domingo, 27 de novembro de 2016

SOMOS TODOS BOLIVIANOS


 Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Em meados de 1982 arrumei um emprego na empresa São Paulo Alpargatas S/A (SPASA). Foi logo após a ressaca brasileira por ter sido eliminada pela Itália de Rossi na Copa do Mundo na Espanha.  A SPASA era uma grande empresa, com muitas fábricas e, se não estou enganado, tinha quase 20 mil empregados. Era também um grande cabide de empregos, bem maior que a  Santista, mas perdia de longe para a Cotia Trading (leia meu texto chamado NATASHA http://alceunatali.blogspot.com.br/2016/03/natasha.html). Tenho quatro boas histórias sobre a SPASA. Eu deveria começar pela minha primeiríssima experiência na SPASA pouco mais de um mês após ter assumido o cargo de assistente de exportação, uma história a qual dei o título de SOCRATES NA TERRA DO BEIJA-FLOR, mas esta fica para depois. As outras duas chamam-se JACQUELINE e QUE NOME VOCÊ DÁ A ISTO? A SPASA tinha um departamento de exportação (DE) que era um verdadeiro luxo, com mais de 30 funcionários, incluindo as áreas de vendas e logística. O DE da SPASA tinha um Gerente Geral, um carioca malandro e porra loca que só enganava e coçava o saco o dia inteiro, com secretária, meio maluquinha que hoje escreve sobre telecomunicações com os mortos, e um assessor, um inglês recalcado, radicado e malcriado na Argentina e que tinha merda na cabeça, Gerentes de Divisões por produto, a maioria só com vocação para bajuladores: Brim (ou Índigo), Jeans, Calçados, Artigos Esportivos e o Resto. Fui contratado como assistente desta divisão, o RESTO, que não tinha nome, porque ela era responsável por produtos que dificilmente podiam ser vendidos fora do Brasil: as famosas colchas de chenile e matelassê com a marca MADRIGAL, e as famosas lonas e encerados com a marca LOCOMOTIVA. Antes de minha chegada à SPASA vendiam-se muitos encerados à Venezuela, graças a um acordo tarifário que o Brasil tinha com aquele país. Vendiam-se muitas colchas de chenile crua ao Chile para serem lá tingidas e revendidas à Argentina, graças a um acordo tarifário que o Chile mantinha com o país dos italianos, que pensam que são ingleses e falam espanhol Os acordos acabaram, e as exportações de colchas e encerados desabaram. Ninguém, ninguém mesmo queria se encarregar destes produtos. Todo o pessoal do panelão, dos gerentes para cima, se interessava somente por coisas fáceis, produtos vendidos com margem de lucro zero e até com prejuízo, especialmente para os EUA e a Europa Ocidental para onde eles podiam viajar e gozar de mordomias e regalias sem precisar fazer nenhum esforço de venda.  O Brasil não precisava exportar porque o mercado interno, protegido contra importações, era fechado e absorvia toda a produção doméstica, e esta era apenas uma das razões que levou o nosso país a ter uma inflação vergonhosa, utópica, mas real, de 30% ao mês em 1989. Na ditadura militar a corrupção corria solta, mas perdia de longe para a corrupção de hoje (governo federal, senado, câmara federal, STJ e praticamente todo mundo que entra para a política neste país). Sob o pretexto de promover o desenvolvimento, os militares se endividavam com dinheiro emprestado do FMI (e as propinas sobre empréstimos eram de 10% para cima – perguntem ao Delfim Neto). Para compensar o déficit interno e externo, os milicos criaram uma série de falcatruas para incentivar as exportações, todas contrárias às regras do GATT (General Agreement on Tariffs and Trade – Acordo Geral Tarifário e Comercial, com sede na Suíça). Quem exportava tinha direito às seguintes picaretagens: isenção de ICMS, IPI e outros impostos, prêmios (descontos) de IPI e ICM que variavam de 10 a 30% sobre vendas no mercado interno, financiamentos à exportação a juros subsidiados, um sistema chamado Draw Back: para cada 3 dólares que uma empresa trazia para o Brasil por meio de exportação ela tinha direito a 1 dólar de importação. Se uma empresa conseguisse exportar 3 milhões de dólares em dez anos ela tinha direito a importar 1 milhão de dólares sem pagar impostos. As empresas não precisam esperar dez anos para ter acesso às importações que, normalmente, eram feitas no primeiro ano de vigência do programa. Muito bem, se o mercado interno absorvia toda a produção da SPASA por que ela se interessava em ter um DE? Resposta: Apenas para ter acesso a juros subsidiados e importações de máquinas e corantes no valor de US$ 200 milhões, sem pagar imposto, mesmo que para isso precisasse exportar US$ 600 milhões, sem lucro e até com prejuízo. Valia a pena. O que se exportava era menos que 5% das vendas no mercado interno. Naquela época os juros de mercado eram bem mais altos que os de hoje.  Indústrias automobilísticas lucravam mais aplicando dinheiro no mercado financeiro do que produzindo e vendendo carros. Portanto o DE da SPASA e de outras empresas era apenas um departamento de luxo, um verdadeiro recanto de extravagâncias e putaria, igualzinha àquela que se pode ver no filme The Wolf of Wall Street, e sobre esta putaria falarei mais no texto QUE NOME VOCÊ DÁ A ISTO? Eu precisava trabalhar dentro deste puteiro. Tinha apenas 30 anos, 3 crianças para sustentar, e ganhava menos que US$ 500, e eu tinha que falar inglês e espanhol fluentemente e usar terno e gravata. Meu chefe nada entendia dos produtos que tínhamos que vender na divisão do RESTO. Ele tinha sido mandado embora da Volkswagen e conseguiu entrar na SPASA via cabide de empregos, apenas porque ele tinha a mesma descendência estrangeira do chefão bon vivant. Tive que carregar o RESTO nas costas e consegui recuperá-lo. Mas a turma da panela tinha medo de mim. Porque eu trabalhava de verdade e eles tinham receio de que eu fizesse o que eles eram pagos para fazer e não faziam. Por isso não permitiam que eu viajasse para países do primeiro mundo onde eu poderia vender muito mais. Para o primeiro mundo só poderia viajar a turma do panelão, não para fazer vendas, mas apenas para passear e esbanjar: ficar em hotel de 5 estrelas, comer do bom e melhor e fazer turismo. Havia um boliviano que vinha todos os meses à SPASA para comprar o famoso e popular tênis Kichute da divisão de Calçados e revende-los no varejo. Ele fazia muitos negócios na SPASA, mas só era recebido por subalternos. Nenhum gerente brasileiro subdesenvolvido aceitava se encontrar com um cliente boliviano subdesenvolvido. O boliviano mal terminara o curso primário e durante boa parte da vida adulta trabalhou como peão da indústria petrolífera americana, sempre pegando na massa, se sujando de petróleo o dia inteiro. Não sei como ele fez a transição de mero trabalhador braçal para um próspero distribuidor de produtos brasileiros na Bolívia. Ele comprava bastante mesmo. Tive a oportunidade de conhecê-lo e logo ele se interessou pelos meus encerados, e mais tarde também pelas minhas colchas de chenile. Os encerados tinham uma particularidade: eram produzidos somente nas cores verde e cáqui. Se alguém perguntasse por que cáqui a resposta era simples: a lona cáqui é para caminhões que só viajam por estradas de terra, barrentas e empoeiradas. Portanto a cor cáqui camuflava toda a poeira que se acumulava no encerado. E a verde? Era para caminhões que trafegavam somente em estradas asfaltadas. Por que verde e não azul? Ninguém sabia responder. Este boliviano começou a comprar encerados e colchas demais para um país tão pobre como a Bolívia. Resolvi fazer-lhe uma visita para conhecer melhor seu negócio. Obviamente minha chefia me dava permissão imediata para ir à Bolívia. Ninguém do panelão se arriscaria a ir a um país do terceiro mundo. O boliviano me recebeu no aeroporto com sua Pajero da Mitsubishi, uma carro que eu só veria no Brasil no século 21. Aquela era van era super incrementada, de primeiro mundo. Imaginei que ele tivesse pago muito caro por ela, mas ele disse que foi baratinho, menos que o preço de um fusquinha. Mas como? De onde ele comprou um baita de um carro por um uma pechincha. Ele explicou que na Bolívia você podia escolher o que quisesse: o modelo de carro, ano de fabricação, cor, etc, e entregava o pedido ao pessoal especializado na subtração de veículos alheios na  Venezuela, um país que naquela época já importava carros de várias partes do mundo. Para regularizar a situação do veículo bastava dar uma gorjeta a um inspetor do DETRAN boliviano. Então, lá estava eu, andando num belo carro surrupiado pela primeira vez em minha vida. Os encerados e as colchas de chenile eram entregues em Corumbá, fronteira do Brasil com a Bolívia. Em Corumbá, o boliviano colocava a carga num trem e seguia para Santa Cruz de La Sierra onde tinha um depósito a partir do qual distribuía a mercadoria por toda a Bolívia. A caminho do aeroporto para o hotel, perguntei que tipo de seguro ele fazia para levar a mercadoria de Corumbá para Santa Cruz. Tranquilamente, ele respondeu que contratava seis pistoleiros: dois iam à frente do vagão, um de cada lado, dois na parte traseira, também um de cada lado, e dois dentro do vagão. Quando o trem parava numa estação, os dois pistoleiros saíam de dentro do vagão e os seis mantinham suas metralhadoras apontadas para quem ousasse tentar assaltar o vagão. Fui conhecer seu depósito. Imenso, com uma grande quantidade de produtos estocados. Ainda não entendia como ele conseguia vender tanta coisa para um país tão pobre. Ele esclareceu que vendia também para os países vizinhos, principalmente para o Peru. Mas era quase impossível exportar para o Peru devido aos altos impostos de importação que lá eram cobrados. Ele me assegurou que isso não era empecilho. Ele e seus empregados iam ao Lago Titicaca do lado boliviano à noite, enchiam um barco de mercadoria, atravessam o lago e, em pouco tempo, já estavam no Peru, onde os compradores esperavam pelos produtos sem pagar nenhum imposto. À noite ele me levou para jantar. Eu queria matar uma curiosidade que me incomodava fazia tempo. Era sabido que 95% das estradas bolivianas eram de terra, mas ele comprava somente encerados verdes. Perguntei por quê. Ele me respondeu que os traficantes só compravam encerados verdes. Para quê? Para secar folhas de coca na mata. Helicópteros americanos do FBI sempre sobrevoavam as áreas de cultivo da coca. A lona verde se misturava à vegetação e dificultava a identificação das folhas que seriam transformadas no caríssimo pó branco. Ele olhou para mim e me perguntou se eu estava gostando da Bolívia. E eu respondi: Estou adorando, me sinto um boliviano.