quinta-feira, 9 de novembro de 2017

TENTAMES


O rasgo da mentalidade caracteristicamente helênica é o tentame de unificar as multiplicidades sentidas, de dissipar ilogismos, de buscar a harmonia e a organização inteligível. (Antônio Sergio, Ensaios, VI, pp. 53-54)

TENTAMES é uma coletânea de pequenos ensaios, sem nenhuma pretensão acadêmica ou científica. São breves textos literários, poéticos e didáticos, expondo ideias, críticas e reflexões éticas e filosóficas a respeito de vários temas (humanístico, filosófico, político, social, cultural, moral, comportamental, literário, religioso, mitológico, etc), do meu ponto de vista pessoal e subjetivo.

domingo, 5 de novembro de 2017

ARLETE

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.  LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Nascemos quase no mesmo lugar, Dispondo-nos a andar, Apressando o passo, Atravessando os caminhos de pequenas distâncias que a amizade aproxima, Nascemos quase na mesma época, Deixando o tempo passar, Este majestoso senhor da eternidade e do infinito, Venerado e rogado, Por todo impetuoso espírito, Que o verdadeiro amor engrandece, Quase recebi seu sorriso adolescente, Quase recebi seu beijo juvenil, Ainda mesmo de namorados de menor intimidade, Fiquei com seu abraço de ternura, Com esta ressonância, Que chamam de saudade, Como uma canção alegre e sentida, Que, Embalando nossa separação, Nos seguirá por toda nossa vida, Em nossos dias, Cada um reza sua reza, Você dança sua dança, Eu canto meu canto, Mas sempre entoamos as mesmas morosas cantilenas, Em vozes baixas e em tons brandos, Como mães que balançam os berços para acalentar o repouso de seus filhos, Baile uma última vez para nós, Como inquieto vaga-lume, Pelos seus campos de flores que se estendem até as margens do rio, Sobre suas barras remansadas, De sentimentos trazidos pelas águas, E guardados nos estuários de nossas lembranças, Como tremeluz um solitário pirilampo, Que, Voluntarioso como Fernão Capelo Gaivota, Deixa a vida mundana, Sobe ao céu noturno, E lá reluz no manto estelar como uma nova fagulha de diamante.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

PREFÁCIO DO LIVRO O QUE FAZER QUANDO O SOL ESTÁ FRIO DEMAIS

 Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Este livro me consumiu quase 30 anos de pesquisa, incluindo a leitura de dezenas de livros acadêmicos. Trata-se de um romance sobre um mito que um terço da população mundial acredita ser real. O título, O que Fazer Quando O Sol está Frio Demais, tem a mesma complexidade semântica de O Nome Da Rosa, um filme baseado na magnífica obra homônima de Humberto Eco, mas isso não é relevante para o enredo. Em comum com O Nome Da Rosa, meu livro oferece uma minuciosa e precisa descrição dos cenários e das ocupações dos habitantes destes cenários, o interior de um mosteiro beneditino no caso do livro de Umberto, e uma rica e poderosa cidade da antiguidade no caso de meu livro. Eu andei exagerando quando disse que este romance contém verdades que causam um sofrimento muito maior que o medo da morte. Ocorre que um processo de desmistificação pode, mas não deveria, vegetalizar a vida de uma pessoa, como tirar as muletas de um aleijado, ou pior, tirar a cadeira de uma cadeirante. Lembrando uma conhecida frase de um evangelho cristão, as verdades que revelo em meu livro são libertadoras. Não conheço outra forma de libertação a não ser através do conhecimento. Leiam meu texto http://alceunatali.blogspot.com.br/2016/03/historicidade-em-filmes-o-nome-do-poder.html e multipliquem os conhecimentos lá descritos por um milhão de vezes. Assistam a filmes tais como A Origem, O Jogo Da Imitação, O Vídeo De Jesus (alemão), Roma (série da HBO), Looper, No Limite Do Amanhã, Vanilla Sky, Os Doze Macacos, Magnólia, etc, e vocês terão uma ideia do que esperar de meu livro.

sábado, 28 de outubro de 2017

PREFÁCIO DO LIVRO A ARTE DA SOBREVIVÊNCIA É UMA HISTÓRIA SEM FIM

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)h Nietzsche)  

Este é um romance baseado numa história real. Nomes de pessoas, suas profissões e locações foram substituídos por nomes fictícios para preservar a privacidade dos personagens e evitar constrangimentos. Como todos os meus livros que estou publicando de graça nas redes sociais, este também será publicado em partes, e também tem uma página exclusiva no Facebook.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

A MARIA QUE NÃO VAI COM AS OUTRAS

 Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Este livro é uma coletânea de crônicas nada convencionais. São desprovidas das muitas mesmices que lemos em nossos jornais e revistas quase todos os dias. Não são enxertadas com tantas prolixidades e excessivas eloquências destituídas de ideias. Talvez elas não sejam bem escritas. Porém, só escrever bem não basta. É preciso ter ideias, boas ideias. E há quem goste delas. A inteligência, por exemplo. Como escreveu Susan Sontag, a inteligência é na verdade um tipo de gosto: gosto por ideias. As boas crônicas não podem se limitar a tratar de acontecimentos corriqueiros do cotidiano e serem chamadas de um gênero literário menor por serem curtas, de vidas curtas, conectadas somente ao contexto em que são produzidas, e que, por isso, perdem sua validade com o passar do tempo, e ficam foram de contexto. O cronista incomum consegue abstrair o cotidiano e exprimi-lo numa linguagem insólita. Aqui é possível enquadrar o que chamam de crônica ficcionista que não é, necessariamente, baseada somente em fatos irreais. Isto pode ser também chamado de transcendência: aquilo que os grandes cronistas descrevem como  pegar o miúdo e mostrar nele uma grandeza, uma beleza ou uma singularidade insuspeitadas. Mas eles estão equivocados quando dizem que as crônicas não têm pretensões a durar, uma vez que é filha do jornal e da era da máquina, onde tudo acaba tão depressa, que elas não foram feitas originalmente para o livro, mas para essa publicação efêmera que se compra num dia e no dia seguinte é usada para embrulhar um par de sapatos ou forrar o chão da cozinha. A crônica inteligente é como uma música que você gosta. Você a ouve sempre, pelo resto de sua vida.


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

PRÓLOGO DO LIVRO TERRA DOS LOTÓFAGOS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.  LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

O vento e meu timoneiro mantinham-nos na rota certa e eu teria chegado à minha terra natal são e salvo, mas o vento do norte, as correntes marinhas e as ondas desviaram-me do curso, no momento em que eu estava tornando a dobrar a Malea, levando-me para além da Cythera. Nove dias de ventos violentos afastaram-me dali, e no décimo dia aportamos na terra onde vivem os comedores de Lótus que se alimentam do fruto que brota desta flor. Descemos em terra firme e apanhamos água para abastecer os navios. Meus companheiros fizeram uma rápida refeição junto aos nossos barcos de águas rasas. Depois de comer e beber enviei alguns de meus companheiros para instruírem-se sobre os homens que comem o alimento que cresce nesta terra. Eu escolhi dois de meus homens e com eles enviei um terceiro como mensageiro. Eles partiram em seguida e encontraram-se com os comedores de Lótus e estes não demonstraram nenhuma hostilidade, mas, ao contrário, deram-lhes para comer a planta do Lótus, cujo fruto, doce como o mel, fez com que todo o homem que provou dele perdesse o desejo de voltar para casa e de vir contar-nos o que lhe sucedeu. Eles queriam lá ficar, permanecer com os comedores de Lótus, alimentando-se daquela planta, ávidos por esquecer a viagem de volta para casa. Eu os forcei a voltarem aos navios e, com olhos cheios de lágrimas, eles foram arrastados para baixo dos bancos de remos e lá eu os amarrei. Depois, ordenei aos meus outros homens de confiança para que embarcassem e começassem a remar rápido, caso algum outro homem viesse a comer um Lótus e abandonasse a ideia de fazer a jornada de volta. Eles apressaram-se para os navios, tomaram seus lugares de maneira ordenada em suas fileiras e golpearam o mar cinzento com as pás de seus remos. Porém, o vento do norte, as correntes marinhas e as ondas que nos trouxeram para esta terra continuavam conspirando contra nós, detendo nosso avanço, por isso pedi aos meus remadores para imprimirem mais velocidade, pois a terra dos comedores de Lótus ainda estava muito próxima de nossos navios e a maré poderia levar-nos de volta para lá. Um de meus companheiros, ao dar mais potência aos seus braços, deixou cair uma flor de Lótus que ele escondia. Imediatamente, repreendi-o e amarrei-o junto aos outros três debaixo dos bancos de remos. Apanhei a flor de Lótus trazida a bordo sem que eu soubesse e, antes de jogá-la ao mar, aproximei meu nariz dela só para experimentar seu aroma, e assim que o fiz, senti uma enorme vontade de prová-la, mas resisti à tentação e apenas toquei-lhe com a ponta da língua para sentir seu gosto, mas isto bastou para que eu a devorasse rapidamente e desejasse voltar para a terra dos comedores de Lótus que ainda não se encontrava distante. Então, atirei-me ao mar e com ligeiras braçadas logo cheguei à praia e fui encontrar-me com os comedores de Lótus que me deram uma ótima acolhida, ofereceram-me Lótus até me fartar e perder a vontade de voltar para casa. Eu não saberia mais viver noutro lugar a não ser neste. Aqui esquecerei do meu passado e começarei uma nova vida. Este lugar é letárgico e me dá muito sono. Mas é disso que mais preciso: sono para  sonhar.

sábado, 14 de outubro de 2017

PREFÁCIO DO LIVRO UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.  LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


PREFÁCIO

UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA é uma coleção de centenas de textos, abrangendo todos os gêneros literários, desde uma simples poesia até um artigo acadêmico, e somam cerca de mil publicações.

O primeiro título selecionado para este livro foi COELHO ENFORCADO, uma imagem recorrente em meus sonhos quando eu sofria de terror noturno na infância. Eu tinha escolhido esta imagem para o nome deste livro depois de ter lido HORSE´S NECK (PESCOÇO DE CAVALO), de Pete Townshend, líder e mentor da lendária banda de rock britânico chamada THE WHO. Esta escolha deveu-se não apenas ao fato de Pete Townshend ter sido um de meus ídolos desde a adolescência até os dias de hoje, mas também porque seu livro, traduzido no Brasil com o título TREZE, tem algumas perspectivas em comum com minhas ideias que não se limitam a contos: o nome de um animal no título, o formato (antologia de prosa e verso), espiritualidade, infância, ficção, sonhos e casos mal resolvidos, Pete com cavalos, e eu com o inconsciente coletivo.

No prefácio de seu livro Pete diz: Esta coleção de prosa e verso foi escrita entre 1979 e 1984. Eu nunca desejei simplesmente contar minha própria história, mas tentei cobrir uma ampla gama de sentimentos. Assim, a coleção abre com uma história de infância lembrada de forma obscura e fecha com um vívido vislumbre do futuro bem próximo. Minha mãe aparece neste livro, mas sua personalidade muda constantemente porque esta ‘mãe’ são muitas mães, muitos professores. Cada história lida com um aspecto da minha luta para descobrir o que realmente é a beleza.

Eu não sou talentoso e famoso como Pete e também não tenho nada de importante na minha vida para contar. Sou uma daquelas dez pessoas medíocres que, segundo Carl Jung, não valem uma pessoa de valor porque, de acordo com este famoso psiquiatra, a natureza é aristocrática. Apesar das limitações impostas pelo meu ordinarismo, descobri que a natureza é democrática e trata de igual para igual os bem-nascidos e os malnascidos, e é por isso que um plebeu tem tanto para criar e revelar quanto um nobre. Tentarei comprovar isso (e outros fatos curiosos e extraordinários da vida) num romance que escrevi, chamado VALE DA AMOREIRA, e que será publicado neste livro em partes (parágrafos).

Eu sempre quis ser escritor, mas optei por outra profissão. Agora, tardiamente, resolvi tentar escrever para valer e publicar o que antes escrevia como hobby e como terapia para combater minha depressão que me persegue desde o meu nascimento e continuará me afligindo até minha morte. Este livro é um mero treinamento, ainda pobre de ideias e de verve literária, porque não sei escrever, mas quero aprender. Nele o leitor encontrará contos enfadonhos, todos mal escritos, mas também se surpreenderá com outros mediocremente intrigantes.

Enquanto ainda pensava em escrever um livro só de contos, eu iria dar a ele o nome de MEU PESCOÇO DE CAVALO, mas mudei de ideia e decidi, então, dar-lhe o nome de TERRA DOS LOTÓFAGOS, limitando-o à antologia de contos, depois de ter ouvido um álbum tributo ao DEAD CAN DANCE chamado LOTUS EATERS e que contém uma versão da música BYLAR por ATARAXIA e que inspirou o conto ALÉM DO PORTÃO que será publicado neste livro. No entanto, como uma pessoa volúvel e insegura que sempre fui, reconsiderei e, finalmente, optei por um um livro mais amplo e colocar ao lado dos contos diversos textos tais como crônica, prosa, verso, poesia narrativa, ficção histórica e científica, diálogos no estilo de peças teatrais, minhas viagens pelo exterior, lembranças de minha infância e adolescência e outros gêneros literários. 

A ampliação de TERRA DOS LOTÓFAGOS deveu-se ao fato de todos os meus escritos lidarem com aspectos da minha luta para descobrir o significado de muitos concretismos e abstrações, e não apenas de uma delas, como a beleza de Pete, e, ao mesmo tempo, reunirem uma quantidade de quinquilharias muito maior que os poucos, mas excelentes textos encontrados no livro de Pete. Assim, resolvi dar-lhe um nome mais condizente com a diversidade e quantidade de textos, UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA, mais longo, muito mais longo que o pescoço de um cavalo. Antes de chegar a este título mais adequado para um livro de temas tão variados, considerei nomes como DIÁRIO DE DEIRDRE ULTRAMARI e FRAGMENTOS DE DIÁRIOS PERDIDOS.


Quando li o artigo O escritor está nu, de Pilar Fazito, publicado no diário site Digestivo Cultural em 2010, nele encontrei as palavras exatas para explicar a maneira como sempre tive vontade de escrever: completamente desnudado como amantes durante o ato sexual. Sem pudor. Sem nenhum receio de dizer o que sinto. Sem dar a mínima para o que os outros pensam de mim. Parafraseando Pilar Fazito, procurei escrever fazendo sexo com entrega total, não apenas despreocupado com os poucos fiapos de pelo que jazem sozinhos na vastidão de um peitoral pouco malhado como ela diz, mas escancarando o torso de macaco gordo e tetudo que fui enquanto escrevia este livro. Macaco politica, social e moralmente incorreto que põe por escrito o que pensa, tudo que a maioria dos humanos pensa, mas tem medo de dizer.


Ler UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA é como percorrer a antiga rota da seda que, na verdade, era uma série de rotas interligadas através da Ásia do Sul, usadas no comércio da seda entre o Oriente e a Europa, só que começando pelo fim, em Istambul, visitando seus bazares, como o Bazar das Especiarias, o Grande Bazar, O Bazar Egípcio, onde se encontra de tudo: frutas, tapetes, ervas medicinais, jóias, louças, condimentos, roupas, comidas exóticas e uma lista interminável de bugigangas, cada uma delas disponível em todos os tipos imagináveis, e com muitas cores, como a palheta de um desenhista profissional que contém mais de 500 tons de cores. Entrar no BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA é como percorrer uma série de rotas que ligam o cérebro à alma e conhecer muitos dos ingredientes que lhes dão vida. Todos os contos da TERRA DOS LOTÓFAGOS foram incorporados a este livro. 


As ideias de todos os textos vêm do intelecto e este, por sua vez, é impulsionado pela alma alimentada por música e pela intuição materializada por uma ilustração. Músicas e ilustrações não estão em cada texto por acaso. A música é a alma do intelecto e a ilustração seus olhos.


UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA será publicado somente no meu blog (com links no Facebook e no Google +), em partes (textos) individuais no meu grupo no facebook chamado Textos de Alceu Natali https://www.facebook.com/groups/316295385178582/´, 
pelo menos uma vez por semana.


O prólogo continua sendo o mesmo que havia sido escolhido para a TERRA DOS LOTÓFAGOS.


Dedico UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA ao saudoso Armando Natali, meu pai e o melhor e único amigo que tive em minha vida, à Cecília Silveira Macedo, minha esposa e fiel companheira de árduas batalhas, à Ana Carolina Macedo Natali, minha filha quem espero ver crescer, formar-se, ter uma profissão, uma carreira e independência ideológica, e à humilde família de minha esposa que mora em Belo Horizonte e que vem me ajudando muito e incondicionalmente durante os últimos cinco anos que têm sido os piores da minha vida. Meus sinceros agradecimentos a Altair, Cri
stina, Deirdre, Douglas, Maria José, Maria Lúcia, Marinho, Mark, Renato e Scott.


Alceu Natali
São Paulo, 21 de Agosto de 2014

ADENDO AO PREFÁCIO
Tendo em vista o demasiado número de páginas que o livro UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFAS terá, alguns gêneros literários serão publicados em livros separados:

contos: TERRA DOS LOTÓFAGOS;
crônicas: MARIA JÁ NÃO VAI MAIS COM AS OUTRAS
outros: serão informados em breve

Alceu Natali
23 de Outubro, 2017



REACHING OUT

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

O que falta nestas noites de silêncio sepulcral, De janelas largadas abertas, Penetradas pelo luar a pratear meu aposento, Trazendo uma brisa, Por mãos incorpóreas, A acariciar meu rosto, Com ar cansado, Fazendo de meu leito vazio uma igreja fria e triste, O que falta nesta imensidão de estrelas brilhantes, Uma vésper que faz de mim um pastor errante, Uma que é tudo que neste céu caído por descuido, Resta do seu esplendor corporal, Que chego por ver-te em meus braços, De seu cheiro de santidade, Que chego por sentir-te em seus abraços, E ante tuas lembranças me detenho, Ouço um rumor de lendas pelo ar, Fino e puro, Entrando n´alma, Nela seu amor correndo mundo, ao alcance de minha mão.   

sábado, 7 de outubro de 2017

O BRAÇO DE ORION

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Moro e trabalho num lugar espúrio, Na espora que me açoita a alma, Não faço parte de nenhum partido político, Nem de sociedade de amigos de bairro, Me dizem que a coisa por aqui está preta, Para anular o voto, Vestido assim de niilismo, Posso parecer um poema fechado, Num envelope de greve branca, Meu padrinho de velho fraque, Na minha diplomação, Foi parar na prisão, Quando eu era criança, Meu coração vivia na Atlântida, Na hora do recreio, Merendava meu pão doce com doce, Aceitava pouco dinheiro, Quando muito, Pequenas oferendas, Que cercavam o altar, Onde tinha medo de rezar, Medo de confessar, Com tantas coisas para roubar, Que meus maiores prometiam proteger, Minha vizinha precisou de minha camisa, Para me fazer uma simpatia, Para voltar à vida, Meu vizinho me deu um bilhete azul, Para iludir minha desgraça, Enquanto caçava e colecionava borboletas, Recebia apoio até para a presidência, Quando quis acreditar no espiritual, Cai na real, Quando decidi deixar de ser honesto, Me dei mal, Mas fui um dos que escaparam à morte em navios escravistas, E vim definhar nos caminhos deste país, Atacados de tantas moléstias de mau caráter, O braço tênue que me mantém fragilmente equilibrado, Como espada de Dâmocles, Me deixa balançar na corda bamba de uma utopia sem princípio nem fim, Me promiscui numa orgia romana, Sem poder para mandar, Tendo que compartilhar minha mulher com todos que queiram com ela comungar, Muito longe de qualquer ideal que eu possa alcançar, Ainda escrevo e faço telepatia, Esperando que meu espírito chegue ao estado numinoso e metafísico, Que eu seja ouvido por alguém que esteja além do que é físico nesta terra. 

sábado, 30 de setembro de 2017

ET JEANNE, LA BONNE LORRAINE QU'ANLAIS BRÛLÈRENT Á ROUEN, OÙ SONT-ILS, OÙ, VIERGE SOUVRAINE? MAIS OÙ SONT LES NEIGES D´ANTAN?



Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Há um amor, De Domremy, A mim não pertence, Nem a Neufchâteau, Amor de moça sem rosto, Que não se abriga em telha-vã, Não se agacha no seu mantéu ao calor de lareiras, Levanta-se, Resoluta, Contra o rechaço de Vancouleurs, Quando há pouco bailava ainda menina na relva pintada pelo artista, E não se deixa enganar por Chinon e seus desafios que pensava que ela não percebia, Mas que ela começava a adivinhar na sua intuição sutil de mulher já casada com sua pátria,Lhe é testemunhada a maior veneração, Aos olhos arrebatados sempre a mirar do alto de uma colina, Entregue aos humildes pensamentos que lhe compensam, Por instantes, Dos sofrimentos impostos pela incerteza de Poiteirs e seus mil interrogatórios, Não pelo mero prazer de duvidar, Mas por ambicionar convicções políticas, Nem sempre voltadas para o filho de deus menino em oração, Que essa donzela leva consigo de Tours a Blois, E tão cedo esse pequenino mundo do universo a convocou, Para que os cuidados da ciência dos homens e a intuição feminina de seus cuidados triunfassem em Orleans, Repartissem sua ternura com sua força, Impassível à seta que lhe atravessa a parte que ergue sua cabeça austera,Para os sois de verão realizarem as glórias prometidas em seu coração, Num mundo ainda de criança que ordenhava ovelhas, As viseiras de elmo feito diamante, Alevantando um pouco, Mais seguro, Para amortecer, Se pôs diante, Da forte e dura pedra de Jargeau lançada à sua face indefesa no chão, Enquanto seu olhar ainda voltava-se à contemplação de águas sossegadas, E admirando teu vulto sagrado, Meung-Sur-Loire e Beaugency compreenderam teu dever, Enquanto aquelas águas davam à paisagem um encanto de conto de fadas, Para que ela cumprisse em Rheims o que as vozes da espiritualidade a inspiravam, Fazendo ciranda em volta das árvores, Sorrindo nos folguedos das estações, De amor e destemor, Nos outonos e primaveras de guerra e paz, Na agitação de gente que ainda por aqui passa e deixa sinais, Como os que essa jovem sem rosto atrai, E quanta coisa ela tem que deixar para trás? E quanto amor ela guarda para a glória de seus ancestrais? E quanto mais para a indiferença dos que um dia não a desejarão mais? Hoje a menina-moça sem rosto traz amor, Que a Paris de futura luz resistiu-lhe com um dilúvio de sóis apagados, Um amor do qual só um é senhor, De espírito e corpo desarmados em Gien, Um senhor de tantas feições, Para as neves de inverno dificultarem sua devoção ignorada pelos seus próprios pares, Feições que resplandecem no breu sem fim, Ainda estremecem St. Pierre de Moustier, Vastidão que amedronta os olhos que aqui embaixo observam, As derradeiras e árduas batalhas pelas vidas em La Charitê-sur Loire e Lagny, Onde o filho de deus menino sempre amou, Foi traído, Como em Compiéngne, Onde a menina-moça perdeu a liberdade, Com as mesmas moedas que os judeus pagaram aos de sua raça e os franceses aos ingleses, Uma via cruxis que começa em Arras, E tão tarde para essa terra nos prometeram devolver este menino, Mas ele a acompanha em Beaulieu e Beaurevoir, Perpetuando nossa esperança de amor, Até seu fim em Roeun, Quando o amor ainda é de criança que pastoreia ovelhas meninas, Que se entregam ao frescor de águas espraiadas, Dão ao vinho um sabor de festa de bodas, Cantam para os homens dançando em quadrilhas, Se embalam à luz do sol e à leveza da neve, Em tempos de amizade sem rancor, De flores no alto e no chão, na trégua e na regeneração, De lembranças de pessoas que por aqui nunca mais passarão, Como esse filho de deus menino sem rosto de igual veneração, E que coisas mais ele reserva para o futuro? E quanta dissidência ele evita para a vergonha de seus descendentes? E quantas mais para os que se arrependem tardiamente? Ontem o menino sem rosto concedeu o perdão, Que a vida mundana lhe negou, A mesma vida que esta menina sem rosto sacrificou, Para que eu hoje pudesse falar de seu amor, Um amor que a mim não pertence, Mas que dele hoje falo para fazer companhia à nossa dor, E para te conhecer, Seus contemporâneos e pósteros teriam dado Versalhes, Paris e São Denis, As torres de Notre Dome, E o campanário de sua sua terra, E os estrangeiros, Taj Mahal, Roma e Santiago de Compostela, A Basílica de São Pedro, Os santuários de todo o mundo.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

VERBORRAGIA

 Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche) 



Mal conto obter, Um disco voador aparecer, Para relativizar meu tempo, Do por do sol que morre breve à claridade rósea que ilumina o alvorecer, Não vejo a hora, De ir embora, Navegar o rio imprestável com uma igaratá, E chegar ao vale para frutescer o pé de amora, Não quero mais ficar aqui, Levem-me para qualquer sambaqui,  Pre-historia-me na américa de Vespúcio, Até eu evolver para um índio cherokee,  Don´t wanna be a bluebeard, Don´t wanna be feared, I wish I was a rolling stone that gathers no moss, I wish I was a moptop going weird, Delfos vai me dar o oráculo, O messias vai cear no meu cenáculo, Lúcifer vai ser meu convidado, Deus disse que não vai ser um obstáculo, Vivo lutando, A vida ensaiando, Ficando sem mel nem cabaça, Gêmeo criança do meio coadjuvando, Bem posso apressar, Uma estrela definhar, Ela é um quasar que chega aos meus olhos, Mas não posso ouvir seu pulsar, Enxergo o tempo, A tempo de sentir o vento, A tempo de normalizar a aceleração e o afrouxamento da canção, Meu relento é de trampa e urina por falta de arejamento, Porque o mundo é redondo, Estou rodando, Ele me gira, E a pombagira vai me incorporando, I cannot win the toss, I cannot carry that heavy cross, Lay me out once more, Let me be my own boss, Porque o céu é azul, Vou de aloés e cardamomo com ar taful, Porque quero me revestir de alta dignidade, Minha suprema aspiração é o curul, Porque o vento sopra forte, Derramo lágrimas de toda sorte, Espero morrer antes de envelhecer, Espero morrer antes da morte, Porque minhas morte-cores são ordinariamente vivas, Me falta o negro como ébano, Me falta o limão, Me falta a ágata como ônix, Me falta o açafrão, Já tenho o branco do marfim, Me falta o carvão.    

domingo, 24 de setembro de 2017

REVELAÇÃO

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Há uma hora para tudo, De guerra e paz, E grandes são os benefícios de épocas sem lutas e violências, Faz décadas que não preciso de horas in itinere, Mesmo assim, Busquei uma paz podre, Multipliquei meu sossego profundo, Cansado de minhas mentiras deslavadas e de nove modas, De minha ojeriza a quem o alheio veste, E na praça o despe, De minha má vontade com o que me pertence, E se eu de mim esquecer, Que nenhuma lágrima caia no sepulcro em que eu jazer, E como tudo cansa, Minha monotonia acabou por exaurir-me também, E para não ficar somente no variar, E arraigar no mudar de vez, Minhas súplicas ao médico do corpo, Da mente, Da alma e da aura, Voltaram-se para aqueles que realmente precisam, tanto quanto eu, E minhas vibrações àqueles que não são daqui, Tornaram-se mais fervorosas, E eles me lembraram: Há uma hora para tudo, Par ler e escrever, É chegada sua hora de viver nas suas palavras, Nas suas promessas, Nos seus sonhos, Em tudo que vai no pensamento fértil de um artista, Em tudo que você recrimina e não faz parte de sua lista, Em toda coragem que lhe é infundida, E seu destemor em tudo que você arrisca, Venha perscrutar nossos mistérios, Sem inveja dos sábios, Sem menosprezar o mundo dos infinitamente pequenos, E nós não calaremos sua paz de amor feliz.


PARÁGRAFOS 86 A 94 DO LIVRO VALE DA AMOREIRA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

REPRISE DO TEXTO EM HOMENAGEM AO ESPÍRITO SANTO DA SANTÍSSIMA TRINDADE DO ROCK, THE WHO, QUE VEIO AO BRASIL DEPOIS DE 53 ANOS DE ESPERA.


Numa ocasião, o Mensageiro da Enganação convidou Tilly para ir a sua casa para ouvir música, bebericar e jogar conversa fora. Tilly achou que talvez esse fosse um bom momento para passar a limpo as lições preliminares e improvisadas sobre os discos voadores que não ficaram claras no primeiro encontro. Enquanto Tilly esperava uma deixa, o Mensageiro pôs um disco para rolar na vitrola com o volume baixo para não atrapalhar a conversa. Os ouvidos sensíveis e afinados de Tilly logo identificaram um som familiar e rejuvenescido que proporcionava uma sensação agradável e emocionante como ele nunca mais ouvira desde os tempos gloriosos do psicodelismo. Ele pediu para aumentar o volume e ficou todo arrepiado:
Quem são estes caras?
O Mensageiro respondeu que era o mais recente álbum do The Who, aquela banda que poderia ter sido a favorita de Tilly. Aquela que quando Tilly ouviu pela primeira vez o fez procurar seu amigo de adolescência e de panelinha e com quem formou uma dupla chamada The Two Flys.
Meu deus misericordioso e cheio de graça, apareceu um conjunto melhor que os Beatles.
O The Who havia passado pela vida de Tilly como um cometa que deixou um rastro de esplendor, mas nenhum voto de regresso, e Tilly não se deu conta da sua ausência no panteão dos grandes pop stars de tão ofuscado que ele estava pelo brilho do astro rei, os Beatles, por isso a falta de notícias sobre eles nos três anos seguintes passou desapercebida até o dia que ele ganhou de presente metade do seu mais recente e mais celebrado álbum e que ele aceitou com um ar de quem recebe uma caixa de lenços, pois naquela ocasião Tilly já havia deixado de ser um audiófilo para ser um borboleteiro.
Mas agora, sem saber, o Mensageiro havia devolvido a Tilly sua paixão pela música e a ela Tilly se entregou de corpo e alma para tirar todo o atraso e recuperar mais de uma década de descaso. Os Beatles haviam se separado havia muito tempo e Tilly os travestiu de cristo porque eles tinham talento de sobra para exortar uma banda tão quintessencialmente britânica como o The Who para tentar sobrepujá-los. Seria necessário muito tempo e muito aperto financeiro para adquirir todos os discos de catálogos, raridades, livros, revistas e vídeos do The Who e Tilly almejava desfrutar de cada aquisição lentamente como uma criança que saboreia um doce de bar. Tilly nunca deixou de ser um menino. Só trocou as calças curtas pelas compridas que serviram apenas para aumentar sua rebeldia, seu radicalismo e sua imaturidade. Aos olhos de uma pessoa desavisada, Tilly poderia passar por um garoto sábio e meticuloso que guardou todos os presentes de natal por mais de uma década e deixou para abrí-los todos agora, na idade adulta, um a um, como um colecionador, sem perceber que ele queria ter pela frente muitos anos de brincadeira até enjoar.
Quando Tilly se viu pela primeira vez frente a frente com o penúltimo álbum da banda chamado Face Dances ficou por vários minutos enfeitiçado pela atraente capa do disco de vinil exposta na vitrine de uma loja de shopping. Seus olhos infantis cintilavam como no dia que ele ganhou o primeiro trenzinho do Papai Noel. O brinquedo que se deixava ver e não se tocar por trás da barreira de vidro tinha um invólucro que lembrava a forma do A Hard Day's Night de vinte rostos em preto e branco, tirados de uma imitação de rolo de um filme fotográfico e dispostos em cinco colunas e cinco linhas, todos eles separados por molduras de azul comum, mas a embalagem de Face Dances era mais encantadora com aquele tabuleiro de dezesseis caras maiores, aquareladas, estilizadas, rabiscadas, deformadas, picasseadas, assombradas, irreconhecíveis, e de uma beleza que está somente nos olhos de quem a vê, como os olhos de Tilly cuja mente embriagada de adjetivos fastidiosamente rimados é perdoada porquanto aqueles rostos dançavam em volta de sua cabeça e lhe sussurravam no ouvido que as músicas que os embalavam valiam qualquer estouro no orçamento.
Imagino-te como Lúcia no céu com diamantes. Coloco-te em movimento como um caleidoscópio de polichinelos pulsantes. Dou vazão à sua gentil leveza como uma exposição de borboletas esvoaçantes. Amplio-te no firmamento como um arco-íris que ganhou palhetas abertas em leques radiantes. Retenho em minhas pupilas a graça e a meiguice de seu olhar de uma miríade de gérberas deslumbrantes.
Tilly estava, intolerantemente, convicto de que o The Who era a melhor de todas as bandas e precisava avisar os outros. Mas os outros eram em número infinitamente menor que os seguidores do Elias reencarnado e entre eles pouquíssimos eram aqueles que apreciavam a música britânica, se é que algum deles soubesse a diferença entre a música britânica e as demais, e entre os poucos conhecedores, raríssimos eram aqueles que estavam dispostos a confrontar os Beatles com qualquer outra coisa menor do que o Rolling Stones. O novo público de Tilly era minúsculo, como o do Nazareno, limitado ao seu próprio criador, como esta história que, no início, só tem seu escritor como audiência e que está fadada a ser apenas um João Batista, o menor de todos no reino de deus. O único que poderia ter ouvidos de ouvir Tilly era o Mensageiro e não foi por acaso que ele foi escolhido por Tilly receber sobre sua cabeça o impacto avassalador de uma estrela branca como Deneb, sufocante de tão quente, esmagadora com a sua massa vinte e cinco vezes maior, e ofuscante com sua luminosidade 200 mil vezes mais intensa. A bem da verdade, o Mensageiro não devia sentir muita dor porque quando ele comparecia àqueles esporádicos encontros de assuntos marcados com Tilly, depois dos cumprimentos de praxe ele não falava sobre o tempo, mas ia logo perguntando a que horas o bar abria, de modo que bem antes do lá pelas tantas ele já estava anestesiado com whisky, vodca e cerveja, e pouco antes das altas horas saía completamente encharcado, mas andando com a elegância de um cadáver embebido em formol sem respingar. Nessas condições, é difícil saber se ele sentia algum prazer, mas há que se louvar sua nobreza expiatória que pode ser mais bem apreciada colocando-se no lugar de Yoko Ono quando ela foi obrigada a ouvir aquele jovem baixo, forte e rico cantar Imagine de John Lennon especialmente para ela.


domingo, 17 de setembro de 2017

JUÍZO NUMINOSO

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Quem bate tão forte como se tivesse cem nós de dedos por noite tão fechada?

Uma aspirante, saída do purgatório, ainda perdida.
Qual é a senha?
Bati a cem portas pelo umbral. Rezo para que esta não seja serventia da casa. Deram-me um violento repouso do corpo e temo que assassinem-me o da alma.
A senha está incorreta, e não há nada para se preocupar. As pessoas não cometem assassinatos no paraíso.
Como se bate a alcatra nesta terra de pés juntos?
Que gíria é essa, mocinha? Aqui se rende o espírito de velhice. Os mais jovens de doenças e acidentes.
O que é um acidente no paraíso?
Um menino se escondeu da chuva debaixo de uma árvore. Ela atraiu um raio que fulminou o garoto.
Ele morreu queimado?
Não necessariamente. A intensa descarga elétrica provoca uma parada cardíaca instantânea.
Isto é um exemplo ou um caso real?
Real.
Você presenciou?
Não. Alguém me contou.
Talvez ninguém tenha lhe contado sobre algum homicídio que você não tenha visto.
Impossível. Não há crimes no paraíso.
Então por que aí há guardas com armas de fogo?
Quem lhe disse isso?
Alguém me contou.
Alguém que foi expulso daqui?
Eu não sabia que as pessoas são expulsas do Éden.
Todo o mundo sabe o que aconteceu com Adão e Eva e os anjos caídos.
eles fazem parte dos primórdios da criação. Os tempos mudaram muito.
Os critérios continuam os mesmos desde então.
A misoginia também?
Pare com esta ironia, mocinha. Isso não é nada bom para seu julgamento. Lembre-se do que um dos grandes apologistas cristãos disse na terra: A mulher dá a luz na dor e na angústia. Finge que sofre a atração do seu marido e deixo-o pensar que ele é o seu senhor. Ela ignora a Eva que é. Não se importa por estar ainda viva, neste mundo, a sentença de Deus contra o seu sexo. Impõe-se como uma ousada. Ela é a porta do diabo. Enganou o único quem Belzebu não conseguiu seduzir. Foi ela quem facilmente venceu o homem que é a imagem de Deus. Foi sua recompensa, a morte, que causou a morte do próprio filho de Deus. E mesmo assim, ainda ela cobre-se toda de ornamentos e túnicas de pele.
Os apóstolos  não disseram que foi Judas Iscariotis quem traiu o filho de deus?
Ocorre que Judas foi ardilosamente desencaminhado pelo demônio, uma mulher.
Uma mulher? Meus pais me ensinaram que anjos e demônios não têm sexo.
Os anjos não, mas os demônios são todos do sexo feminino.
Mas todos os demônios têm nomes masculinos: Belzebu, Azazel, Beliel, Lúcifer, Baal... e em todas as suas representações na terra eles são apresentados como machos fecundando fêmeas terráqueas para gerar o anticristo.
Que petulância é esta, mocinha? Está querendo ensinar o pai-nosso ao vigário e incriminar-se no seu julgamento? Você ainda não me respondeu quem lhe disse que aqui há policiais armados. 
Foi um drone que sobrevoou o céu e viu tudo.
Isto é ridículo. O paraíso é coberto por uma redoma de vidro.
Se é de vidro é transparente.
Seu sarcasmo ferino de conversa ordinária engana a ti mesma. A redoma é um espelho, como aquele usado nas salas de reconhecimento de criminosos nas delegacias da terra. Quem está dentro enxerga todo o firmamento. Quem está fora apenas vê sua imagem refletida.
Esse tipo de vidro deixa passar a luz, mas não deixa passar a água. Então como pode um raio matar uma criança se não chove no paraíso?
De onde você tirou tamanho disparate? Sua insolência já está passando dos limites. Você está pondo em dúvida os desígnios de Deus? Ele ajudou Moisés a separar as águas do mar. Fez chover maná no deserto. Seu filho na terra andou sobre as águas. Deus é capaz de tudo que está além de nossas imaginações.
Eu sou muito boa na água.
O que você quer dizer com esta parvoíce? Está insinuando algum tipo de comparação com Moisés e Jesus Cristo?
Não! Sou muito melhor do que eles!
Como você ousa proferir tal ultraje? Já agora um anjo guardião sussurra em meu ouvido que você é a última das sete filhas de um casal que não foi batizada pela irmã mais velha, e que vira coruja, e, à noite, entra pelos telhados e pelas janelas para chupar o sangue de crianças, bebe cachaça e pia forte, voando e soltado gargalhadas.
Nossa, este teu anjo fala como gente de minha terra. Não cheguei aqui voando. Após minha morte matada, viajei uma semana debaixo d´água até aqui. Consigo prender a respiração por quanto tempo eu quiser.
Isso é uma blasfêmia! Você deve ter sido uma bruxa queimada viva pela Santa Inquisição. Você não foi assassinada. Deve ter recebido a pena capital por prática de feitiçaria.
Não sou bruxa nem da idade média. Sou paranormal e atemporal.
Meu Deus, você é mesma o satanás disfarçado de pobre coitada, querendo nos seduzir, mas aqui você não entra.
Certamente você conhece a mágica de levitação de pessoas que ficam suspensas no ar no sentido horizontal e o mágico passa uma argola pelo seu corpo para mostrar ao público que não há nada sustentando-as por baixo ou suspendendo-as por cima. Isso é apenas um truque barato. Olhe para mim agora. Estou levitando na sua frente.
Meu Deus do céu, você é o próprio demônio. Já chega. Vou anunciar meu veredito: você vai para o inferno.
Nada disso. Olhe bem para mim. Quantos olhos você vê?
Ave Maria, isso é uma monstruosidade. Você virou uma ciclope. Vou te despachar para o inferno agora mesmo.
Espere um pouco. é você quem está enganando a si próprio. Não estou sendo julgada. Sou eu quem está adjudicando. Agora você vai saber quem eu sou. Eu inventei o primeiro evangelho. É minha aquela frase colocada na boca do mitológico filho de deus: Onde quer que sejam pregadas estas boas novas, que será em todo o mundo, será também em memória desta mulher pelo que ela fez aqui hoje. Sabe o que fiz? Acabei com aquela machista lei semita de que a mulher deve pagar um dote ao noivo se quiser casar com ele.
Errado, sua bruxa! Esta lei nunca foi abolida na Palestina.
Nunca estive na Palestina. Inventei o evangelho em Roma. Tem mais. Quando eu disse que fui assassinada e que não queria ser assassinada novamente no paraíso, não dei uma resposta à sua pergunta sobre senha, porque ela não existe. Quis apenas lhe dizer que, por milênios, a mulher têm sido assassinada pela misoginia masculina. Você se mostrou um autêntico e repugnante misógino. Com meu poder extrasensorial pude ver que este paraíso está armado e mata quem dele tenta fugir, como se fazia na ex-URSS e Cuba, por isso vou fecha-lo e transforma-lo num infinito salão de baladas para a juventude.
Olha só meu anjo! Ela solta ectoplasma de seus dedos, desmaterializa nosso lugarzinho de delícias e volta a engolir a substância. Deus nos ajude!
Isto não lhe parece um sonho?
Sonho? Isto é pior que um pesadelo, pior que o terror noturno. É o estertor da morte, martírio eterno, o ranger de dentes, o penar do inferno. Que Deus tenha misericórdia!
Não. Este é um de meus estranhos sonhos. Não sei quem me colocou nele. Sei apenas que sempre estou sendo testada. Você acha que passei no teste? E você, quem é? Um figurante? Meu animus? Ou você é apenas um sonhador com o inconsciente coletivo que assiste a tudo de uma plateia solitária?  E eu, sua anima? Somos aqueles que permanecem à margem do cenário onírico, Que rouba o espírito em toda sua glória, E fragmenta as lembranças pela metade? Nada em nós precisa de um deus. Tudo em nós só precisa ser numinoso, um sonho, que traduz nossas vidas, e do qual sempre acordamos morrendo.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

THE SECOND COMING OF THE 60'S


THE SECOND COMING OF THE 60'S (POSTED ON WWW.AMAZON.COM ON September 3rd, 2008). Album review written by Alceu Natali with Copyright protected by Brazilian law 9610/98
Customer Review
5.0 out of 5 stars
ALCEU NATALI'S GREAT ALBUMS: THE SECOND COMING OF THE 60'S
By Alceu Natali on September 3, 2008
Format: Audio CD |Verified Purchase
 
I was reading Q magazine's best of 2007. Firstly, there were those top 10 tracks of the year. I checked each one at Amazon and the only one I liked was 'Watch me fall apart'. Were the Hard-Fi a one hit wonder?, I asked myself. No, they aren't. I checked the album at Amazon and found out that 'Once Upon A Time In The West' is a classic. I found out more. The British reviewers of Q definitely need some help from this arrogant Brazilian guy here who is writing this review. The Q writers gave this album the 35th position in their top 50 best! But the problem is the first 34 best are quite inferior to this Hard-Fi album. As a matter of fact, this album is the only 5 star among those top 50. I bought the CD and got completely delighted to see the 60's back. The Hard-Fi's bloke named Archar said that they are not just a rock band but an everything band: house, rock, ska, dub, pop, etc. And, yes, they really come with a fully loaded arsenal of 60's sounds: Motown r&b, rock 'n' roll, catchy hooks, sing-alongs, groovy beats, oh, oh, oh, ohs, eh, eh, eh, ehs, ah, ah, ah, ahs. 1. Suburban Knights starts with the ehs, ohs and ahs, and guitar cracks announcing the second coming of the 60's. 2. I shall Overcome slows down a little bit but does not miss the beat. 3. Tonight is a pop masterpiece with the ohs, ahs, ehs growing gloriously. Like we say in Brazil: 'Everybody must get out to pay for the tickets again if they want to continue watching the show'. 4. Watch Me Fall Apart is simply grandiose on its own and in a par with the likes of 'Love is All Around'. 5. I Close My Eyes is harder, faster, and raw and with a lot of nahs, nahs, nahs. Cool! 6. Television is another pop masterpiece with its charming halleluyahs that roar. 'Everybody out again, please, and get a new ticket'. 7. Help Me Please is a pause to take a breath, and relax, like Paul used to do in all Beatles' albums. 8. Can't Get Along is a typical 60's pop beat with a break of oohs. 9. We Need Love reminds me of The Animals of the new millennia. 10. Little Angel is 'Tonight' and 'Television' put together therefore once again everybody must get out for a new ticket. 11. The King is a beautiful ballad that ends this classic album in great style and makes me wonder what they will do next like when I was 16 looking forward to the next Beatles LP. It is okay if you do not agree that this album has something to do with 60's. But wonder how J.C. would look like if he returned today? Maybe badly shaved, messy hair, in an old pair of jeans, a worn out waistcoat, a Lennon bottom, an iPod plugged into his ears, and a nailhammer just in case. Halleluyah! Alceu Natali.
 



quinta-feira, 7 de setembro de 2017

SUBINDO AO CÉU

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

As nuvens noctilucentes descem, Inoportunas aos mais lindos veranicos de maio, Para sorver os docinhos, E os derramam sobre a água-furtada, Unindo-se ao silêncio e à doçura da noite, Rezando suas ave-marias, E redescobrindo sua alma humana, De sua infinita mansarda, E seus escuros e sinuosos meandros, Como os recortes da costa de um mar faiscante, Abrangido por um vasto horizonte, Lá fora, O jardim tapetado com uma camada de pétalas, Uma última folha de paineira que deu lugar a uma flor, É levada pela brisa de encontro à sua porta, Murmura como onda solitária lavando a praia, Ainda não tem seu sono imorredouro perturbado, Deitada sob o recanto esconso, O desvão do telhado, Infindo para andorinhas e corujas, Altivo e inconquistável pelas enchentes, Sonha como um rio eterno em direção à imensidão dos oceanos, Resplandece o rosto sob o olhar de um anjo que te assiste do alto, Sente seu amor nele manifestado, Desperta sua esperança, Faz jorrar sua alegria, Vem te ensinar a voar, E subir ao céu.   

domingo, 3 de setembro de 2017

HUMPHREY BOGART

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98 Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Estávamos procurando um lugar para nos abrigar do sol escaldante, aguardar o amanhecer, e rumar bem cedo para a Rota 66, para ver Casablanca. Passamos a noite num moquiço balangando como muxiba acima de uma loja de artigos de umbanda. Não pregamos os olhos. Fizemos amor quatro vezes em pouco mais de doze horas, um recorde desde os nossos tempos de adolescentes. Nos intervalos entre as transas, fumamos muito baseado. Dizem que fumar é morrer um pouco. Nós, ao contrário, passando da meia-idade, nos sentíamos redivivos. Muitas coisas mudaram em nossas vidas desde aquele mistério no cemitério da quarta parada, quando meu celular foi enterrado junto com meu amigo e passou a fazer ligações por conta própria. De debochado e incrédulo passei a ser um homem desconfiado e medroso. Ironicamente, somente o anarquismo mental da Célia não permitiu que eu me desequilibrasse emocionalmente por completo. É impressionante e inexplicável a súbita e radical mudança de comportamento e pensamento de uma mulher que era tão ciumenta e rabugenta. Ela voltou à sua juventude com outra mentalidade, e embora se mantivesse sempre fiel a mim, gosta de dizer que é uma garota-pisso, daquelas que trepa com qualquer um, como se dizia nos anos 60, veste-se como uma hippie são-franciscana, invariavelmente com jeans desbotados, bata indiana multicolorida, flores nos cabelos, pulseiras e colores sobrepostos, bottoms de paz e amor e pés descalços. Cantarola dia e noite ao som dos The Byrds (Mr. Tambourine Man - ela pede ao homem do pandeiro para tocar uma música para ela – também conhecido como o fornecedor de drogas), Lovin´ Spoonful (Daydream - sonha acordada o tempo todo) e The Mamas & The Papas (Creeque Alley -  estamos sempre chapados e o único que não emagrece sou eu). Seu apetite sexual é insaciável e não passa um dia sequer sem puxar um fumo e beber uma meia de seda (leite condensado, licor de cacau e conhaque batidos no liquidificador). Quer ser chamada de Sally, nome de uma música do The Who (Sally Simpson), e só me chama de Ernie, outro personagem da ópera rock Tommy do The Who de 1969. Como meu nome é Bernardo, pensei que fosse me rebatizar de Ben ou Bernie, mas ela prefere os nomes psicodélicos. De minha antiga mulher, só sobrou uma pitada de romantismo anacrônico que não combina com seu liberalismo atual. Ela quer rever todos os filmes com atores americanos dos anos 40 como Humphrey Bogart, Cary Grant, Katharine Hepburn, Bette Davis, Greta Garbo, Lauren Bacall e uns outros cinquenta. Foi dela a ideia de tirarmos uma semana de férias e percorrermos mais de mil quilômetros desta rota submundista e circense, que mais parece um trem  fantasma, e onde, segundo ela, há um vilarejo com um cinema retrô exibindo um festival de filmes com Humphrey Bogart. Vira e mexe, ela me vem com umas tiradas em inglês. Não sei onde ela aprendeu a língua com tal fluência. Ela diz que é autodidata e disso já nem duvido mais. Ela passa muitas noites em claro. Também não sei de onde ela tira tanta energia. Ela me pediu para ir embora antes da aurora, com um pacau aceso. Ela sempre divide seus bagulhos comigo. Se demoro para devolver o boró ela sempre me vem com essa: Don´t bogart that joint, my dear, pass it over to me. Caímos na longa vereda, dominada pelo cerrado e salpicada de arraiais, onde assistem populações mescladas e todos os tipos de biroscas e espeluncas. Passamos por um rancho de calangos, bancas de carnes negras, aquelas expostas ao sol e cobertas de moscas, um posto de gasolina com uma bomba movida a manivela, feira de índios redutores de cabeça e vários puteiros e pardieiros esquisitos. Logo adiante vi uma placa com o nome Rota 999. Pensei ter pego a entrada errada. Parei no acostamento e desci para conferir. Descobri que algum idiota virou a placa de ponta cabeça e ainda acrescentou à mão um terceiro número seis. Em volta da placa havia galinhas pretas sacrificadas, velas vermelhas, pratos de farofa, charutos, pinga e outras bugigangas. Levei a maldita para a Célia. 
- Onde você arrumou esse marafo, Ernie?
- Tirei de uma macumba.
- Cacilda, esse deve ser dos bons. Would you like a hit?
- Você não acha que é muito cedo para beber, Sally? Você está queimando fumo desde ontem à noite.
- Deixa de ser careta, Ernie! Lá não tem frango?
- Tem galinha morta, mas cheirando mal. Deve estar lá há dias.
- Afinal, estamos no caminho certo?
- Sim.
- E por que aquela placa 999?
- Coisa do demônio. Inverteram a placa, como satanás faz com crucifixos nas paredes, e ainda acrescentaram mais um seis para parecer o número da besta, o 666.
- Que é isso, Ernie? Você sempre foi ateu. Tá ficando supersticioso agora?
- Deixa pra lá, Sally.
Seguimos viagem e em poucos metros o motor da lambreta começou a ratear.
- Está vendo, Sally? Isso só pode ser coisa do tinhoso porque mexi na macumba e arrumei a placa.
- Não é falta de gasolina?
- Não! O tanque está pela metade.
Menos de um quilometro mais adiante, o motor pifou de vez. Tivemos que continuar a pé, puxando a maldita motoneta.
- Sally, você que pesquisou tanto para fazer esta viagem deve saber onde se acha uma oficina neste fim de mundo, não sabe?
- Claro que sei, Ernie! Seja otimista. Vamos curtir a natureza,  queimar papel de galo e aproveitar o tempo que perdemos. Uma oficina logo aparecerá. Além disso, caminhar também faz bem para a saúde e faz parte do nosso programa.
Se eu dissesse que a Célia levava jeito para médium, ninguém na família acreditaria. Um minuto depois de caminhada, a Célia exclamou:
- Lá esta ela!
- Aquilo é uma oficina? Você leu o que está escrito na parede?
- Se eles consertam até disco voador, arrumar uma moto deve ser a maior moleza para eles.
-Você deve estar de brincadeira, Sally. Disco voador não existe. Acho que você está abusando da erva.
- Que é isso, Ernie? Fumo e cheiro numa boa, estou feliz e tão bem como nunca estive antes de dobrar o cabo da boa esperança. Agora me diga uma coisa: se alguém lhe dissesse que o celular foi enterrado junto com o defunto e que ele começou a fazer chamadas para a casa do seu dono você acreditaria?
- Você tem razão. Não acreditaria até acontecer comigo.
- Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay. We never know, Ernie. Accidents will h...
- Está bem, Sally, chega de provérbios. Vou bater na porta.
A porta rangeu como nas casas mal assombradas, abriu uma fresta e dela despontou a cabeça de um anão, de boca aberta, mostrando dentes navalhados, e vociferou:
- O que vocês querem?
- Boa tarde. Aqui é uma oficina mecânica, não?
- O que você acha?
- Acho que é.
- Então por que pergunta?
- É que não tem nenhuma placa, só este aviso engraçado sobre conserto de disco voador.
- Qual é a graça? Tá rindo do quê? Tenho cara de palhaço? Acha que sou um Umpa-Lumpa e que aqui é fábrica de chocolate? Cai fora!
-Espere, por favor! Não quis ofender. Desculpe-me esta infeliz observação. Vocês consertam motos?
- Sim, mas a oficina está cheia. Volte daqui a 3 meses.
- Espere, por favor. Minha lambreta pifou e não tenho onde ficar. Por favor, dê uma olhada nela. Não deve ser nada. Não vai te tomar tempo.
- O que há com esta bosta caindo aos pedaços?
- Você pode não acreditar, mas viemos de longe até aqui, e ela estava funcionando muito bem. De repente, o motor começou a falhar até parar.
- Está bem, motoqueiro de meia-tigela.  Entre pela porta da garagem do outro lado da oficina.
- É por lá que entram os óvnis?
- Está querendo tirar sarro com minha cara?
- Não, de jeito nenhum. Desculpe-me mais uma vez. Perguntei só por perguntar.
- Os discos entram por cima.
- Por cima? Como?
- Você está mesmo querendo tirar uma com minha cara? Por onde entraria?
- Meu Deus, desculpe-me de novo, perguntei só para entender, e não para ofender. É claro, os discos voadores voam, já diz o nome. Eles entram pelo telhado?
- Temos uma abertura no teto da oficina só para eles.
- E o piloto alienígena, como ele é? Se parece com nós?
- Não tem ninguém dirigindo o disco voador.
- Ninguém? Como?
- Cara, você é maluco? Tem algum problema? Não lê jornal, não vê TV, não navega na internet? Nunca viu um disco voador?
- Não, não tive este privilégio. Dizem que a gente vê disco voador uma vez na vida e outra na morte
- Cara, você parece ser de outro planeta. Os discos voadores estão em toda parte. Você já ouviu falar num troço chamado controle remoto?
- Claro!
- Você nunca viu um drone, voando por aí, sem piloto, tirando fotos, jogando bombas e o escambau?
- Claro que já vi.
- Então, como você imagina que uma civilização muito mais avançada que a nossa manobra suas naves? Você acha que eles empinam os discos com linha como se fossem pipas?
- Claro que não. Diga-me uma coisa: você já viu um alienígena?
- Nunca! Ver para quê?
- Quando os discos chegam aqui como você sabe onde está o defeito?
- Quando o disco chega e aterrissa, uma luz fluorescente se acende na parte com defeito e pisca palavras tais como: Acionamento de Invisibilidade Instável.
- Em português?
- É lógico, seu idiota. Se eles estão no Brasil precisam saber português!
- Como você aprendeu a consertar discos voadores? Como você os atraiu? E, principalmente, como eles te pagam?
- Espera aí, cara. Você está fazendo perguntas demais. Tá querendo roubar meu negócio? Vamos dar uma olhada nesta sua geringonça. E preste atenção: vou fazer algo que não costumo fazer para ninguém. Vou deixar você e está palhaça entrar lá dentro e...
- Epa, manera aí, Umpa-Lumpa. Palhaça é tua mãe...
- Seu anão, não a leve a mal. A Sally está embriagada e não pensa muito para falar.
- Eu bem que percebi que vocês são completamente matusquelas e drogados. Leva logo esta porcaria lá atrás, e entrem logo pela porta da garagem, antes que eu mude de ideia. E você, quenga, cuidado com sua língua.
- Quenga é sua mãe, seu anão filho da puta. Vá se fuder!
- Qual é seu nome, cara?
- Ernie.
- Ernie, esta piranha não entra. Só você, entendeu?
A Sally já ia soltar outro palavrão. Corri e tapei a boca dela.
- Deixe-a entrar comigo, por favor. Prometo que eu a controlo. Se ela falar mais um palavrão, você pode nos expulsar.
- Está bem. Vamos acabar com isso logo. Você já torrou o saco por um ano.
Sussurrei no ouvido da Sally:
- Sally, não fale mais nada, tá? Fique na sua. Essa gozação sobre conserto de disco voador logo perde a graça. Deixa o anão falar a bobagem que quiser. Se ele consertar nossa lambreta, está bom demais. E disso que precisamos. Agora, por favor, diga sim com a cabeça e eu tiro a mão de sua boca.
Sally meneou a cabeça para frente. Fomos até a parte de trás de oficina. A garagem estava aberta, com o anão na porta nos esperando. Entramos e ficamos petrificados, como a mulher de Ló, transformada em estátua de sal, por desobedecer a ordem dada pelos anjos e ter olhado para trás para ver a destruição de Sodoma e Gomorra. Minha extrovertida e atirada Sally, dado a trautear, de conversar com estranhos pelos cafés, e passear à noite por ruas desertas, pendurou-se em meu braço, arregalou os olhos, congelou e emudeceu. Diante do que meus olhos esbugalhados testemunhavam, aquele sinistro celular que ligava do mundo dos mortos imediatamente desabou do alto do pedestal dos mistérios entre o céu e a terra e foi parar onde deve estar até hoje: a sete palmos. Aquele biango mixuruca por fora, menor que um barracão de canteiro de obras, tinha, por dentro, outra dimensão. Maior que cinco hangares de Boeing. Completamente aturdido, vi, deitados no chão, cinco discos voadores, de formatos e diâmetros variados, entre quatro a dez metros cada um. Dois deles eram exatamente como aparecem no folclore ufológico: duas bacias emborcadas e prateadas. Um era ovalado, preto perolado. Outros dois tinham formas e cores esdrúxulas: cilíndrico e fosforescente, e triangular, de coloração indefinida, aquela que chamamos de burro quando foge. Espalhados por todos os cantos do gigantesco galpão trabalhavam ativamente, pelo menos uns vinte anões. O anão chefe pegou minha lambreta e gritou:
- Yelchin!
- Sim, chefe!
- Dê uma olhada neste trambolho e vê o que dá para fazer.
- É pra já, chefe.
Embasbacado e gaguejando fui até o anão chefe.
- Você não me disse seu nome ainda.
- Você não perguntou, imbecil. É Tuffy. O que houve com sua  matusquela? Ela está pálida e estática que nem uma múmia?
- É pura emoção, Tuffy. Ela é muito sensível e se comove com extrema facilidade. Por acaso você tem algo para destravá-la? 
- Tenho. Dunga!
- Sim, chefe.
- Traga um pouco daquele cacaréu que encontramos dentro do disco pretinho.
- É pra já, chefe.  
O Dunga trouxe algo parecido com uma pílula, meio esverdeada. Entregou-a ao Tuffy,  e ele me pediu para enfia-la na goela da Sally.
- Tuffy, isto aqui não é perigoso? Você já tomou?
- Perigoso é o fumo que sua quenga puxa. Não tem erro. Já tomei. É tiro e queda.
Custei para fazer a Sally tomar aquele estranho comprimido. Assim que ela o engoliu, teve um sobressalto, como um drogado que leva uma injeção de adrenalina direto no coração para não morrer de overdose. Ela parecia não se lembrar de que esteve vários minutos paralisada. Já estava irradiante e falante novamente:
- Nossa Senhora de Marijuana! Que negócio é este?
- Estamos na oficina, Sally.
- Putzgrila! Não pode ser! Essa oficina está viajando no LSD!
- Tuffy, como você explica o tamanho aqui dentro comparado ao de fora?
- Não tenho explicação. Quando os discos começaram a chegar, o espaço aqui foi aumentando gradativamente. Isso é coisa deles.
- Chefe! Estamos prontos para testar o pratinha.
- Mande todos se prepararem, Nosey. Ernie, você e sua espantalha devem tiram os sapatos e...
- Puta que pariu, este anão continua me xingando de graça. Vai tomar no seu c...
- Dona boqueira, ou você se retrata, ou te dou um pé na bunda pra fora daqui. 
- Se acalme Sally, eles já estão consertando nossa lambreta. Vamos fazer o que o Tuffy nos pede, está bem?
- Se este anão me xingar mais uma vez eu que vou dar uma porrada na fuça dele.
- Tuffy, deixa pra lá, por favor. Você nos pediu para tirar os sapatos. Para quê?
- O Nosey consertou o disco prata que estava com problema no dispositivo antigravidade e agora precisa testar para ver se está funcionando direito. Você e sua chincheira devem calçar estes sapatos magnetizados e se posicionarem em cima destas chapas de metal no chão.
A Sally já estava soltando outro palavrão. Tapei a boca dela rapidamente. O Tuffy me entregou uma corda e uma mordaça e me pediu para imobilizar a Sally. Na hora, achei um exagero e até me indispus com o ele. Só depois do teste entendi que ele não estava retaliando, mas, ao contrário, fez aquilo para o próprio bem da Sally. Ela esperneou e jurou com os olhos que iria esganar o anão. Ele nos ajudou a calçar os sapatos e nos colocou sobre a chapa de metal. Ficamos literalmente grudados. Não podíamos dar nenhum passo. Em seguida, o Tuffy  deu sinal ao Nosey para iniciar o teste. De repente, o disco prata começou a flutuar. O ambiente todo estava com gravidade zero. Os outros discos, alguns carros, motos e bicicletas, assim como bancadas e móveis estavam todos ancorados ao chão com correntes. Somente algumas ferramentas estavam soltas e flutuando. Eu e a Sally estávamos atônitos ao ver tudo aquilo acontecendo diante de nossos olhos. O que há de mais imaginável ainda estava por acontecer. O Tuffy, calçando um sapato de ferro sem imã, mas pesado o suficiente para mantê-lo preso ao chão, veio até nós, desamarrou a Sally, tirou nossos calçados, nos deu um empurrão pelas pelas costas e gritou:
- Saiam voando, seus matusquelas! 
Flutuamos pelo recinto, e experimentamos a incrível sensação que os astronautas têm no espaço sem gravidade. Voávamos para lá e para cá como pássaros. A Sally parecia uma criança. Dava cambalhotas, piruetas, ria sem parar, de tanta alegria. Ficamos à deriva uns cinco minutos. O disco de prata começou a girar em torno de si, sem um barulhinho sequer. Aliás, o silêncio no galpão era absoluto. Acho que é isso que dizem que os discos provocam quando estão perto de nós: o som de silêncio. O Tuffy nos pediu para descermos e ficarmos sentados no chão porque a gravidade estava prestes a voltar. O enorme teto solar se abriu e o disco saiu como um rojão, numa velocidade alucinante. As ferramentas que estavam suspensas caíram imediatamente. O Tuffy falou com um de seus funcionários:
- Brainy, recolha tudo que está espalhado pelo piso e coloque no lugar.
- É pra já, chefe!
Em seguida, Tuffy falou com o anão que consertava nossa lambreta.
- Yelchin, esta porra não está pronta ainda?
- Sim, chefe, quando o pratinha começou a girar a lambreta deu partida sozinha.
- Dê uma volta lá fora e acelere ao máximo.
- É pra já, chefe.
Yelchin saiu pilotando nossa lambreta e voltou dois minutos depois.
- Chefe, está 100%.
- Que velocidade atingiu? 
- Chegou a 50, chefe.
O Tuffy veio até nós.
- Agora vocês podem pegar a lambreta e se mandar daqui.
- Quanto foi o conserto, Tuffy.
- Nada!
- Sério?
- Sim.
- E aquela pílula alienígena?
- É de graça! Querem mais? Tem um monte aqui. Temos também uma outra amarelada que sua maluquinha vai gostar.
Desta vez, a Sally não reagiu. Até falou mansinha com o Tuffy.
- Que efeito provoca?
- Tome apenas uma e você se sentirá mais poderosa do que com heroína e cocaína.
- Como você sabe disso?
- Eu já experimentei uma.
- Toma sempre?
- Não. Evito isso.
- Por quê?
- A gente sai fora realidade e entra no mundo deles. Quero ficar no nosso.
- Como você sabe disso se nunca viu um deles? São estas pílulas que dão poderes a eles?
- Não. Eles não precisam destas pílulas. Acho que eles as usam para testar em nós.
Entrei na conversa.
- Tuffy, como já disse, não quero roubar seu negócio. Só quero que você me responda uma coisa: se eles são assim tão adiantados, por que eles não são capazes de consertar seus discos sozinhos?
- Eles não precisam de nós. Acho que o que eles fazem com nossa oficina deve ser parte da agenda deles aqui na terra. Uma experiência. Eu nunca vi um deles, mas sinto que eles estão sempre presentes, observando nossas reações.
Depois dessa revelação, chamei a Sally para ir embora. A Sally pediu as pílulas amarelas ao Tuffy. Ele nos deu uma caixa com mais de mil e nos advertiu para não abusarmos delas.
- Tuffy, você sabe onde fica o vilarejo onde há um festival de filmes de Humphrey Bogart?
- Está a uns 200 km daqui.
Tratei de ir embora. Disse a Sally que deveríamos nos apressar para chegar antes do anoitecer. Agradeci o Tuffy pela sua gentileza. A Sally fez o mesmo. Desta vez o Tuffy não gozou da Sally. Só lhe pediu para ter cuidado. Pegamos a Rota 66 em direção ao vilarejo. A lambreta estava com um bom desempenho. De repente, a Sally voltou a me chamar pelo meu nome.
- Bernardo, sabe de uma coisa, ao invés de ir ao vilarejo hoje, eu gostaria de voltar àquele motel e deixar para ver Casablanca amanhã. 
- Aconteceu alguma coisa, Célia?
- Não, Bernardo. Está tudo bem. É que tivemos um dia inusitado. Toda aquela loucura dentro da oficina me deixou muito mais agitada do que a maconha. Eu quero descansar um pouco, dar um tempo para pensar em tudo.
- Está bem, Célia, vamos voltar. Aquela espelunca não está longe daqui.
Passamos pela oficina, chegamos ao motel. Tomamos um banho e fomos para a cama.
- Bernardo, liga a TV!
- Será que pega algum canal aqui, neste lugar tão desolado. E esta porcaria de TV de tubo, sem controle remoto. Será que funciona? Ok, está ligada.
- Olha só, Bernardo, está passando Jeannie é um gênio. Eu gostava muito desta série.
- Eu prefiro mais filmes dos tempos atuais e futuristas.
- Vou experimentar uma daquelas pílulas amarelas.
- Cuidado, Célia.
- Caralho. Que sensação agradável. É impressionante. Mal bateu no meu estômago e parece que estou viajando. Me sinto uma deusa. Capaz de fazer o que eu quero. Estou muito feliz com este passeio. Para completar, só falta ver aquele festival do Hamphrey.
Assim que a Sally proferiu estas palavras, a programação da TV foi interrompida e, em seguida, anunciou um festival de filmes de Hamphrey Bogart, começando por Casablanca. A Célia voltou a ser a Sally. 
- Puta merda, Ernie. Foi só pensar no Hamphrey e olha só! 
A Célia, ou melhor, a Sally, para variar acendeu um charo e o dividiu comigo. Passamos dois dias deitados na cama, sem dormir, e assistimos a trinta e sete filmes do Bogart, um atrás do outro. Sally, com um olhar meio humano, meio extraterreno, convidou-me a tomar a amarelinha. Quer saber de uma coisa, pensei, vou nessa. Ela ainda estava passando pelo esôfago quando a TV anunciou um antigo filme de 2067, com atores que nunca vi na minha vida, chamado A Oficina Mágica.