domingo, 3 de setembro de 2017

HUMPHREY BOGART

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98 Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Estávamos procurando um lugar para nos abrigar do sol escaldante, aguardar o amanhecer, e rumar bem cedo para a Rota 66, para ver Casablanca. Passamos a noite num moquiço balangando como muxiba acima de uma loja de artigos de umbanda. Não pregamos os olhos. Fizemos amor quatro vezes em pouco mais de doze horas, um recorde desde os nossos tempos de adolescentes. Nos intervalos entre as transas, fumamos muito baseado. Dizem que fumar é morrer um pouco. Nós, ao contrário, passando da meia-idade, nos sentíamos redivivos. Muitas coisas mudaram em nossas vidas desde aquele mistério no cemitério da quarta parada, quando meu celular foi enterrado junto com meu amigo e passou a fazer ligações por conta própria. De debochado e incrédulo passei a ser um homem desconfiado e medroso. Ironicamente, somente o anarquismo mental da Célia não permitiu que eu me desequilibrasse emocionalmente por completo. É impressionante e inexplicável a súbita e radical mudança de comportamento e pensamento de uma mulher que era tão ciumenta e rabugenta. Ela voltou à sua juventude com outra mentalidade, e embora se mantivesse sempre fiel a mim, gosta de dizer que é uma garota-pisso, daquelas que trepa com qualquer um, como se dizia nos anos 60, veste-se como uma hippie são-franciscana, invariavelmente com jeans desbotados, bata indiana multicolorida, flores nos cabelos, pulseiras e colores sobrepostos, bottoms de paz e amor e pés descalços. Cantarola dia e noite ao som dos The Byrds (Mr. Tambourine Man - ela pede ao homem do pandeiro para tocar uma música para ela – também conhecido como o fornecedor de drogas), Lovin´ Spoonful (Daydream - sonha acordada o tempo todo) e The Mamas & The Papas (Creeque Alley -  estamos sempre chapados e o único que não emagrece sou eu). Seu apetite sexual é insaciável e não passa um dia sequer sem puxar um fumo e beber uma meia de seda (leite condensado, licor de cacau e conhaque batidos no liquidificador). Quer ser chamada de Sally, nome de uma música do The Who (Sally Simpson), e só me chama de Ernie, outro personagem da ópera rock Tommy do The Who de 1969. Como meu nome é Bernardo, pensei que fosse me rebatizar de Ben ou Bernie, mas ela prefere os nomes psicodélicos. De minha antiga mulher, só sobrou uma pitada de romantismo anacrônico que não combina com seu liberalismo atual. Ela quer rever todos os filmes com atores americanos dos anos 40 como Humphrey Bogart, Cary Grant, Katharine Hepburn, Bette Davis, Greta Garbo, Lauren Bacall e uns outros cinquenta. Foi dela a ideia de tirarmos uma semana de férias e percorrermos mais de mil quilômetros desta rota submundista e circense, que mais parece um trem  fantasma, e onde, segundo ela, há um vilarejo com um cinema retrô exibindo um festival de filmes com Humphrey Bogart. Vira e mexe, ela me vem com umas tiradas em inglês. Não sei onde ela aprendeu a língua com tal fluência. Ela diz que é autodidata e disso já nem duvido mais. Ela passa muitas noites em claro. Também não sei de onde ela tira tanta energia. Ela me pediu para ir embora antes da aurora, com um pacau aceso. Ela sempre divide seus bagulhos comigo. Se demoro para devolver o boró ela sempre me vem com essa: Don´t bogart that joint, my dear, pass it over to me. Caímos na longa vereda, dominada pelo cerrado e salpicada de arraiais, onde assistem populações mescladas e todos os tipos de biroscas e espeluncas. Passamos por um rancho de calangos, bancas de carnes negras, aquelas expostas ao sol e cobertas de moscas, um posto de gasolina com uma bomba movida a manivela, feira de índios redutores de cabeça e vários puteiros e pardieiros esquisitos. Logo adiante vi uma placa com o nome Rota 999. Pensei ter pego a entrada errada. Parei no acostamento e desci para conferir. Descobri que algum idiota virou a placa de ponta cabeça e ainda acrescentou à mão um terceiro número seis. Em volta da placa havia galinhas pretas sacrificadas, velas vermelhas, pratos de farofa, charutos, pinga e outras bugigangas. Levei a maldita para a Célia. 
- Onde você arrumou esse marafo, Ernie?
- Tirei de uma macumba.
- Cacilda, esse deve ser dos bons. Would you like a hit?
- Você não acha que é muito cedo para beber, Sally? Você está queimando fumo desde ontem à noite.
- Deixa de ser careta, Ernie! Lá não tem frango?
- Tem galinha morta, mas cheirando mal. Deve estar lá há dias.
- Afinal, estamos no caminho certo?
- Sim.
- E por que aquela placa 999?
- Coisa do demônio. Inverteram a placa, como satanás faz com crucifixos nas paredes, e ainda acrescentaram mais um seis para parecer o número da besta, o 666.
- Que é isso, Ernie? Você sempre foi ateu. Tá ficando supersticioso agora?
- Deixa pra lá, Sally.
Seguimos viagem e em poucos metros o motor da lambreta começou a ratear.
- Está vendo, Sally? Isso só pode ser coisa do tinhoso porque mexi na macumba e arrumei a placa.
- Não é falta de gasolina?
- Não! O tanque está pela metade.
Menos de um quilometro mais adiante, o motor pifou de vez. Tivemos que continuar a pé, puxando a maldita motoneta.
- Sally, você que pesquisou tanto para fazer esta viagem deve saber onde se acha uma oficina neste fim de mundo, não sabe?
- Claro que sei, Ernie! Seja otimista. Vamos curtir a natureza,  queimar papel de galo e aproveitar o tempo que perdemos. Uma oficina logo aparecerá. Além disso, caminhar também faz bem para a saúde e faz parte do nosso programa.
Se eu dissesse que a Célia levava jeito para médium, ninguém na família acreditaria. Um minuto depois de caminhada, a Célia exclamou:
- Lá esta ela!
- Aquilo é uma oficina? Você leu o que está escrito na parede?
- Se eles consertam até disco voador, arrumar uma moto deve ser a maior moleza para eles.
-Você deve estar de brincadeira, Sally. Disco voador não existe. Acho que você está abusando da erva.
- Que é isso, Ernie? Fumo e cheiro numa boa, estou feliz e tão bem como nunca estive antes de dobrar o cabo da boa esperança. Agora me diga uma coisa: se alguém lhe dissesse que o celular foi enterrado junto com o defunto e que ele começou a fazer chamadas para a casa do seu dono você acreditaria?
- Você tem razão. Não acreditaria até acontecer comigo.
- Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay. We never know, Ernie. Accidents will h...
- Está bem, Sally, chega de provérbios. Vou bater na porta.
A porta rangeu como nas casas mal assombradas, abriu uma fresta e dela despontou a cabeça de um anão, de boca aberta, mostrando dentes navalhados, e vociferou:
- O que vocês querem?
- Boa tarde. Aqui é uma oficina mecânica, não?
- O que você acha?
- Acho que é.
- Então por que pergunta?
- É que não tem nenhuma placa, só este aviso engraçado sobre conserto de disco voador.
- Qual é a graça? Tá rindo do quê? Tenho cara de palhaço? Acha que sou um Umpa-Lumpa e que aqui é fábrica de chocolate? Cai fora!
-Espere, por favor! Não quis ofender. Desculpe-me esta infeliz observação. Vocês consertam motos?
- Sim, mas a oficina está cheia. Volte daqui a 3 meses.
- Espere, por favor. Minha lambreta pifou e não tenho onde ficar. Por favor, dê uma olhada nela. Não deve ser nada. Não vai te tomar tempo.
- O que há com esta bosta caindo aos pedaços?
- Você pode não acreditar, mas viemos de longe até aqui, e ela estava funcionando muito bem. De repente, o motor começou a falhar até parar.
- Está bem, motoqueiro de meia-tigela.  Entre pela porta da garagem do outro lado da oficina.
- É por lá que entram os óvnis?
- Está querendo tirar sarro com minha cara?
- Não, de jeito nenhum. Desculpe-me mais uma vez. Perguntei só por perguntar.
- Os discos entram por cima.
- Por cima? Como?
- Você está mesmo querendo tirar uma com minha cara? Por onde entraria?
- Meu Deus, desculpe-me de novo, perguntei só para entender, e não para ofender. É claro, os discos voadores voam, já diz o nome. Eles entram pelo telhado?
- Temos uma abertura no teto da oficina só para eles.
- E o piloto alienígena, como ele é? Se parece com nós?
- Não tem ninguém dirigindo o disco voador.
- Ninguém? Como?
- Cara, você é maluco? Tem algum problema? Não lê jornal, não vê TV, não navega na internet? Nunca viu um disco voador?
- Não, não tive este privilégio. Dizem que a gente vê disco voador uma vez na vida e outra na morte
- Cara, você parece ser de outro planeta. Os discos voadores estão em toda parte. Você já ouviu falar num troço chamado controle remoto?
- Claro!
- Você nunca viu um drone, voando por aí, sem piloto, tirando fotos, jogando bombas e o escambau?
- Claro que já vi.
- Então, como você imagina que uma civilização muito mais avançada que a nossa manobra suas naves? Você acha que eles empinam os discos com linha como se fossem pipas?
- Claro que não. Diga-me uma coisa: você já viu um alienígena?
- Nunca! Ver para quê?
- Quando os discos chegam aqui como você sabe onde está o defeito?
- Quando o disco chega e aterrissa, uma luz fluorescente se acende na parte com defeito e pisca palavras tais como: Acionamento de Invisibilidade Instável.
- Em português?
- É lógico, seu idiota. Se eles estão no Brasil precisam saber português!
- Como você aprendeu a consertar discos voadores? Como você os atraiu? E, principalmente, como eles te pagam?
- Espera aí, cara. Você está fazendo perguntas demais. Tá querendo roubar meu negócio? Vamos dar uma olhada nesta sua geringonça. E preste atenção: vou fazer algo que não costumo fazer para ninguém. Vou deixar você e está palhaça entrar lá dentro e...
- Epa, manera aí, Umpa-Lumpa. Palhaça é tua mãe...
- Seu anão, não a leve a mal. A Sally está embriagada e não pensa muito para falar.
- Eu bem que percebi que vocês são completamente matusquelas e drogados. Leva logo esta porcaria lá atrás, e entrem logo pela porta da garagem, antes que eu mude de ideia. E você, quenga, cuidado com sua língua.
- Quenga é sua mãe, seu anão filho da puta. Vá se fuder!
- Qual é seu nome, cara?
- Ernie.
- Ernie, esta piranha não entra. Só você, entendeu?
A Sally já ia soltar outro palavrão. Corri e tapei a boca dela.
- Deixe-a entrar comigo, por favor. Prometo que eu a controlo. Se ela falar mais um palavrão, você pode nos expulsar.
- Está bem. Vamos acabar com isso logo. Você já torrou o saco por um ano.
Sussurrei no ouvido da Sally:
- Sally, não fale mais nada, tá? Fique na sua. Essa gozação sobre conserto de disco voador logo perde a graça. Deixa o anão falar a bobagem que quiser. Se ele consertar nossa lambreta, está bom demais. E disso que precisamos. Agora, por favor, diga sim com a cabeça e eu tiro a mão de sua boca.
Sally meneou a cabeça para frente. Fomos até a parte de trás de oficina. A garagem estava aberta, com o anão na porta nos esperando. Entramos e ficamos petrificados, como a mulher de Ló, transformada em estátua de sal, por desobedecer a ordem dada pelos anjos e ter olhado para trás para ver a destruição de Sodoma e Gomorra. Minha extrovertida e atirada Sally, dado a trautear, de conversar com estranhos pelos cafés, e passear à noite por ruas desertas, pendurou-se em meu braço, arregalou os olhos, congelou e emudeceu. Diante do que meus olhos esbugalhados testemunhavam, aquele sinistro celular que ligava do mundo dos mortos imediatamente desabou do alto do pedestal dos mistérios entre o céu e a terra e foi parar onde deve estar até hoje: a sete palmos. Aquele biango mixuruca por fora, menor que um barracão de canteiro de obras, tinha, por dentro, outra dimensão. Maior que cinco hangares de Boeing. Completamente aturdido, vi, deitados no chão, cinco discos voadores, de formatos e diâmetros variados, entre quatro a dez metros cada um. Dois deles eram exatamente como aparecem no folclore ufológico: duas bacias emborcadas e prateadas. Um era ovalado, preto perolado. Outros dois tinham formas e cores esdrúxulas: cilíndrico e fosforescente, e triangular, de coloração indefinida, aquela que chamamos de burro quando foge. Espalhados por todos os cantos do gigantesco galpão trabalhavam ativamente, pelo menos uns vinte anões. O anão chefe pegou minha lambreta e gritou:
- Yelchin!
- Sim, chefe!
- Dê uma olhada neste trambolho e vê o que dá para fazer.
- É pra já, chefe.
Embasbacado e gaguejando fui até o anão chefe.
- Você não me disse seu nome ainda.
- Você não perguntou, imbecil. É Tuffy. O que houve com sua  matusquela? Ela está pálida e estática que nem uma múmia?
- É pura emoção, Tuffy. Ela é muito sensível e se comove com extrema facilidade. Por acaso você tem algo para destravá-la? 
- Tenho. Dunga!
- Sim, chefe.
- Traga um pouco daquele cacaréu que encontramos dentro do disco pretinho.
- É pra já, chefe.  
O Dunga trouxe algo parecido com uma pílula, meio esverdeada. Entregou-a ao Tuffy,  e ele me pediu para enfia-la na goela da Sally.
- Tuffy, isto aqui não é perigoso? Você já tomou?
- Perigoso é o fumo que sua quenga puxa. Não tem erro. Já tomei. É tiro e queda.
Custei para fazer a Sally tomar aquele estranho comprimido. Assim que ela o engoliu, teve um sobressalto, como um drogado que leva uma injeção de adrenalina direto no coração para não morrer de overdose. Ela parecia não se lembrar de que esteve vários minutos paralisada. Já estava irradiante e falante novamente:
- Nossa Senhora de Marijuana! Que negócio é este?
- Estamos na oficina, Sally.
- Putzgrila! Não pode ser! Essa oficina está viajando no LSD!
- Tuffy, como você explica o tamanho aqui dentro comparado ao de fora?
- Não tenho explicação. Quando os discos começaram a chegar, o espaço aqui foi aumentando gradativamente. Isso é coisa deles.
- Chefe! Estamos prontos para testar o pratinha.
- Mande todos se prepararem, Nosey. Ernie, você e sua espantalha devem tiram os sapatos e...
- Puta que pariu, este anão continua me xingando de graça. Vai tomar no seu c...
- Dona boqueira, ou você se retrata, ou te dou um pé na bunda pra fora daqui. 
- Se acalme Sally, eles já estão consertando nossa lambreta. Vamos fazer o que o Tuffy nos pede, está bem?
- Se este anão me xingar mais uma vez eu que vou dar uma porrada na fuça dele.
- Tuffy, deixa pra lá, por favor. Você nos pediu para tirar os sapatos. Para quê?
- O Nosey consertou o disco prata que estava com problema no dispositivo antigravidade e agora precisa testar para ver se está funcionando direito. Você e sua chincheira devem calçar estes sapatos magnetizados e se posicionarem em cima destas chapas de metal no chão.
A Sally já estava soltando outro palavrão. Tapei a boca dela rapidamente. O Tuffy me entregou uma corda e uma mordaça e me pediu para imobilizar a Sally. Na hora, achei um exagero e até me indispus com o ele. Só depois do teste entendi que ele não estava retaliando, mas, ao contrário, fez aquilo para o próprio bem da Sally. Ela esperneou e jurou com os olhos que iria esganar o anão. Ele nos ajudou a calçar os sapatos e nos colocou sobre a chapa de metal. Ficamos literalmente grudados. Não podíamos dar nenhum passo. Em seguida, o Tuffy  deu sinal ao Nosey para iniciar o teste. De repente, o disco prata começou a flutuar. O ambiente todo estava com gravidade zero. Os outros discos, alguns carros, motos e bicicletas, assim como bancadas e móveis estavam todos ancorados ao chão com correntes. Somente algumas ferramentas estavam soltas e flutuando. Eu e a Sally estávamos atônitos ao ver tudo aquilo acontecendo diante de nossos olhos. O que há de mais imaginável ainda estava por acontecer. O Tuffy, calçando um sapato de ferro sem imã, mas pesado o suficiente para mantê-lo preso ao chão, veio até nós, desamarrou a Sally, tirou nossos calçados, nos deu um empurrão pelas pelas costas e gritou:
- Saiam voando, seus matusquelas! 
Flutuamos pelo recinto, e experimentamos a incrível sensação que os astronautas têm no espaço sem gravidade. Voávamos para lá e para cá como pássaros. A Sally parecia uma criança. Dava cambalhotas, piruetas, ria sem parar, de tanta alegria. Ficamos à deriva uns cinco minutos. O disco de prata começou a girar em torno de si, sem um barulhinho sequer. Aliás, o silêncio no galpão era absoluto. Acho que é isso que dizem que os discos provocam quando estão perto de nós: o som de silêncio. O Tuffy nos pediu para descermos e ficarmos sentados no chão porque a gravidade estava prestes a voltar. O enorme teto solar se abriu e o disco saiu como um rojão, numa velocidade alucinante. As ferramentas que estavam suspensas caíram imediatamente. O Tuffy falou com um de seus funcionários:
- Brainy, recolha tudo que está espalhado pelo piso e coloque no lugar.
- É pra já, chefe!
Em seguida, Tuffy falou com o anão que consertava nossa lambreta.
- Yelchin, esta porra não está pronta ainda?
- Sim, chefe, quando o pratinha começou a girar a lambreta deu partida sozinha.
- Dê uma volta lá fora e acelere ao máximo.
- É pra já, chefe.
Yelchin saiu pilotando nossa lambreta e voltou dois minutos depois.
- Chefe, está 100%.
- Que velocidade atingiu? 
- Chegou a 50, chefe.
O Tuffy veio até nós.
- Agora vocês podem pegar a lambreta e se mandar daqui.
- Quanto foi o conserto, Tuffy.
- Nada!
- Sério?
- Sim.
- E aquela pílula alienígena?
- É de graça! Querem mais? Tem um monte aqui. Temos também uma outra amarelada que sua maluquinha vai gostar.
Desta vez, a Sally não reagiu. Até falou mansinha com o Tuffy.
- Que efeito provoca?
- Tome apenas uma e você se sentirá mais poderosa do que com heroína e cocaína.
- Como você sabe disso?
- Eu já experimentei uma.
- Toma sempre?
- Não. Evito isso.
- Por quê?
- A gente sai fora realidade e entra no mundo deles. Quero ficar no nosso.
- Como você sabe disso se nunca viu um deles? São estas pílulas que dão poderes a eles?
- Não. Eles não precisam destas pílulas. Acho que eles as usam para testar em nós.
Entrei na conversa.
- Tuffy, como já disse, não quero roubar seu negócio. Só quero que você me responda uma coisa: se eles são assim tão adiantados, por que eles não são capazes de consertar seus discos sozinhos?
- Eles não precisam de nós. Acho que o que eles fazem com nossa oficina deve ser parte da agenda deles aqui na terra. Uma experiência. Eu nunca vi um deles, mas sinto que eles estão sempre presentes, observando nossas reações.
Depois dessa revelação, chamei a Sally para ir embora. A Sally pediu as pílulas amarelas ao Tuffy. Ele nos deu uma caixa com mais de mil e nos advertiu para não abusarmos delas.
- Tuffy, você sabe onde fica o vilarejo onde há um festival de filmes de Humphrey Bogart?
- Está a uns 200 km daqui.
Tratei de ir embora. Disse a Sally que deveríamos nos apressar para chegar antes do anoitecer. Agradeci o Tuffy pela sua gentileza. A Sally fez o mesmo. Desta vez o Tuffy não gozou da Sally. Só lhe pediu para ter cuidado. Pegamos a Rota 66 em direção ao vilarejo. A lambreta estava com um bom desempenho. De repente, a Sally voltou a me chamar pelo meu nome.
- Bernardo, sabe de uma coisa, ao invés de ir ao vilarejo hoje, eu gostaria de voltar àquele motel e deixar para ver Casablanca amanhã. 
- Aconteceu alguma coisa, Célia?
- Não, Bernardo. Está tudo bem. É que tivemos um dia inusitado. Toda aquela loucura dentro da oficina me deixou muito mais agitada do que a maconha. Eu quero descansar um pouco, dar um tempo para pensar em tudo.
- Está bem, Célia, vamos voltar. Aquela espelunca não está longe daqui.
Passamos pela oficina, chegamos ao motel. Tomamos um banho e fomos para a cama.
- Bernardo, liga a TV!
- Será que pega algum canal aqui, neste lugar tão desolado. E esta porcaria de TV de tubo, sem controle remoto. Será que funciona? Ok, está ligada.
- Olha só, Bernardo, está passando Jeannie é um gênio. Eu gostava muito desta série.
- Eu prefiro mais filmes dos tempos atuais e futuristas.
- Vou experimentar uma daquelas pílulas amarelas.
- Cuidado, Célia.
- Caralho. Que sensação agradável. É impressionante. Mal bateu no meu estômago e parece que estou viajando. Me sinto uma deusa. Capaz de fazer o que eu quero. Estou muito feliz com este passeio. Para completar, só falta ver aquele festival do Hamphrey.
Assim que a Sally proferiu estas palavras, a programação da TV foi interrompida e, em seguida, anunciou um festival de filmes de Hamphrey Bogart, começando por Casablanca. A Célia voltou a ser a Sally. 
- Puta merda, Ernie. Foi só pensar no Hamphrey e olha só! 
A Célia, ou melhor, a Sally, para variar acendeu um charo e o dividiu comigo. Passamos dois dias deitados na cama, sem dormir, e assistimos a trinta e sete filmes do Bogart, um atrás do outro. Sally, com um olhar meio humano, meio extraterreno, convidou-me a tomar a amarelinha. Quer saber de uma coisa, pensei, vou nessa. Ela ainda estava passando pelo esôfago quando a TV anunciou um antigo filme de 2067, com atores que nunca vi na minha vida, chamado A Oficina Mágica.