domingo, 6 de agosto de 2017

BANHO DE CIVILIZAÇÃO

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Muita gente diz que Londres é uma cidade chata e arrogante. Esta não parecia ser a opinião do ex presidente Jânio Quadros, tão inteligente quanto matusquela. O homem público ciclotímico que condecorou Che Guevara com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, renunciou à presidência com pouco menos de sete meses de governo, teve seus direitos políticos cassados pelo regime militar em 1964, e curtiu um ostracismo de 10 anos. Regressou em 1978 e elegeu-se prefeito de São Paulo em 1985. O homem dos factoides mediáticos, pendurou, literalmente, as chuteiras na porta do gabinete da prefeitura em 1986 e faleceu em 1992. Jânio tinha fama de pau-d´água – bebia pinga pura durante seus comícios em suas campanhas a cargos públicos - adquiriu o hábito de Winston Churchill de se comunicar com seus ministros através de bilhetinhos, e, entre muitas de suas memoráveis frases, algumas eram irônicas e  engraçadas - bebo-o porque é líquido, se fosse sólido comê-lo-ia. Este culto biriteiro era conhecido também por fazer constantes viagens ao exterior e, curiosamente, sempre fazia uma última parada em Londres. Certa vez um jornalista perguntou-lhe porque ele fazia um pit stop na capital inglesa. A resposta foi contundente e enfática: Porque preciso tomar um banho de civilização antes de voltar ao Brasil. Na escola, aprendemos que a Mesopotâmia é o berço da civilização do mundo, e que a herança cultural e moral do ocidente devem-se à Grécia. E onde Londres entra na sentença deste oráculo? Eu iria descobrir nos anos 90, quando precisei fazer inúmeras viagens a países europeus, exceto à Inglaterra. Comecei a repetir os costumes do homem da vassourinha. Ao final de cada longa jornada de trabalho, arrancava terno e gravata, vestia jeans, camiseta e tênis, e ficava até três dias vadiando pelas ruas e metrôs da Londinium fundada pelos romanos na década de 60 de dois mil anos atrás.  Não demorei mais que um dia para descobrir que em todo canto da cidade se respirava cultura, civilidade, educação e disciplina. Esqueçam os pontos turísticos como Big Ben, Palácio de Buckingham, Museu de Cera de Madame Tussauds, Torre de Londres, e outros que só servem aos colecionadores de fotos para mostrarem aos amigos onde estiveram. Você só não deve deixar de visitar o Museu Britânico, onde você pode ver o Livro dos Mortos dos Egípcios, escrito em 1300 a.e.c. e a Carta Magna de 1215, andar pela faixa de pedestres na Abbey Road, em frente aos estúdios da Apple, onde os Beatles tiraram aquela clássica e lendária foto, e visitar a Carnaby Street, ponto de encontro dos gênios psicodélicos que transformaram Londres no centro da efervescência cultural e artística do mundo e a cidade mais Avant-Garde do planeta. A Inglaterra não era assim. Demasiadamente puritana e preconceituosa nos anos 50, o homossexualismo poderia ser punido com pena de morte. Tudo mudou com os Beatles no início dos anos 60. Aliás, os Beatles e seus pares britânicos da música mudaram o mundo. Na minha busca por acomodações, descobri que os preços de estadia não eram muito civilizados. Mas quem tem boca vai a Roma. Papeando com gente de vários estabelecimentos comerciais e hotéis, acabei recebendo a indicação de uma pensão familiar, na Earl´s Court Garden, que ficava a algumas quadras da avenida e da estação de metrô homônimas. Para lá me encaminhei por volta das 21:00 horas. As ruas estavam completamente desertas. Enquanto as áreas mais centrais da cidade fervilhavam com shows de rock em várias casas noturnas, o pessoal da periferia se recolhia bem cedo. Estava com dificuldades para encontrar a pensão. Então, algo impensável no Brasil aconteceu. Interpelei uma jovem que vinha pela calçada em minha direção. Sem hesitar e sem medo de estar na companhia de um estranho por ruas vazias e escuras, ela levou-me de volta à esquina de onde viera, e mostrou-me a pensão que ficava do lado direito da segunda quadra mais adiante. Lá chegando, fui acolhido com extrema hospitalidade. Fiz uma menção poética a este momento no meu texto 30 ANOS DEPOIS, e que aqui reproduzo: A estação me recebe como as andaluzas em flor, Do outro lado da avenida, As ruas estão desertas, A noite caída tarde ainda em baixas e boas horas, Ao longo de uma aleia de buxos aparada e de cheirosos canteiros de alfazema, Lá adiante, a lividez do luar ilumina vagamente tudo à volta e meu passo até uma alemoa que, Gentilmente, Mostra-me uma alameda de casas simétricas, Feita milharal, Levando-me ao casarão plantado numa das duas estreitas vias transversais, Separadas pelo elegante jardim quadrilátero, Centralizado e cercado de grades. A pensão me recebe como em meu lar, Minha casa, Meus amores, Minhas flores dos trópicos, Cá nesta terra fria e acolhedora, Como a cama aconchegante, O sorriso aberto e familiar do café da manhã tão rico e caseiro, Os primeiros raios de sol iluminam esta parte da superfície terrestre sob sombra. O Earl´s Court Garden é um daqueles típicos quadriláteros de sobrados simétricos, com um jardim central, ao qual só os moradores locais têm acesso, exatamente como se vê no filme UM LUGAR CHAMADO NOTTING HILL. A recepção fechava às 22:00 horas, e só abria às 07:00 horas. Neste intervalo, só adentrava a pensão quem lá estivesse hospedado e tivesse a chave da porta de entrada. Certa vez, cheguei cedo demais a Londres, por volta da 06:00 horas. Eu carregava duas malas pesadas, uma contendo material de trabalho, outra com artigos pessoais. Larguei as duas na calçada, junto à porta da pensão, e fui fazer hora num barzinho na Earl´s Court Avenue.  Ao retornar às 07:00 horas, as malas continuavam no mesmo lugar, intocáveis. Talvez, nos dias atuais, elas fossem tomadas como suspeitas bombas terroristas e recolhidas. Londres é famosa pelas chuvas que caem quase todos os dias. Por isso, o inglês é muito precavido. Sempre sai de casa com um guarda-chuva. Eu não me preocupava com isso. Naquela época eu já não usava relógio nem cueca. A chuva podia se demorar por apenas meia hora, mas sempre vinha, de surpresa, a qualquer hora do dia, de manhã, de tarde e de noite. Logicamente, Jânio não se referia às águas que desabavam das nuvens quando falava sobre o banho da civilização londrina. As chuvas levaram-me a pensar nas palavras de John Lennon em sua música pelos Beatles chamada I´M THE WALRUS: sentado num jardim inglês, esperado pelo sol, e se o sol não vem, você pega um bronzeado de pé na chuva inglesa. Eu ainda preferia esperar a chuva passar, sentado na calçada de um  boteco da Oxford, saboreando um sanduíche, regado à Coca-Cola, e olhando o espetacular mulheril desfilando de sombrinhas. Houve uma ocasião em que a chuva parou de repente, paguei a conta e não esperei pelo troco. Atravessei a avenida e entrei numa loja de CDs do outro lado. O garçom veio atrás de mim e me devolveu o troco em moedas que ele pensou que eu havia esquecido sobre a mesa. Quando se fala em arte e cultura em Londres, as primeiras palavras que vêm à mente são música e literatura. É covardia falar sobre a música popular britânica, a melhor de todos os tempos. Basta aqui assinalar que não pude ver nenhuma das muitas grandes bandas ao vivo em Londres, porque elas só tocavam em grandes estádios e os ingressos sempre eram, e continuam sendo, esgotados com 4 a 6 meses de antecedência. Restava-me, então, me extasiar com as bandas amadoras que tocavam ao vivo todas as noites em dezenas de casas de show. Estes artistas amadores almejavam serem descobertos por algum empresário que os levassem a gravar o primeiro disco e ter exposição no rádio. E cá entre nós, mesmo estes principiantes eram bem melhores do que os melhores músicos brasileiros. Como diziam Keith e Jagger na música STREET FIGHTING MAN: o que pode fazer um garoto pobre, a não ser tocar numa banda de rock. Eu era pobre - e ainda sou - e não tinha talento para música. deus só me deu o dom de saber ouvi-la e aprecia-la. Contentava-me, então, em me lambuzar nas mega lojas de cds da Oxford e adjacências. Só a fileira de prateleiras contendo nomes de artistas começando com a letra ´A´ na HMV era maior do que a maior loja brasileira de cds. Nas minhas dezenas de passagens por Londres, minha obsessão sempre foi a busca por cultura. Na livraria Foyles da Oxford, eu perambulava pelo departamento de história. Encontrei um interessante livro de mitologia e folclore nórdicos. Folheei o livro, e logo reparei que ao lado dele havia outros sobre o mesmo tema. Olhei o preço e não acreditei: 1,99 libras (R$ 7,32) cada livro de cerca de 500 páginas. Perguntei à vendedora se o preço estava correto. Sim, estava. O baixo preço não era uma promoção, mas uma simples liquidação para se livrar do estoque, porque a editora estava prestes a lançar uma nova coleção revisada destes livros. Não tive dúvidas: comprei a enciclopédia de 16 livros contendo a mitologia, folclore e costumes de todas as civilizações da humanidade. Um verdadeiro tesouro por apenas R$ 117,12. Nesta época de muitas idas a Londres eu estava finalizando meus estudos sobre mitologia cristã, e costumava comprar muitos livros acadêmicos sobre o assunto. Na estação de metrô Marylebone há uma igreja cristã com sua livraria chamada SPCK. Nos fundos vendem-se livros usados e raros. Eu tive um enorme prazer ao procurar e lá encontrar a primeira edição, traduzida para o inglês em 1904, do livro UMA INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO, escrito em 1894, por Adolf Julicher, um alemão catedrático e teólogo, um acadêmico especializado em estudos científicos da mitologia cristã, fazendo uso da Crítica Literária e da Forma. Na parte da frente vendem-se livros novos, de todas as doutrinas religiosas, muitas das quais desafiavam a própria fé cristã. O polêmico manguaceiro, que fechou os oito cinemas que iriam exibir o filme A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO, de Martin Scorsese, em 1989, por considera-lo desrespeitoso à fé cristã, ficaria escandalizado com sua Londres libertina se lesse um livro que comprei na SPCK, chamado JESUS E A POLITICAGEM DOS SEUS DIAS, uma antologia de ensaios diversos, um dos quais descreve Jesus como um agente político, infiltrado na Palestina, a serviço dos romanos. Nas minhas andanças por Londres, eu aproveitava para comprar roupas masculinas e femininas dos anos 60 em butiques descoladas. Em Londres, você pagava – ou ainda paga – apenas 7% de imposto sobre tudo que você comprava. Você pode ter o imposto estornado. O logista preenche um formulário, descrevendo os produtos e os preços. Basta apresentar este formulário e os produtos que você comprou na alfândega no aeroporto e você recebe, na hora, a devolução dos impostos em dinheiro. Uma loja onde comprei muitas roupas não tinha o formulário. O logista me pediu para voltar na manhã seguinte. Não era possível, pois eu estava embarcando para o Brasil naquela noite. Então ele pediu meu endereço no Brasil para fazer a devolução do imposto. Não acreditei nesta história. Dei meu endereço só por educação. Duas semanas após ter voltado ao Brasil, recebi pelo correio, da Inglaterra, um envelope contendo o formulário devidamente preenchido e os impostos em notas de libras esterlinas. Estive em Londres tantas vezes e lá tomei tantos banhos de civilização que acabei esquecendo que sou brasileiro e vivo no paraíso dos ladrões.