sábado, 18 de março de 2017

UMA TRANSEUNTE NA VIDA DE UMA VAMPIRA



Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Fui uma camponesa num feudo na França, entre a média e baixa Idade Média. Nossos suseranos condenavam à morte os vassalos que blasfemassem, mas eles mesmos injuriavam a divindade sem o menor escrúpulo, até que um dia, um jesuíta, favorito do senhor feudal, proibiu-lhes de empregar o nome de Deus em suas palavras que maldissessem o Criador. Mesmo assim, eles contornaram esta dificuldade, substituindo Deus por Azul, em francês Dieu por Bleu, palavras que rimam. E foi assim que as imprecações modificaram-se: par La mort de Dieu (pela morte de Deus) passou a ser Morbleu. Sacré Dieu (Santo Deus), sacrebleu. Par Dieu (Por Deus) parbleu. par la sang de Dieu (pelo sangue de Deus) palsembleu. A criadagem que ouvia frequentemente esta última maledicência, reteve apenas o final, ou seja, sang bleu, sangue azul, e como o uso destas infâmias era privilégio dos senhores feudais, para distinguir um nobre de um plebeu os servos costumavam dizer: Cuidado ao falar, este é um sangue azul. Certa vez, aquele mesmo jesuíta, amigo do meu senhor, ouviu-me parodiar as maldições de sangue azul proferidas pela nobreza. Ele tomou aquilo não somente como injúria ao senhorio, mas também como calúnia à religião cristã. Acusou a mim e minhas seis companheiras de quarto de bruxas, convocou representantes de Santa Inquisição em Roma, e fomos todas queimadas vivas em público. Antes das chamas consumirem meus lábios, esforcei-me para gritar: Vingança aos sangues azuis! Apesar da dor indescritível provocada pelo suplício da fogueira calcinando nossos corpos, renascemos das cinzas que tinham sido espalhadas pelas plantações para servirem de esterco, sentíamos-nos diferentes, extremamente fortes, destemidas, mais vivas do que éramos, com poderes sobrenaturais, e com uma insaciável sede de sangue humano. Nossos dentes incisivos superiores cresceram e se tornaram pontiagudos. Só nos incomodava a luz do sol, uma horrível lembrança do fogo queimando e ardendo em nossos olhos. Como se estivéssemos com a mesma disposição e em sintonia, nós sete decidimos ficar sempre juntas e sair todas as noites, invadindo os aposentos de todos os nobres que encontrávamos em nossa região. Mordíamos suas gargantas e bebíamos seus glóbulos sanguíneos. Certamente, esperávamos que seus sangues fossem vermelhos, mas ao cravarmos nossos dentes em seus pescoços, jorravam de suas veias sangue azul, com agradável aroma e gosto de anis. Isso só podia ser um atendimento, não sei por parte de quem, ao meu pedido de vingança que fiz próxima da morte tão cruel e injusta. Logo toda nossa comunidade se deu conta do terror e da mortandade que espalhávamos. Passaram a nos chamar de estriges, uma espécie de morcego hematófago que se alimenta de sangue de animais e, eventualmente, humanos. As vilas feudais começaram a nos perseguir. Reuniam-se e revezavam-se em mutirões, carregando todos os tipos possíveis de armas, e, temendo-nos, sempre mantinham seus pescoços protegidos por cobertores de lã bem grossa. Nós passávamos o dia inteiro escondidas debaixo da terra, e à noite saíamos no encalço dos nossos algozes azuis para sugá-los. Os fidalgos que costumavam blasfemar contra Deus, aterrorizados, se trancafiavam todas as noites em seus aposentos, desde o por do sol até o dia nascer, dificultando nosso acesso a eles. Para saciar nossa sede, atacávamos nossos próprios pares, gente humilde do campo como fomos um dia. O sangue deles era vermelho como de todos os humanos.  O sabor não era tão bom quanto o azul. Era meio salgado, meio metálico. Tinha gosto de ferrugem, de metal oxidado. O mais importante é que sempre nos satisfazíamos e nos mantínhamos bem alimentadas por alguns dias. Aferramos-nos a este novo estilo de vida e não conseguíamos imaginar outra maneira melhor para se viver. Quanto mais tempo passava, mais gostávamos do que fazíamos, Atravessamos os séculos, nos tornamos imortais, e chegamos aos tempos modernos. A França já não tinha mais senhores feudais nem reis. Quem passou a dirigi-la foram o presidente, o primeiro-ministro e o presidente do senado. A persecução a nós, no entanto, não diminui. Ao contrário, intensificou-se. Eles passaram a usar armas de fogo contra nós, embora uma bala que nos atingisse não fizesse mal algum aos nossos corpos. Descendentes de gerações mais antigas ainda conservavam algumas superstições do passado, acreditando que podiam nos afastar com alho, ramos de roseira silvestre, crucifixos, os mesmos que nos fizeram beijar antes de fazer de nós tochas humanas, sementes de mostarda espalhadas no telhado das casas sagradas, rosários e água benta. Outros mais ingênuos, ainda acreditam que não conseguíamos pisar em chão sacro, tal como o das igrejas e templos, ou atravessar água corrente, e que espelhos colocados em portas, virados para o exterior, pudessem nos frustrar. Os chamados entendidos em vampiros diziam que a única maneira de nos matar e acabar com nossa imortalidade era cravando uma estaca em nossos corações, como se algum humano pudesse nos subjugar. Um grupo de místicos franceses chegou ao cúmulo de trazer do Haiti para a França um bando de mortos-vivos, chamados zumbis, que saíam à noite para nos caçar. Mas eles não eram páreo para nós. Nos o dominávamos facilmente. Experimentamos o sangue deles, mas era horrível, coagulado de cor preta, de gosto putrefato. Acabamos com todos estes zumbis, mas eles nos trouxeram um problema. acabaram chamando a atenção de um bando de demônios, soldados do diabo Lúcifer, que vieram ao nosso encontro e nos disseram que nutriam simpatia por nossa espécie e por nossa causa. Todos eles se identificavam por nomes: Belial, Leviatã, Belzebu, Legião, Pazuzu, Baal, e Satã. Nos convidaram a juntar-se a eles, mas com a intuição que adquiri como vampira, suspeitei que, na verdade, eles queriam nos escravizar. Recomendaram-nos uma conversão em demônios que, segundo eles, eram muito mais poderosos que os vampiros. Ofereceram-nos seus sangues. Eu fui eleita, naturalmente, pelas minhas outras seis companheiras, líder do nosso pequeno grupo. Tomei a dianteira e provei do sangue de um dos demônios e vomitei. Era ruim como a bílis, um líquido esverdeado, viscoso e amargo. Tentei persuadir os demônios que, embora os respeitássemos, eu e minhas seis companheiras vampiras preferíamos seguir nossas novas vidas como começamos, sozinhas e independentes. Queríamos descobrir até onde podíamos chegar antes de fazer alianças com outras criaturas. Imediatamente notei que os demônios não gostaram de minha decisão, se sentiram desafiados e não tive dúvida que eles realmente tinham muito mais recursos que nós, e estavam prestes a nos dominar por completo, entrando em nossos corpos. De repente, um enorme clarão de luz branca e ofuscante nos envolveu a todos, de tal modo que ninguém enxergava ninguém. Lenta e gradativamente a luz foi se dissipando, até reduzir-se à figura de uma mulher de túnica branca. meia transfigurada, e com os cabelos cobertos por um véu. Nesse momento, todos os demônios haviam desaparecido. A mulher se dirigiu a nós como sendo a Virgem Maria, mãe de Deus na terra, e nos disse:
Minhas filhas, julgadas e condenadas injustamente e levadas a este infortúnio atormentador. Não pensem que Deus, nosso pai, descuidou-se de vocês. Ele sabe que vocês foram vítimas e as perdoa pelo que fazem. Ele me enviou para lhes dizer que, ao invés do sangue que vocês extraem de suas irmãs e irmãos e que os levam à morte, vocês devem beber da água viva que flui e comunica-se pela humanidade do Cristo. Eis que o Cristo lhes oferece um sangue transparente, inodoro e insípido. Aquela que beber da água que Cristo oferece não terá mais sede. Quem tiver sede que vá ao Cristo e desaltere. Como do rochedo de Moisés, a água jorra de seu seio e, na cruz, a lança fez correr sangue e água do seu flanco. Em nome do Pai, eu vos ofereço Fons Vivus, Ignis Caritas, Alitissimi Donum Dei. O Pai sendo a fonte, o Filho é denominado rio, portanto vocês beberão o espírito. Aquela que bebe desta água viva participa antecipadamente da vida eterna.
Ouvi aquela mulher atenta e respeitosamente, mas sua pregação só serviu para arraigar mais ódio em nossos corações, pois foi em nome desta água benta, e do crucifixo simbolizando a morte deste Cristo, que nos tiraram a vida, sem que tivéssemos cometido quaisquer pecados, quanto muito remedamos imprecações desavisadas dos aristocratas que diziam acreditar em Deus, mas constantemente blasfemavam-no. A mulher santa se foi e nós retomamos nossos caminhos e destinos. O cerco a nós aumentava cada vez mais. Nosso grupo estava marcado. Depois de muitos séculos, decidimos nos separar, pois em turma nos tornávamos presas de identificação mais fáceis. Algumas partiram para o extremo Oriente. Outras para a África, para a América do Norte e para o Leste Europeu. Eu já resistia à luz do sol e já podia viver não somente da noite, mas do dia também. Decidi ir para um país tropical, de clima mais quente. Mudei-me para o Brasil. Continuei solitária como sempre fui com minhas companheiras, principalmente nos tempos que tínhamos que passar 12 horas dormindo a sete palmos. Meu desejo imperioso de seguir ingerindo o líquido dos homens continuava inalterado, e levava-me a satisfazê-lo com mais frequência. Certa noite adentrei uma casa particular e no segundo andar deparei-me com um casal dormindo pacificamente. Fui para cima da mulher que tinha o rosto voltado para o meio da cama. Assim que me aproximei dela, ela acordou, virou-se para mim, encarou-me firmemente, e com uma voz meiga me perguntou:
Posso ajudá-la?
A mulher não estava nem um pouco assustada com minha súbita presença. Não sorria e nem amarrava a cara. Tinha um olhar imparcial e uma beleza excêntrica, incomum. Seu rosto era branco como leite, levemente brilhante, meio perolado, e o resto era todo negro: cabelos, olhos, longos cílios, até a camisola, e o mais inusitado: ela usava batom negro para dormir, e em excesso, pois uma parte dele lhe escorria pelo seu queixo. Eu nunca falava com minhas vítimas, mesmo que elas me perguntassem algo. Mas no caso desta mulher uma força estranha me levou a indagar-lhe:
Porque a senhora dorme de batom, ainda mais de cor preta, tão mórbida?
Para agradar meu marido!
O marido dormia um sono profundo. Roncava. Devia ser o tipo de maníaco que adorava fantasias sexuais. O fetiche dele parecia bem original. Nada de roupas de couro, salto alto, bota de cano longo, lingerie de seda, cinta-liga, meia 7/8, espartilho ou qualquer tipo de uniforme, como de enfermeira, colegial, marinheira, empregada ou policial. ele devia se excitar somente com toda aquela pretidão, e o batom preto devia ser o auge de seu tesão. Pensei: uma mulher que se submete desta forma merece uma boa e profunda mordedura:
Sim, você pode me ajudar, sua vadia. Quero seu sangue!
A mulher nada falou. Calmamente desnudou e esticou o seu pescoço para mim. Dei-lhe uma mordida mais forte que o normal, para doer muito, e, para meu espanto, a mulher manteve-se calada e tranquila, e ainda verteu sangue amarelo, suculento, doce, com gosto de pêssego, uma de minhas frutas favoritas quando era mortal. Fiquei extasiada e cismada. Afinal, que tipo de gente é essa com sangue amarelo? A mulher virou-se para mim e perguntou com a mesma brandura:
Por que você está tão surpresa assim comigo e com meu sangue amarelo? Além do sangue humano vermelho, você já experimentou sangue azul, verde e preto, e já lidou com vários tipos de criaturas: humanos, vampiros, zumbis, demônios e santas virgens.
Mas como você sabe tudo isso sobre mim, Você nem me conhece?
Eu leio a mente das pessoas!
Você é médium?
Não, não sou. Sou de outro mundo!
Claro! Todas as pessoas que têm percepção extrassensorial se acham especiais.
Não sou especial. Sou de outro planeta!
Você está me fazendo rir pela primeira vez em séculos, sabia? Vocês que têm um pouco de paranormalidade gostam de aparecer e impressionar as pessoas. Mas saiba que seu poder é muito limitado comparado ao meu. Certamente você está esperando que eu te pergunte de que planeta você veio, não é isso?
Vim de um aglomerado de sistemas solares desta galáxia onde os planetas são habitados apenas por mulheres.
É mesmo! – falei com ironia e resolvi brincar com ela – E como vocês procriam?
Através de clonagem!
Oras, clonagem! Como pude me esquecer disso? A maneira mais simples de procriação. E dispensa o sexo masculino. Até os humanos já fazemos isso. Diga-me uma coisa: Todas as alienígenas são tão humanas assim como você? Embora eu reconheça que você tem uma beleza muito peculiar.
Sou uma alienígena transeunte!
Oras, que nome original! Você pode me dar o privilégio de saber o que é uma transeunte?
Transeuntes são alienígenas que deixam seus planetas de nascença e perambulam pela galáxia sem, necessariamente, um destino e um lugar fixo para residir, e procuram viver de prazeres bem simples, típicos de espécimes bem atrasadas e rudimentares. Eu escolhi vir para cá, passar por humana, casar, constituir uma família, ter filhos...
Filhos? Como? Você acabou de dizer que procria somente através de clonagem! Vocês, médiuns, que gostam de nos esnobar, adoram humilhar seus semelhantes, gente comum, mas sempre caem em contradição. O que você faz aí com o maridão dado a fetiches e não para de roncar?
Nós não gostamos de fetiche. Eu sou assim mesmo, exatamente como você está me vendo. A pessoa que você vê em mim é a adaptação mais próxima da condição humana que alcancei. Eu faço amor com meu marido, engravidei e tenho dois filhos, uma menina de sete anos e um menino de 9 anos.
Pois é, se você consegue procriar somente através de clonagem, como você pode engravidar?
Dominique, assim te chamo porque leio seus pensamentos e sei que você é francesa e esse é teu nome. Dominique, sou uma pessoa extremamente comum. Só mesmo uma cientista do meu planeta poderia te explicar como minha gravidez é possível aqui em seu planeta.
Então estamos às voltas com o velho dilema que resolvemos com o comodismo de sempre. Não sabemos como a vida surgiu em nosso planeta, então inventamos um ser supremo chamado Deus e atribuímos tudo a ele. E ultimamente estamos jogando o problema no colo de supostos alienígenas. Foram eles que nos criaram, mas não nos interessa saber quem os criou. Pronto, problema resolvido! E seus filhos, são extraterrestres, humanos ou meio a meio?
A combinação do meu DNA com o DNA humano só permite que nasçam humanos, normais, mas híbridos. Nunca poderão ter filhos. Morrerão como todos humanos morrem, mas terão uma vida feliz. E eu seguirei em frente.
O que é seguir em frente?
Sou imortal, mas meu marido e meus filhos não são. Quando eles morrerem, procurarei outro humano para casar e formar uma nova família.
Simples assim? Com tanta frieza e nenhum sentimento afetivo? Nenhuma saudadezinha? Você é adepta do adágio: rei morto, rei posto?
Nossos sentimentos são muitos diferentes dos sentimentos humanos. Para você começar a entender teria que viver alguns milhares de anos em meu planeta.
Qual é o seu nome?
Meu nome humano é Maria. Maria Madalena!
Só poderia ser! Médiuns cristãos adotam nomes bíblicos. Aposto que você é espírita. Qual é o seu nome em seu planeta, e também o nome de seu planeta.
Minha família humana é cristã, mas não tenho religião. Aliás foi aqui na terra que aprendi pela primeira vez esta abstração que vocês chamam de religião. E são tantas! Quanto aos nomes, não os escrevemos e nem os verbalizamos. Você jamais entenderia. Não usamos uma linguagem como os humanos. Emitimos sons com as cordas vocais. Os humanos têm dois pares de cordas vocais. O par superior é responsável pela vocalização, mas há humanos, como os Tibetanos, que conseguem vocalizar os dois pares ao mesmo tempo, o superior e o primário, e isto significa que eles conseguem falar dois idiomas humanos simultaneamente. Em nosso planeta nos comunicamos através de milhões de sons vocalizados por cerca de milhões cordas vocais, tal qual a quantidade de neurônios em seus cérebros, mas diferentes  das cordas vocais de vocês. Dominique, acho que já falei demais sobre mim e não estou aqui para isso. Sei o que você veio fazer aqui e posso te ajudar mais se você quiser.
Ótimo, faça uma demonstração de mais alguns truques de paranormais.
Quer experimentar outros tipos de sangue?
Oras, por que não!
Novamente, a mulher serenamente virou-se e ofereceu seu pescoço para mim. Dei-lhe uma boa mordida, e, para minha surpresa, de suas veias jorrou sangue roxo, com sabor de açaí. Inacreditável! Ela incentivou-me a continuar mordendo-a, e desta vez o sangue era alaranjado, com gosto de tangerina, muito saboroso. Como ela consegue fazer isso? Ela não parava de me oferecer seu pescoço. Experimentei mais de 30 tipos de sangue, de cores diferentes, cada um com gosto de uma fruta, todas deliciosas. Preto com gosto de jabuticaba, verde com gosto de abacate, vermelho com gosto de morango, rosa com gosto de romã, cor de vinho com gosto de uva niágara e muitos outros. Meu Deus, e fazia séculos que eu não proferia tal imprecação, como isso é bom!. Vou querer mais disso.
Maria, tem mais gente aqui como você capaz de produzir tantos tipos sanguíneos tão deleitosos?
Tem muitas, mas sempre que você sentir vontade venha me visitar a qualquer hora do dia ou da noite.
Não sei como você faz isso. O que importa é que é muito gostoso. Portanto, aceito seu convite. Mas diga-me, por que você está fazendo isso por mim?
Gosto muito dos humanos. Este planeta prima pela heterogeneidade. A diversidade aqui é riquíssima. Tem de tudo para todos os gostos. Só quero retribuir a você e outros humanos o prazer que este planeta me proporciona.
Já que você se dispõe a dar explicações sempre que lhe faço uma pergunta, diga-me outra coisa: como foi possível para mim morrer, renascer com poderes sobrenaturais, tornar-me imortal e não ter vontade nenhuma de comer, mas apenas ter sede de sangue humano?
Dominique, em meu planeta eu sempre tive uma quantidade infinita de perguntas, mas nenhuma das cientistas que estão hierarquicamente muito acima de mim jamais me respondeu uma única questão sequer. Então me cansei de tudo. Cansei da monotonia e do exclusivismo dos conhecimentos científicos e avanços tecnológicos de minha raça tão sectária e resolvi ir embora, me tornar uma transeunte. Vim para cá para viver de simples prazeres humanos: comer, beber, fazer amor, brincar com os filhos, nadar no mar, dormir muito e sonhar. Sou muito feliz aqui, assim como você é muito feliz na sua nova condição de humana ressuscitada, vampira e imortal, Cada uma à sua maneira, ao seu gosto.
E o que é felicidade para você?
É um alívio. É como se livrar de um peso enorme que aprisiona o corpo com uma gravidade mil vezes maior que a gravidade da terra.
Dá para ser mais específica do que isso?
Talvez só por analogia. Posso fazer uso de uma passagem de uma das várias mitologias humanas, uma cristã. Seria sentir-se como Maria Madalena depois que sete demônios saíram de seu corpo.
E no seu planeta? Há algum tipo de analogia que se aproxima desta terrena?
Você não entenderia.
Tente.
Está bem. Entre os humanos há pessoas com dupla e múltipla personalidade. Agora, imagine uma pessoa tendo que viver com milhões de personalidades ao mesmo tempo. Isto é factível quando a pessoa é imortal e tem toda uma eternidade pra viver cada uma delas até esgotá-las. Ainda assim, é preferível viver com uma única perpetuamente, como comecei a viver aqui na terra. Entendeu?
Não.
Então, como sua amiga que a partir de hoje me considero, recomendo-lhe cuidar das coisas mais importantes de seu mundo, em vez de ater-se às ninharias do meu.
Hum, já está aprendendo a filosofia brega e barata com os humanos.
Quer uma saideira?
Está me mandando embora?
Claro que não! Presumo que você não vai dormir aqui.
Não mesmo. Não preciso mais de sono, e gosto de me alimentar somente noite adentro.  
Morda meu pescoço e prove um sabor que não existe na terra.
Está bem. Meus deus, nossa, outra imprecação desavisada. Nossa, que delícia! Que fruto tão sápido é esse? E que sangue é este, incolor, translúcido, invisível!
este é o sangue que eu carregava em minhas veias no meu planeta.
Isto é mesmo coisa de outro mundo, mas ainda há algo em você que me intriga. Você diz que lê pensamentos, muda a cor e o sabor de seu sangue quando quer, mas, sendo estéril em seu planeta, não sabe como consegue engravidar na terra.
Estes dons que você descreveu só me são possíveis colocar em prática nos humanos. Mesmo assim, de onde venho também há mais mistérios entre a abóbada celeste e o solo que pisamos do que pode sonhar nossa vã superioridade tecnológica sobre vocês. Não se aflija, Dominique, com ou sem desgraça e felicidade, esta catarse teatral de nossas existências em qualquer canto do universo, ao lento cair do pano das mais surpreendentes revelações, sempre nos deixará, como objeto de meditações, sangues e frutos doces e amargos, um interminável corolário de incertezas. Vá agora, e volte sempre que quiser. Quando você encontrar a próxima mulher para matar sua sede, assobie um trecho do noturno de Chopin para ela, sem dizer-lhe o que é ou de quem é, pare de repente, e interrogue-a somente com os olhos antes de sorver seu sangue. Assim, ela sobreviverá.