sexta-feira, 5 de maio de 2017

O PAÍS DO MEIO. PARTE 1: WHEN IN ROME DO AS THE ROMANS DO


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


De 1995 a 1998 fui várias vezes à China. Dizem que nos últimos 20 anos mudou muito esta nação que, acredito, será a maior potência mundial, talvez em mais 25 ou, no máximo, 50 anos. Até mesmo alguns filmes americanos de ficção científica, futuristas e sobre viagem no tempo, como Looper, ambientado nos EUA de 2044, e no Zhōngguó de 2074, profetizam, A China é o futuro. Se um dia eu lá voltar, definitivamente não mais a trabalho, não espero coadjuvar o mesmo seriado de hilariantes episódios de 22 anos atrás, que avançaram em 5  temporadas, e impeliram-me, prazerosamente, a reduzi-los a spoilers, palavra que está em voga, embora voga esteja fora de moda. Guangzhou, o Cantão dos portugueses, foi o palco de minha Avant Première. Tive um incômodo ao chegar, pequeno para esta grande terra de desprezíveis inconveniências. Minha mala ficou lá em Bangkok. A companhia aérea prometeu-me entrega-la no hotel em dois dias. Mais tarde, eu constataria que esta promessa em nada se parecia com os convites da boca para fora que costumamos receber por aqui: Passa um dia lá em casa. O hotel que reservei era bem perto do aeroporto. Dava para ir a pé, mas, como chovia torrencialmente, peguei um táxi, e me pegou o único vivaldino que encontraria em meio a mais de um bilhão de simplórios e meigos olhos oblíquos. Ele me cobrou 10 dólares para percorrer menos de 500 metros. Mau pressentimento: Bagagem extraviada e taxista explorador. Eu tinha compromissos no dia seguinte, e precisava trocar de roupa e comprar produtos de higiene. A recepcionista do hotel recomendou-me um shopping ali perto. Caminhei umas quatro quadras para chegar ao pequeno prédio de dois andares. Lá tinha tudo que necessitava. Só não sabia se a calça servia. Andei pelos corredores à procura de um provador, mas não achei. Pedi ajuda a uma jovem que parecia ser uma vendedora. Ali ninguém falava inglês ou português, e eu não falava nem mandarim nem cantonês. Aparentemente, ela entendeu minhas gesticulações. Anuiu com a cabeça, deu explicações em chinês, mas não apontou para nenhum lugar. Tive a estranha sensação de que ela deveria estar dizendo algo assim: você deve enfiar uma perna de cada vez, erguer a calça até a cintura e abotoá-la. Continuei perambulando, olhando em todas as direções. Voltei à seção de roupas masculinas, e lá no final do corredor avistei um chinês escolhendo uma calça. Este, com certeza, poderia me mostrar onde ficava a cabine privativa masculina. De repente, ele tirou as calças e ficou só de cueca e, tranquilamente, experimentou vários modelos, enquanto o vaivém de clientes e vendedores, homens e mulheres, ignorava sua presença. Comecei a me dar conta de que a explicação daquela vendedora não era tão estranha como pensei. Aquela cena me fez lembrar do provérbio americano: When in Rome do as the Romans do. Então, lá estava eu, num espaço público, de camisa, meia, sapato e samba-canção, taking my time, sem nenhuma pressa, para encontrar a calça que melhor se ajustava ao meu corpo. Eu só chamava a atenção por ser o único ocidental naquela loja de departamentos. Só olhavam para meu rosto. Todos já tinham visto muitos homens só com peças íntimas. Fiquei imaginando onde as mulheres provavam roupas de baixo e de cima, calcinhas, sutiãs, vestidos, saias e blusas. Descobri, só por meio de silogismo aristotélico, que o shopping não tinha provadores nem banheiros. Ficar só de cuecas foi a premissa menor. A maior foi outro chinês, ao meu lado, provando uma sunga num piscar de olhos. Usei a razão porque qualquer tipo de gestual indagando a localização de uma toalete poderia ser arriscado. Era muito cedo para me empolgar com a liberdade de expressão corporal, desnuda por incompleto, numa cultura que eu estava só começando a sondar. Difícil foi resistir à tentação de ficar fazendo hora na seção feminina, esperando, inescrupulosa e ingenuamente, testemunhar o que eu estava cansado de ver, em plena luz do dia, em alguns recônditos do Horto Florestal perto de casa e nos bancos do Hyde Park de Londres. A fadiga, por conta da longa viagem de 22 horas, me alertava que o dever estava a me chamar. Cheguei ao hotel, exausto, desabei na cama, dormi uma boa noite de sono, e acordei muito disposto para meu primeiro dia de trabalho no país do meio. Este é o significado de China em chinês.