhas sobre imortalidade, Sobrecarrega-me de felicidade, Diz que já não se importa com longevidade, Quem é você que parece conhecer-me há muito tempo, Não me diz de onde é e não tem nenhum parente, Aproxima-se de mim sem instigar o vento, Diz que sou para você como o paraíso para um crente, Tira do meu sono todos meus pesadelos, Abraça-me e beija-me de maneira singular, E arrepia-me das unhas dos pés às pontas dos cabelos, Se eu contar aos meus amigos ninguém irá acreditar, Será você predestinada ou pura sorte, Seu olhar meigo e estático às minhas indagações é irresistível, Sinto que isso acontece uma vez na vida, Outra na morte, Sua voz quente, Cheia, E de cabeça é incomparável, Você é fascinante e intrigante como deve ser um disco voador, Você é uma mulher mais que adorável, Parece uma criatura doutro mundo e está me fazendo um favor.

UMA NOVA IMAGEM PARA DEUS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.  LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)



Sou frágil, Medroso, Inábil, Rancoroso, Gosto de aparecer, Sou inseguro, Tenho medo de viver, Tenho medo do escuro, Tenho medo de morrer, Quero acreditar em Deus, Mas não sei onde ele fica, Quero acreditar em Zeus, Mas não sei onde ele habita, Preciso acreditar que você já esteve aqui em tempos imemoriais, Que ainda está conosco, Que tem sido nossos pais, E que Deus esteja convosco, E que não nos deixará jamais, Quero acreditar que você voltou, Que aqui veio pela primeira vez para ficar, Que você sempre me amou, E sempre soube onde me encontrar, Quero ver você no ar, Num fim de tarde de céu azul, Quero ver você se demorar, Seguindo indiferente e silencioso o vento que sopra do sul, Mesmo com muitos olhos para você ignorar, Porque você é poderoso, Inalcançável, Misterioso, Inexpugnável, Não tem medo de viajar, Dança na escuridão, Deixa rastro de luz curvar, Procura as estrelas na imensidão, Lança-se a elas como rojão saindo do fundo do mar, Quero ver você chegar numa noite de luar, Iluminar as ranhuras das folhas à distância, Fazer o tempo passar, Deixar-me com um pouco de ânsia, Passar semanas de bem-estar, Sem nenhum medo de partir, Em brancas nuvens para caminhar, Com vontade de existir, Com vontade de amarAinda peço para Deus me guardar, Mas sei que você está por perto, Sempre me ouve orar, Sempre me recebe de coração aberto, Você precisa ser real, Preciso acreditar, Posso ser leal, Mesmo sabendo que você nunca vai se revelar, Até o dia que eu chegar ao final.

PARÁGRAFOS 78 A 82 DO LIVRO VALE DA AMOREIRA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Estas legítimas metáforas remetiam Tilly para os limites do transtorno afetivo bipolar definido por médicos da mente, pois após aquele dia malfadado ele passou por transformações abruptas, ora sentindo-se o iluminador, senão o próprio salvador do mundo, ora sentindo-se o único ser humano esquecido por deus na face da terra. Mas seria incorreto comparar sua vida com uma simples gangorra. Tilly era muito mais complexo. Ele era uma sutil matização desses comportamentos extremos, não apenas num sentido figurado, mas também num sentido mais concreto, como a combinação de cores diversas num todo, alegoricamente adequada para se analisar a sua multiplicidade de modos de reações desmedidas.
Amarelo era a cor favorita de Tilly, bem condizente com sua fama de amedrontar-se diante de inimigos e ameaças invisíveis, mas nunca estampada no seu sorriso mesmo quando usava a falsidade como último recurso para declinar um convite que suscitasse perigo. Tilly era da cor e da temperatura do sol, um astro comum na série principal das estrelas, nem excessivamente quente, nem excessivamente morno. Mas quando Tilly conseguia imobilizar sua inibição, nem sempre sem a ajuda de uma birita, ele se expandia como as enormes línguas de fogo das explosões solares, monopolizava conversas e defendia seus pontos de vistas com intensidade, ardor e agudeza. Suas acaloradas discussões eram cegantes e nocivas, vitimando sua própria razão e os interlocutores que se expunham por tempo demasiado aos seus raios ultra violentos. Sem as rédeas curtas de sua fobia social e de seu acanhamento, Tilly podia se transformar numa fera indomável, como a matiz áurea que rechaça todo tipo de atenuação e transborda da tela onde o pintor tenta enclausurá-la com outras nuanças.
Com a mesma inflexibilidade da cor da gema que substituiu os besouros bretões pelas borboletas tropicais, Tilly abandonou estas últimas bisonhamente emolduradas nas paredes de sua casa e passou a perseguir óvnis, estes objetos não identificados chamados discos voadores. A escolha dessa nova presa deveu muito ao livro de Eric Von Daniken, Eram Os Deuses Astronautas, que abriu novos horizontes perdidos para Tilly, e do segundo livro desse autor, As Provas De Daniken, para o primeiro sobre os misteriosos óvnis, A Verdade Sobre Os Discos Voadores, de Donald E. Keyhoe, foi um salto rápido e previsível no abismo. Em menos de dois anos, Tilly já era bem versado sobre o assunto e ainda teve um contato imediato do terceiro grau com o Dr. Allan Hynek, um astrônomo considerado a autoridade mais respeitada da época nos meios da mais nova pseudociência e que trabalhou quase duas décadas num projeto secreto da força aérea da terra dos libertos chamado livro azul que tinha por objetivo investigar se alguém ou alguma coisa estava invadindo o espaço aéreo daquele país. O encontro com o criador das primeiras categorizações ufológicas e que foi convidado por Steven Spielberg como consultor no seu filme ET, ocorreu no Legislado Baixo, e no terceiro e último dia das palestras deste renomado ufólogo, Tilly conseguiu abordá-lo nos bastidores para lhe pedir um autógrafo e não perdeu a oportunidade para fazer a clássica pergunta de quem deseja acreditar em algo, mas que precisa de um ser superior para sancionar sua nova crença:
Sim, eles existem, mas eu estaria mentindo se eu lhe dissesse de onde vêm, pois ninguém sabe nem mesmo o que eles são, respondeu o Dr. Hynek.

A resposta não contribuiu muito para as expectativas messiânicas de Tilly, mas não impediu os seus esforços jesuíticos de catequização tal qual a primitiva igreja cristã que prometeu aos seus fiéis que a sua geração testemunharia o retorno de Jesus, mas como ele não apareceu, tratou de preparar suas comunidades para uma segunda vinda do cristo num tempo a perder de vista e a recomendar prudência e vigilância porque ninguém mais sabia o dia e a hora do temido dia da volta do filho do deus terráqueo. Ainda que esse deus assim como os alienígenas permanecessem em seus altivos pedestais e fora do alcance dos olhos de Tilly, esses óvnis pareciam estar dando sinais de aproximação a várias pessoas em todo o mundo e o que causava fascínio em Tilly era o fato de ainda não se saber, oficialmente, o que eles eram e isso o impelia a fazer prosélitos pelo simples prazer de impressionar as pessoas e não necessariamente para suprimir suas próprias incertezas mediante a propagação de suas ideias. Tilly sempre foi movido por desafios e novidades e os óvnis eram um modismo que o fez se sentir tão próximo de deus como nunca estivera antes. Ele passou a nutrir sentimentos de grandiosidade, desejoso de ser uma pessoa diferenciada e privilegiada, detentora de uma revelação a ser dividida com poucos e pregava como um João Batista preparando o caminho dos seres cinzas e endireitando suas veredas para o encontro final. Para manter o astral elevado, Tilly vivia cantando a música Calling Occupants Of Interplanatery Craft, dos Carpenters, reconhecida pelos novos cultistas como o hino oficial do dia mundial do primeiro contato entre os símios do planeta terra que andam sobre duas patas e os ultra-emissários interplanetários. Mas Tilly não se contentava em confinar seu ímpeto precursor numa área tão distante e isolada como a ribeira do Jordão e ampliou suas audiências perigosa e pateticamente para todas as esferas sociais. No primeiro dia de seu novo emprego, ele ocupou os noventa minutos do horário do almoço fazendo uma síntese do fenômeno ufológico e deixou seus novos colegas indagando como ele teria conseguido passar no exame psicotécnico. No velório de sua avó ele conseguiu roubar a atenção de uma rodinha de contadores de piadas por quase duas horas.